ANULABILISMO: UMA RESPOSTA AOS CONTRA-EXEMPLOS DE GETTIER?

Gettier através de dois contra-exemplos, mostrados em um artigo de três páginas, colocou em dúvida a suficiência da definição tripartite de conhecimento, que afirma que para o sujeito saber que p, este tem que ter crença verdadeira justificada. Logo abaixo será mostrado um caso de tipo Gettier:

Caso da maternidade. Uma enfermeira encontra-se no berçário da maternidade e tem diante de si dois bebês recém-nascidos, sendo que ela esteve presente em ambos os partos e os bebês são bastante parecidos. Ela olha para o bebê à sua esquerda e crer que está olhando para o filho de Marta, e de fato aquele é o filho de Marta e não de Maria, mas o que ela não sabe é que ocorreu um erro ao colocar os nomes das mães nas pulseiras que os bebês estavam usando e na verdade o filho de Marta está como se fosse de Maria e vice-versa.

Neste caso temos um exemplo de um sujeito que tem crença verdadeira justificada, mas a acidentalidade não deixou de fazer parte de sua crença, portanto o sujeito não tