QUAL É A DIFERENÇA ENTRE A ATIVIDADE FILOSÓFICA E A ATIVIDADE CIENTÍFICA?

Por

Emerson Carlos Valcarenghi

[É com grande prazer e alegria que publico aqui um texto do professor Emerson, comumente utilizado em suas aulas de introdução a metodologia científica. Eu diria que é um texto espertamente disfarçado de introdutório, já que discute questões profundas, no entanto, o texto não deixa de ser propedêutico. Como o texto tem 22 páginas, irei publicá-lo aqui por partes]

[Nota do autor:Como a pergunta‑título já sugere, nossa preocupação aqui será com o fornecimento de uma resposta que expresse a diferença entre as atividades próprias de filósofos e cientistas. Nesse caso, não estaremos imediatamente preocupados com o fornecimento de uma resposta para a questão acerca da diferença entre Filosofia e Ciência. No entanto, é certo que a resposta que desejamos para essa questão teria que estar, de algum modo, ligada à resposta dada à primeira. Sendo assim, e sem a pretensão de dar uma explicação final sobre a diferença entre Filosofia e Ciência, podemos arriscar a seguinte proposta inicial: Filosofia é o conjunto de conteúdos teóricos produzidos por indivíduos que executam a atividade filosófica e Ciência é o conjunto de conteúdos teóricos produzidos por indivíduos que executam a atividade científica.]

Que as atividades em jogo são diferentes, não temos a menor dúvida. A ausência de dúvida, porém, não fornece uma explicação automática da diferença. Nesse ensaio, porém, nós perseguiremos fornecer tal explicação. Para tanto, pensamos que seja uma boa estratégia respondermos, primeiro, as perguntas que se seguem:

 

(1) É a atividade filosófica capaz de resolver ou contribuir para a resolução de problemas científicos?

(2) É a atividade científica é capaz de resolver de contribuir para a resolução de problemas filosóficos?

 

            É importante vermos que, o que está em jogo nas perguntas (1) e (2), não é se as atividades filosófica e científica podem veicular uma informação que seria relevante para a resolução dos problemas alheios. O que está em jogo aqui é a capacidade de aquelas atividades permitirem uma decisão quanto à verdade/falsidade daquela informação. Nesse caso, combinemos o seguinte: toda vez que falarmos da capacidade de contribuição daquelas atividades na resolução de problemas alheios, estará em jogo, não a eventual veiculação de informação relevante para a resolução de problemas alheios, mas a capacidade de permitir uma decisão sobre verdade/falsidade daquela informação.

            Mas, como era de se esperar, a resposta que daremos às perguntas (1) e (2) é negativa. Ou seja, nós rejeitamos a ideia de que as atividades filosófica e científica possam resolver, ou contribuir na resolução dos problemas que são próprios de uma e de outra atividade. Mas, não é satisfatório apenas dizermos ‘não’ às perguntas acima. Temos que oferecer uma prova de que as atividades filosófica e científica não mantêm entre si a relação em jogo nas perguntas (1) e (2).

            Para provarmos nossa resposta negativa a (1) e (2), nós faremos uso da seguinte estratégia: primeiro, tentaremos dar uma explicação acerca do que são aquelas atividades. Depois disso, nós tentaremos extrair daquelas explicações as propriedades que nos permitem, não apenas provar a resposta negativa para (1) e (2), mas, principalmente, fornecer a explicação desejada para a diferença entre a atividade filosófica e a atividade científica – objetivo principal desse ensaio.

           

            Vamos começar perguntando‑nos acerca da forma geral de problemas filosóficos e também acerca da forma geral das metas próprias dos agentes filosóficos, ou seja, dos filósofos. Nossa aposta inicial é a seguinte:

 

PF: O que é um φ?[1]

 

            Considerando que a letra ‘φ’ será usada aqui para representar quaisquer termos ou expressões conceituais – por exemplo, ‘leão’, ‘velocidade’, ‘reprodução assexuada’, ‘estado justo’ etc. – então, ao substituirmos ‘φ’ por ‘leão’ a pergunta filosófica resultante é: ‘O que é um leão?’. E, se PF se trata do tipo de pergunta vinculada à atividade filosófica, nós podemos dizer que a meta própria e geral da atividade filosófica só pode ser a seguinte:

 

MF: Responder corretamente[2] perguntas como PF

 

            Mas, que tipo de resposta exigem perguntas como PF? Ora, elas nos parecem exigir o fornecimento de uma espécie de lista das propriedades ou conceitos que fazem com que algo seja um φ (um leão, um estado justo, um homem etc.) e não outra coisa.[3] Vamos chamar essa lista de conceitos de ‘análise do conceito‑φ’ ou ‘análise conceitual de φ’.[4] Sendo assim, também podemos dizer que, se a meta do filósofo é responder corretamente perguntas como PF, então tal meta equivale à de analisar o conceito‑φ tal como nós o atribuímos.[5]

           

            Mas, nesse momento, alguém poderia alegar que problemas científicos também poderiam, e talvez deveriam, ser expressos com o uso da expressão ‘O que é um φ’. Se isso fosse verdade, cientistas também pretenderiam dizer o que é um leão, matéria, reprodução assexuada etc. Bem, nós concordamos com essa objeção.[6] De fato, perguntas científicas também fazem uso da expressão ‘O que é um φ’. A diferença, iremos aqui argumentar, é que as perguntas que expressam os problemas próprios da atividade científica não seriam corretamente expressas, se fizéssemos uso exclusivo daquela expressão. Em outras palavras, uma pergunta científica não poderia ser corretamente formulada apenas com o emprego da expressão em discussão. A explicação é a seguinte: nós já vimos que perguntas do tipo ‘O que é um φ?’ exigem uma resposta que, de algum modo, discrimine os conceitos que fazem com que algo seja um φ e não outra coisa. Ocorre que as perguntas do tipo ‘O que é um φ?’ não carregam em seu sentido a exigência de que as respectivas respostas tenham de passar pelo crivo de nossas percepções sensoriais para as decidirmos verdadeiras/falsas.[7] Em outras palavras, perguntas da forma ‘O que é um φ?’ – que são as perguntas filosóficas – não exigem que suas candidatas à resposta correta tenham de passar por algum teste perceptual para que as decidamos verdadeiras ou falsas. Mas, sendo assim, então deverá ficar claro que uma pergunta científica não pode mesmo ser expressa apenas com o uso da expressão ‘O que é um φ?’. Pois, se fosse assim, então não haveria qualquer diferença entre perguntas científicas e filosóficas. E, se não houvesse qualquer diferença entre perguntas científicas e filosóficas, não haveria qualquer diferença na exigência do tipo de resposta de uma e outra. Nesse caso, não pairaria sobre respostas destinadas a perguntas científicas a exigência de que elas passassem por algum tipo de teste perceptual para serem decididas verdadeiras ou falsas.[8] Ora, mas é absurda a ideia de desprezarmos as nossas percepções para efeito de decidirmos verdade ou falsidade de respostas que fossem dirigidas a perguntas científicas. Por que essa ideia é absurda? Por que, ao imaginarmos algo de que diríamos tratar‑se de uma resposta científica, nós automaticamente negamos que tal resposta esteja livre de passar pelo crivo de nossas percepções para que a decidamos verdadeira/falsa. É falsa, portanto, a tese de que problemas científicos seria expressos apenas com o uso da expressão ‘O que é um φ?’.

            Sendo assim, vamos propor o seguinte para expressar a forma geral das perguntas científicas:

 

PC:     O que é um φ, segundo o que percebemos sensorialmente?[9]

 

            Antes de avançarmos, parece‑nos importante deixar claro o uso que faremos aqui da expressão ‘segundo o que percebemos sensorialmente’ de PC. Essa expressão será usada em seu sentido forte, ou seja, não apenas no sentido de que a decisão sobre a verdade/falsidade de uma resposta destinada a uma pergunta científica depende invariavelmente de um recurso à nossa percepção sensorial, mas no sentido de que o tipo de conformidade, que se exige com o uso do termo ‘segundo’, tem relação íntima com a ideia de que as respostas sejam confirmadas sem exceção por nossas percepções.[10] Dito de outro modo, a expressão acima exige que uma resposta dada para responder certa pergunta científica tenha sua verdade/falsidade decidida pela execução de modos que recorram as nossas percepções sensoriais e que essa resposta seja confirmada, sem exceção, por nossas percepções.

            Assim, caso PC expresse, tal como pensamos, a forma geral da pergunta própria da atividade científica, estamos aptos a expressar a meta própria dos agentes que executam tal atividade, ou seja:

 

MC: Responder corretamente a perguntas como PC

 

            Contudo, alguém poderia tentar mais uma objeção contra nossa tentativa de mostrar que as atividades filosófica e científica não mantêm entre si qualquer relação de contribuição ou de interdependência na resolução dos problemas de uma e de outra.[11] O objetor poderia argumentar que, se PC e PF expressam aquilo que define perguntas científicas e filosóficas e PC contém a expressão ‘O que é um φ?’, que define a pergunta filosófica, então, ao respondermos uma pergunta científica, teríamos à disposição algum conteúdo que seria útil para responder a pergunta filosófica correspondente. Nesse caso, concluiria o objetor, qualquer problema filosófico poderia ser resolvido no interior do exercício da atividade científica.

            Considerado que o argumento acima apresenta uma conclusão que contradiz diretamente o que queremos defender neste ensaio, não podemos avançar sem refutá‑lo. Para conseguirmos fazer isso, temos que mostrar que o argumento apresenta algum defeito condenável. De fato, seu defeito está em presumir que, basta a uma pergunta “conter” outra, para que a resposta verdadeira dada à primeira forneça elementos para responder verdadeiramente à segunda. Mas, isso é falso, como mostram os casos a seguir:

 

(1)  Essa roupa é elegante?

(2)  Essa roupa é elegante em mim?

 

            Bem, parece‑nos claro que a resposta verdadeira de (2) não seria, necessariamente, a resposta verdadeira de (1).[12] Sendo assim, podemos concluir que a objeção anterior fracassa em seu intento de barrar a conclusão que pretendemos alcançar aqui.

            Há, entretanto, outra objeção contra os propósitos desse ensaio e cuja contundência talvez seja ainda maior que a anterior. O argumento que a sustenta seria o seguinte: vamos assumir que perguntas filosóficas não fazem a exigência de que suas candidatas a resposta verdadeira sejam submetidas a qualquer tipo de teste perceptual, mas, principalmente, que atividade filosófica não necessita deles para decidir pela verdade/falsidade das candidatas à resposta verdadeira de perguntas filosóficas. Nesse caso, pergunta o objetor, como nós poderíamos decidir qual, dentre várias candidatas a responder verdadeiramente certa pergunta filosófica, teria essa propriedade? Nós não o poderíamos, diria o objetor. Com base nisso, ele conclui que a atividade científica tem a capacidade de contribuir para a resolução dos problemas próprios da atividade filosófica, dado que os testes perceptuais, os quais são necessários ao exercício da atividade científica, permitiriam decidir uma situação que, segundo ele, seria indecidível para a atividade filosófica.[13]

            Felizmente, para as pretensões que temos aqui, o argumento acima não é correto. Ele presume a tese, falsa, de que só podemos decidir a respeito da verdade/falsidade de uma afirmação, se, de alguma maneira, nós a submetermos ao crivo de nossas percepções. Para provar a falsidade dessa tese, vamos começar examinando, por exemplo, a afirmação de que um sextilhão mais um sextilhão somam dois sextilhões. Ora, parece‑nos que somos bem capazes de decidir que essa afirmação é verdadeira, sem precisarmos recorrer a uma contagem perceptual de grãos de feijão, por exemplo. A propósito, caso resolvêssemos levar a cabo uma contagem assim, talvez nos faltasse feijão ou, pior ainda, tempo de vida para consumá‑la.[14]

                Mas, embora haja uma série de dificuldades envolvidas, alguém poderia alegar que, se tivéssemos feijão e tempo de vida em quantidade suficiente, nós poderíamos contabilizar perceptualmente aquele resultado e, nesse caso, confirmaríamos perceptualmente a verdade/falsidade da afirmação em jogo. Bem, apesar de verdadeira, a alegação não captura o ponto da discussão. O ponto não é se poderíamos confirmar perceptualmente a verdade/falsidade daquelas afirmações, caso vivêssemos um sextilhão de anos ou tivéssemos uma infinidade de grãos de feijão disponíveis, mas se é necessário recorrer à percepção para decidir sobre sua verdade/falsidade.

            O argumento que irá mostrar‑nos, de uma vez por todas, que é falso que podemos decidir a verdade/falsidade de uma afirmação via algum recurso à percepção sensorial nos vem da possibilidade de darmos resposta correta à perguntas do tipo ‘O que é φ?’, mesmo quando ‘φ’ representa conceitos que atribuiríamos apenas em situações não‑perceptuais. Ou seja, mesmo quando ‘φ’ representa conceitos que vamos chamar aqui de ‘ficcionais’. Vamos supor que o conceito de minotauro seja um conceito ficcional.[15] O ponto agora é que nós não poderíamos decidir a respeito da verdade/falsidade de respostas oferecidas à pergunta ‘O que é um minotauro?’, se só pudéssemos fazê‑lo via percepção. Ocorre que nós podemos, sim, decidir a verdade/falsidade de qualquer resposta endereçada àquela pergunta sem ter que recorrer a qualquer procedimento perceptual. Para vermos, grosso modo, como isso funciona, vamos supor que a pergunta filosófica em jogo seja… ‘O que é um minotauro?’. Agora vamos supor a resposta em jogo seja a de que, se algo é um minotauro, então tal coisa é metade homem, metade libélula. Parece‑nos que somos capazes de decidir acerca da verdade/falsidade dessa resposta, mesmo que não estejamos na condição de observar qualquer coisa que disséssemos tratar‑se de um minotauro. E, se podemos decidir sobre a verdade/falsidade dessa resposta, sem termos que recorrer as nossas percepções sensoriais, então é falso que podemos decidir a verdade/falsidade de uma afirmação recorrendo a procedimentos perceptuais.

            Mas, embora sejam úteis para o que queremos provar nesse ensaio, as considerações acima poderiam motivar uma nova objeção contra as nossas pretensões. Ela se expressaria no seguinte argumento: se quando ‘φ’ representa um conceito ficcional temos à disposição um modo não‑perceptual de decidir a verdade/falsidade de respostas dadas a perguntas da forma ‘o que é um φ?’, por que não poderíamos fazer o mesmo em relação às situações em que ‘φ’ representa um conceito não‑ficcional? Podemos, diria o objetor. Mais ainda, ele diria que, ao respondermos corretamente a certa pergunta filosófica, teríamos à disposição todos os conteúdos necessários para dar resposta correta à pergunta científica correspondente. Sendo assim, concluiria o nosso objetor, a atividade filosófica é capaz de resolver problemas científicos.

            Ora, conforme podemos ver, a objeção acima avançou no sentido oposto às objeções que tínhamos discutido até então. Aquelas tentaram mostrar que, ao respondermos corretamente a perguntas científicas, teríamos material para responder, quase de lambuja, as perguntas filosóficas correlatas. A objeção mais recente tenta o oposto. Ela tenta mostrar que, se respondermos corretamente a uma pergunta filosófica, teremos à disposição todos os conteúdos para podermos responder corretamente a pergunta científica correspondente. Antes de sairmos na tentativa de refutar essa objeção, precisamos conceder‑lhe que, de fato, a decisão sobre a verdade/falsidade de respostas endereçadas a uma pergunta filosófica independe de se ‘φ’ representa um conceito ficcional ou não‑ficcional. Em outras palavras, a objeção em jogo está certa quando alega que podemos decidir, sem recurso à observação, sobre a verdade/falsidade de respostas destinadas a perguntas filosóficas, independentemente de se ‘φ’ representa um conceito ficcional ou não‑ficcional.[16] A objeção em questão, porém, está errada quando assume que a atividade filosófica é capaz de resolver problemas científicos. Mas, isso nós tentaremos provar mais adiante.

 

            Até aqui temos sido, aparentemente, bem‑sucedidos em nossa tentativa de refutar as objeções discutidas. Elas foram projetadas para impor obstáculo à elaboração de um argumento que nos permitisse provar que as atividades filosófica e científica não contribuem reciprocamente na resolução de seus problemas. Mas, apesar de termos até aqui eliminado todos os obstáculos que se opuseram à obtenção do argumento que pretendemos obter, nós ainda não o temos. Que nós ainda não o temos, ficará evidente ao fazermos as seguintes considerações: tanto perguntas do tipo ‘o que é um φ?’, quanto perguntas do tipo ‘O que é um φ, segundo o que percebemos sensorialmente?’ demandam uma discriminação dos conceitos que fazem com que algo seja um φ. Vamos supor então que, se algo é um φ, também é um ψ. Nesse caso, a pergunta que se torna agora crucial é a seguinte: em que resposta ψ tem que verdadeiramente constar, na resposta à pergunta filosófica ou na resposta à pergunta científica?[17]

            Nós pensamos que a resposta da pergunta acima venha da distinção entre conceitos necessários relativamente ao conceito‑φ e conceitos contingentes relativamente ao conceito‑φ. Grosso modo, se um dado conceito, digamos ψ, é necessário relativamente ao conceito‑φ, então, se deixássemos de atribuí‑lo a alguma coisa, também deixaríamos de atribuir φ àquela coisa. Também grosso modo, se ψ é um conceito contingente em relação ao conceito‑φ, é falso que nós deixaríamos de atribuir φ a alguma coisa, se deixássemos de atribuir ψ à mesma coisa.

            Por exemplo, vamos imaginar que estivéssemos testando respostas para a pergunta o que é um sapo. Vamos supor que a resposta em teste seja a de que, se uma coisa é um sapo, então ela é verde.[18] Agora, vamos imaginar algo a que atribuímos o conceito‑sapo e também o conceito‑verde. Façamos agora uma série de mudanças, puramente imaginacionais, no item “sapídico” e “verdídico” que acabamos de imaginar de modo que, no fim da série, passemos a negar tão somente a atribuição do conceito‑verde àquele item. A pergunta então é a seguinte: nós continuamos, ou não, atribuindo àquele item o conceito‑sapo? Se nossa resposta é positiva, então a atribuição que fizemos do conceito‑verde, ao item que atribuímos ser um sapo, trata‑se de uma atribuição irrelevante para as nossas atribuições do conceito‑sapo. Nesse caso, diríamos que nossa atribuição do conceito‑verde a coisas que atribuímos serem sapos se trata de uma atribuição contingente. Sendo assim, diríamos que o conceito‑verde não poderia constar numa lista de conceitos necessários para algo ser um sapo. Por outro lado, se negássemos uma atribuição do conceito‑sapo ao item que deixou de receber nossa atribuição do conceito‑verde, a atribuição do conceito‑verde seria relevante em nossas atribuições do conceito‑sapo. Nesse caso, diríamos que nossa atribuição do conceito‑verde seria uma atribuição necessária e, sendo assim, o conceito‑verde teria que constar numa lista de conceitos necessários para algo ser um sapo.[19]

            Assim, se uma pergunta qualquer demanda uma discriminação de conceitos, então, ou ela demanda uma discriminação de conceitos necessários para que algo seja um φ, ou ele demanda uma discriminação de conceitos contingentes para que algo seja um φ. Posto que, tanto perguntas filosóficas, quanto científicas, demandam uma discriminação de conceitos, então, enquanto uma delas demanda uma discriminação de conceitos necessários para algo ser um φ, a outra demanda uma discriminação de conceitos contingentes para algo ser um φ. Assim, tentaremos mostrar que o que cabe à atividade filosófica é a determinação de conceitos necessários para algo ser um φ, enquanto o que cabe à atividade científica é a determinação de conceitos contingentes para algo ser um φ.[20]

            Nós vamos começar tentando mostrar que as perguntas próprias da atividade científica exigem respostas que veiculem somente conceitos contingentes. E o argumento que temos para mostrá‑lo é o seguinte: vamos supor que, no mundo atual, sapos sejam verdes e que nós os percebamos assim. Vamos supor também que, num mundo possível qualquer, sapos fossem marrons e que nós os percebêssemos assim nesse mundo. Ora, se coubesse à atividade científica responder perguntas que demandassem uma discriminação dos conceitos necessários acerca do que é um sapo e isso tivesse que ser feito através de um recurso às percepções sensoriais,  assim como determina a exigência observacional expressa nas perguntas científicas, então nós obteríamos, infelizmente, respostas inconsistentes sobre o que seria necessário para algo ser um sapo. Conclusão: não cabe à atividade científica fornecer respostas a perguntas que demandem uma discriminação dos conceitos necessários acerca do que é um φ. Ora, se não cabe à atividade científica fornecer respostas a perguntas que demandem uma discriminação dos conceitos necessários para algo ser um φ, então só pode lhe caber o fornecimento de respostas a perguntas que demandem uma discriminação dos conceitos contingentes acerca do que é um φ. Falta‑nos agora mostrar que as perguntas próprias da atividade filosófica exigem respostas que veiculem somente conceitos necessários. Ora, isso não parece difícil de fazer, se conservarmos em mente o que concluímos há pouco. Ou seja, nós já vimos que ambas as perguntas – filosóficas e científicas – demandam respostas que discriminem conceitos. Sendo assim, elas demandam uma discriminação, ou de conceitos necessários, ou de conceitos contingentes. Se, tal como vimos acima, cabe à atividade científica apenas fornecer respostas para perguntas que demandam uma discriminação de conceitos contingentes, então à atividade filosófica pode caber o fornecimento de respostas a perguntas que demandem uma discriminação de conceitos necessários.

            O argumento acima nos permitiu provar que há uma diferença ineliminável na tipologia dos conceitos exigidos nas respectivas verdadeiras de perguntas filosóficas e científicas. Tal resultado nos permite reformar PF e PC do seguinte modo:

 

PF1:    O que é um φ necessariamente?

PC1:    O que é um φ contingentemente e segundo o que percebemos?

 

            Nós queremos crer que PF1 e PC1 melhoram o que propusemos serem inicialmente perguntas filosóficas e científicas. Se esse é o caso, então avançamos mais um passo em direção às metas que queremos atingir neste ensaio. Mas, a despeito desse avanço, nós ainda não conseguimos mostrar que as atividades filosófica e científica não podem sequer contribuir para a resolução dos problemas de uma e de outra. Isso, aliás, pode ser comprovado a partir do exame de mais uma objeção contra as metas desse ensaio.

            Essa nova objeção pode ser expressa através do seguinte argumento: suponhamos que vemos algo a que atribuímos ser um φ. Ora, se um dado conceito, digamos ψ, é necessário relativamente a φ, então, quando atribuímos φ àquele item, nós, de algum modo, também lhe atribuímos ψ.[21] Em outras palavras, se atribuímos φ numa situação perceptual, todos os conceitos relevantes para algo ser um φ terão sido atribuídos. Nesse caso, um objetor poderia alegar que um agente científico disporia de, pelo menos, um modo mediante o qual ele poderia contribuir para a produção de uma resposta correta a perguntas filosóficas. O objetor conclui que, após a execução dos métodos próprios da atividade científica, um cientista poderia relatar os conceitos necessários ao conceito‑φ.

            A objeção acima soa pertinente e nos obriga a abrir uma nova frente de discussão neste ensaio. Na discussão que se segue, tentaremos mostrar, de uma vez por todas, que as atividades filosófica e científica não podem contribuir para a resolução dos problemas alheios por razões metodológicas. A ideia é que os métodos próprios de cada uma das atividades em questão não podem ser usados para decidir a verdade/falsidade das respostas endereçadas às perguntas alheias.


[1] Cabe aqui uma observação. É que há perguntas, genuinamente filosóficas, que podem ser expressas sem o uso do termo ‘um’, ou com o termo ‘um’ sendo substituído pelo termo ‘o’. Por exemplo: ‘O que é conhecimento?’, ‘O que é crença justificada?’, ‘O que é o homem?’ etc. Nesse caso, um modo melhor de expressar a forma própria e geral da pergunta filosófica seria através da frase ‘O que é/(um/o) φ?’ (com a barra indicando o uso ocasional dos termos correlativos). Mas, dada a maior simplicidade do formato acima, nós tentaremos manter, ao máximo, o seu uso. Caberá ao leitor fazer as devidas adaptações, caso as julgue indispensáveis.

[2] Parece‑nos útil dizer que as palavras ‘correto’ e ‘verdadeiro’, bem como os vocábulos correlatos, não estarão sendo usadas aqui como sinônimas. A palavra ‘correto’ será usada, não apenas para indicar algo verdadeiro, mas que também é completo. Um exemplo pode tornar o ponto mais claro: se me perguntam qual o meu nome, e eu respondo ‘meu nome é Emerson’, minha resposta é verdadeira, mas não é completa. Se eu tivesse respondido ‘Emerson Carlos Valcarenghi’, eu teria respondido, não apenas verdadeiramente, mas também corretamente. Ou seja, o ponto da diferença é a completude de verdades. Essa distinção nos permite distinguir entre propostas verdadeiras e propostas corretas de solução de problemas. Nesse caso, são as corretas que desejamos.

[3] Sendo assim, não é difícil ver que, após respondermos certa pergunta filosófica, poderíamos dirigir outra pergunta como PF aos termos/expressões conceituais expressos em nossa resposta. Afinal de contas, se uma pergunta filosófica requer uma resposta que liste os conceitos que fazem com que algo seja um φ, então sempre será possível reaplicar perguntas filosóficas – perguntas como PF aos termos ou expressões conceituais das sucessivas respostas. Partindo dessa consideração, alguém poderia sentir‑se motivado a argumentar que a reaplicação sucessiva de perguntas como PF aos termos ou expressões conceituais das sucessivas respostas permitiria uma espécie de regresso ao infinito que inviabilizaria a possibilidade de respondermos corretamente a primeira pergunta da série (ver Popper, em Conhecimento Objetivo, para tal sugestão). Nós não vamos discutir detalhadamente essa objeção aqui. No entanto, queremos deixar expressa a nossa crença de que a mera possibilidade de reaplicação sucessiva da pergunta filosófica aos termos/expressões conceituais de uma dada resposta a uma pergunta filosófica não representa necessariamente um impedimento à consecução da meta filosófica. A objeção em jogo assume a ideia de que jamais chegaríamos ao final numa resposta a perguntas como PF, se porventura reaplicássemos aquele tipo de pergunta aos termos/expressões conceituais das sucessivas respostas. Mas, isso não é necessariamente assim. Seria perfeitamente possível que, a partir de uma determinada reaplicação de uma pergunta como PF, chegássemos a uma situação em que fosse correto que nenhuma resposta diferente das anteriores pudesse ser dada. Ou seja, se, a partir de uma determinada reaplicação de PF, a resposta correta passasse a ser a mesma, nós poderíamos concluir, verdadeiramente, que aquela seria a resposta terminal em relação aos termos/expressões conceituais em jogo. Nesse caso, nós teríamos topado com aqueles termos ou expressões conceituais que poderíamos chamar, propriamente, de ‘elementares’ ou ‘primitivos’.

[4] Duas observações importantes sobre o que consideramos ser uma análise conceitual. Em primeiro lugar, não é descabido dizer que ela é uma espécie de decomposição. Dizê‑lo, porém, não nos coloca necessariamente próximos de dizer que o tipo de decomposição envolvida na análise conceitual é uma decomposição física. Em segundo lugar, a análise de um conceito, digamos φ, exige que expressemos os conceitos que são necessários para algo ser um φ. Mas, isso não quer dizer que todo tipo de verdade necessária, que esteja vinculada a ser ou não um φ, tenha que constar na resposta à PF correspondente. Por exemplo, trata‑se de uma verdade necessária a de que, se algo é uma zebra, então não é uma mula (e também vice‑versa). Mesmo assim, não é verdade que as frases ‘se algo é uma mula, então não é uma zebra’ e ‘se algo é uma zebra, então não é uma mula ’ expressam, respectivamente, algum tipo de análise dos conceitos de mula e de zebra.

[5] A anexação da expressão ‘tal como nós o atribuímos’ à expressão ‘analisar o conceito‑φ?’ poderia enfrentar alguma resistência. Alguém poderia reclamar que as expressões ‘analisar o conceito‑φ’ e ‘analisar o conceito‑φ tal como nós o atribuímos’ têm sentidos diferentes, pois, segundo ele, a primeira teria um caráter objetivo, enquanto a segunda teria um caráter subjetivo. Mas, essa objeção é falsa. Afinal de contas, analisar o conceito‑φ tem que equivaler, em ultima instância, a analisar o conceito‑φ tal como nós o atribuímos. Não pode haver qualquer diferença entre a análise do conceito‑φ e a análise do conceito‑φ tal como nós o atribuímos. Isso porque, ao atribuirmos o conceito‑φ a alguma coisa, nós atribuímos todos os conceitos que uma análise correta do conceito‑φ teria que revelar. Se não fosse assim, então, ou não seria φ o conceito que analisamos, ou não seria φ o conceito que atribuímos. Em outras palavras, a análise correta de φ terá que expressar todos os conceitos que atribuímos ao atribuirmos φ a alguma coisa. Se é assim, então não há qualquer diferença entre analisar o conceito‑φ e analisar o conceito‑φ tal como nós o atribuímos. Nesse caso, vemos que a expressão ‘tal como nós o atribuímos’ não se trata de um “qualificador” do significado de φ, mas de um indicador do modo pelo qual somos capazes de obter a análise do conceito‑φ. Grosso modo, trata‑se da ideia de que nós não precisamos ter contato direto com o conceito‑φ para sermos capazes de prover sua análise completa. Para fazê‑lo, “basta” que acessemos φ, indiretamente, através das atribuições que dele fazemos. Tais atribuições, diga‑se de passagem, podem ser efetuadas, não apenas em situações perceptuais (como quando percebemos algo a que atribuímos φ), mas também em situações imaginacionais (como quando imaginamos algo a que atribuímos φ). Além disso, também é importante mencionarmos o fato de que o modo pelo qual podemos analisar corretamente o conceito‑φ tem a propriedade de ser infalível. O ponto é que, se é impossível atribuir φ a x sem que se atribua a x todos os conceitos que seriam expressos na resposta correta à pergunta o que é um φ, então o modo pelo qual respondemos corretamente a essa pergunta tem que constituir modo infalível de analisarmos φ.

[6] Nesse ensaio, discutiremos várias objeções. Algumas delas serão forjadas para tentar bloquear nossa tentativa de provar a resposta negativa que demos às perguntas (1) e (2). Algumas delas serão até mesmo úteis aos propósitos desse ensaio, desde que, é claro, nós as  refutemos. Nesse caso particular, sua refutação irá expressar o modo pelo qual o argumento que pretendemos nesse ensaio tem que ser construído.

[7] Quando falamos aqui em decidir a verdade/falsidade de uma determina resposta, não estamos falando necessariamente de uma prova de sua verdade/falsidade, mas em termos à disposição um modo que, tendo em vista o problema intelectual em ordem, permite‑nos tomar uma resposta como verdadeira em detrimento de outras. Nesse sentido, decidir pela verdade de uma resposta, em detrimento de outra(s), implica que a resposta decidida como verdadeira não foi aleatoriamente tomada como verdadeira em vista do problema intelectual em ordem.

[8] Aqui há um ponto que merece algum esclarecimento adicional. Ao dizermos que perguntas científicas exigem que seja perceptual o modo através do qual decidimos a verdade/falsidade das respostas a elas dirigidas, não queremos dizer que o modo em jogo tenha de ser formado exclusivamente por procedimentos perceptuais. Para vermos porque não é assim, imaginemos alguém que tem como objetivo testar sua teoria de que certa sociedade, que ele crê, com verdade, já ter sido extinta, praticava o canibalismo por motivações puramente gastronômicas. Se é assim, a crença de que aquela sociedade já existira é essencial para os procedimentos de decisão do agente e, sendo assim, a proposição em jogo faz parte do pacote de proposições acreditadas pelo agente, juntamente com a proposição que é objeto de sua hipótese. Ora, uma vez que a sociedade em jogo se encontra extinta, é certo que o agente não irá perceber sensorialmente nenhum de seus concidadãos. Por outro lado, também é certo que ele não pode decidir corretamente a respeito da verdade/falsidade de sua teoria, se o modo que executa para fazê‑lo não inclui algum procedimento perceptual cujo conteúdo é presumido por ele como sendo efeito da ocorrência histórica daquela sociedade (registros escritos, pictográficos, utensílios de cozinha etc.).

[9] Alguém poderia alegar que PC não contempla perguntas científicas da forma ‘que fator(es) causam tal‑e‑tal?’ ou da forma ‘que efeito(s) decorre(m) de tal‑e‑tal?’. A objeção parece sugerir que PC não contempla perguntas que demandam respostas discriminando conceitos relacionais, isto é, conceitos que estabelecem alguma relação entre fatos e/ou indivíduos. Mas, isso não é verdade. Em rigor, não há qualquer impedimento legítimo para que perguntas como PC sejam corretamente respondidas por sentenças que expressem conceitos relacionais. Para vê‑lo, consideremos os seguintes modelos de resposta para perguntas como PC: (1) um φ é, segundo o que percebemos, algo que causa tal‑e‑tal evento/indivíduo; (2) um φ é, segundo o que percebemos, algo que produz tal‑e‑tal evento/indivíduo; (3) um φ é, segundo o que percebemos, algo que move tal‑e‑tal evento/indivíduo etc.

[10] É importante notar que o fato de uma teoria não ter exceção perceptual não implica dizer que é impossível que ela seja perceptualmente desconfirmada. Em outras palavras, o fato de uma teoria não ter exceção perceptual não significa que ela seria perceptualmente confirmada em todos os mundos possíveis. Porém, considerando que também seria falso dizer que uma teoria sem exceção perceptual é perceptualmente confirmada apenas no mundo atual, diremos, por enquanto, que uma teoria sem exceção perceptual tem a propriedade de ser perceptualmente confirmada no mundo atual e nos mundos possíveis que são relevantemente ligados ao mundo atual.

[11] A tese de que haveria algum tipo de interdependência nesse sentido parece ser defendida por Quine em Dois Dogmas do Empirismo e Epistemologia Naturalizada.

[12] As mulheres que o digam.

[13] O argumento usado pelo objetor pertence ao tipo que costumamos chamar de ‘redução ao absurdo’. Ao fazermos uso de um argumento assim, tentamos provar que certa tese, que será assumida apenas hipoteticamente como verdadeira no início do argumento, é, em rigor, falsa. Como nós provamos a falsidade de uma tese assumida apenas hipoteticamente como verdadeira? Provando que ela implica uma falsidade necessária. A ideia é a de que se ela implica uma falsidade, e o argumento é do tipo que não permite passarmos de verdades para falsidades, então ela própria é uma falsidade. Além disso, queremos mencionar uma outra objeção que, além de ser frequentemente invocada contra a tese que queremos defender aqui, pertence também à ideia de que problemas filosóficos dependeriam invariavelmente de algum tipo de recurso a procedimentos perceptuais para serem resolvidos. Trata‑se da objeção que apela para a questão da origem dos conceitos. Essa objeção argumenta, à moda de Hume em Investigação Sobre o Entendimento Humano, que a percepção explica, em alguma medida, a origem dos conceitos usados pelos agentes em suas atribuições. A objeção conclui que nenhuma pergunta filosófica pode ser corretamente respondida sem recurso à percepção. O que diremos disso? Nós diremos que a “objeção” acima, simplesmente, confunde tudo. Isso porque a questão da origem dos conceitos não tem relevância para a discussão que estamos empreendendo acima e, sendo assim, qualquer conclusão que se tente tirar de objeções desse tipo erra completamente o alvo. Isso porque não importa como se originam os conceitos usados pelos agentes em suas atribuições. Escolhamos a teoria que preferirmos: a de que conceitos são entidades abstratas acessáveis pelo agente por ocasião das atribuições, ou a de que conceitos são inatos ao agente, ou a de que conceitos se originam da mente de alguma divindade e são acessados pelo agente por ocasião das atribuições, ou a de que conceitos são formados a partir de complexos processos de percepção sensorial, ou a de que conceitos têm origem a partir de alguma espécie de osmose sócio‑cultural etc., etc. Qualquer que seja a teoria que escolhermos a respeito da origem dos conceitos, ela nada dirá nada sobre a constituição dos conceitos, que é a questão demandada por perguntas filosóficas. Além disso, mesmo que uma explicação humeana da etiologia dos conceitos fosse verdadeira, isso não permitiria a conclusão de que a percepção seria o modo pelo qual responderíamos corretamente uma pergunta que demanda pela constituição de um dado conceito.

[14] Considerações desse tipo sugerem que o status da verdade/falsidade de proposições matemáticas, do tipo que usamos no exemplo acima, e o status de respostas dadas a perguntas do tipo ‘O que é um φ?’ é o mesmo. De fato, queremos assumir compromisso com a tese de que aquele tipo de proposição matemática e respostas dadas a perguntas do tipo ‘O que é um φ?’ são, ambas, propostas de análise conceitual. Apesar desse compromisso, nós não discutiremos o ponto nesse ensaio.

[15] O leitor não precisa ter dúvida: nós não acreditamos que minotauros vaguem por aí. Mas, caso estejamos errados sobre isso, nosso erro não impõe obstáculos ao desenvolvimento do argumento que desejamos acima. Se minotauros vagassem agora por aí e, nesse caso, fossem perceptíveis para nós – mesmo que não percebêssemos agora nenhum de seus exemplares – então nosso argumento poderia continuar resistente, se substituíssemos ‘minotauro’ por ‘bicho‑papão’, ‘montanha de ouro’, ‘papai noel’ etc., até encontrarmos um conceito que, no mundo atual, atribuíssemos apenas em circunstâncias imaginacionais.

[16] Tal verdade liquida a pretensão de que perguntas filosóficas e científicas seriam corretamente expressas através das seguintes formas:

            PF’: O que é um φ, quando ‘φ’ representa um conceito ficcional?

            PC’: O que é um φ, quando ‘φ’ representa um conceito não‑ficcional?

Embora as formas acima expressem algo que desejamos – o estabelecimento de espaços independentes para as atividades filosófica e científica – elas o fazem de modo duplamente errôneo. O primeiro erro está na restrição inapropriada do espaço da atividade filosófica. Afinal de contas, se é verdade que a atividade filosófica é capaz de decidir o que é um φ, independentemente de se ‘φ’ simboliza um conceito ficcional ou não‑ficcional, então PF’ é falsa. O segundo erro está na exclusão sumária da exigência observacional da pergunta científica. Ora, nós vimos, já no início desse ensaio, que uma proposta que sustentasse a desnecessidade dessa exigência seria contraintuitiva.

[17] É claro que, se respondêssemos que ψ deveria constar na resposta de ambas as perguntas, estaríamos assumindo, erroneamente, que PF e PC são sinônimas. Mas, é claro, o fato de PF e PC não serem sinônimas não prova, por si só, que as atividades científica e filosófica não poderiam contribuir reciprocamente no que concerne à resolução de seus problemas.

[18] Conforme vemos, a resposta acima foi expressa na forma de uma sentença condicional (‘se…, então…’). Esse, porém, não é o único jeito de expressarmos os conceitos que constituiriam o conceito‑sapo. Outras sentenças poderiam fazer o mesmo trabalho. Por exemplo: ‘ser sapo implica ser verde’, ‘a “sapice” implica a “verditude”’, ‘todos os sapos são verdes’ (num sentido bem estrito), ‘O que é sapo é verde’ etc.

[19] Nesse ponto, parece‑nos interessante tecer um comentário, mesmo que breve, sobre a objeção de que a distinção entre conceitos necessários e contingentes não passaria de mera ficção linguística. Ora, considerando o que dissemos acima a respeito desse assunto, não nos parece que essa objeção poderia prosperar. Senão, vejamos: vamos supor que estamos vendo algo que dizemos tratar‑se de um leão. Suponhamos agora que o item em questão passe a sofrer tal série de transformações que, ao cabo delas, passássemos a dizer que vemos, não mais um leão, mas, sim, um tigre. Ora, se não houvesse coisas tais como atribuições necessárias em relação àquilo que dizemos tratar‑se de um leão, por que cargas d’água diríamos, ao fim e ao cabo daquelas transformações, que estamos diante de um tigre, e não mais de um leão? Se em nossas respectivas atribuições não houvesse conceitos necessários para que algo fosse um leão, então por que raios mudaríamos nossa atribuição do conceito de leão para o conceito de tigre depois daquelas transformações? E agora, ao revés, vamos supor que, após determinadas transformações no item a que atribuímos o conceito‑leão, não deixássemos de atribuir esse conceito ao item transformado. Nesse caso, como poderíamos negar que aqueles conceitos, que deixamos de atribuir em função das transformações sofridas por aquele item, tratam‑se de conceitos contingentes para que algo seja um leão? Em suma, ao contrário do que assume a alegação em jogo, as hipóteses que discutimos aqui provam que há uma diferença ineliminável no status daqueles conceitos em razão da diferença de status de nossas respectivas atribuições conceituais.

[20] É fundamental notar que o fato de um conceito ser contingente não implica que sua atribuição seja fugaz ou singular. Com efeito, o tipo de conceito contingente que cabe à atividade científica determinar é, conforme já sugerimos, aquele que se expressa nos chamados ‘princípios naturais’ ou ‘leis naturais’. Tais princípios ou leis são verdades que não têm exceção no mundo atual ou nos mundos relevantemente a ele relacionados.

[21] Uma advertência: embora seja verdade que, se ψ é necessário relativamente a φ, então nós atribuímos ψ quando atribuímos φ, isso não significa dizer que, se nossa atribuição de φ se deu numa situação perceptual, então nossa atribuição de ψ também se deu naquela situação perceptual. Por exemplo, se, para ser um sapo, fosse necessário que algo tivesse um coração e víssemos algo a que atribuímos ser um sapo, nada impediria que a atribuição do conceito ter‑um‑coração tivesse sido efetuada, nesse caso, numa situação imaginacional.

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Uma resposta to “QUAL É A DIFERENÇA ENTRE A ATIVIDADE FILOSÓFICA E A ATIVIDADE CIENTÍFICA?”

  1. jogo do bicho Says:

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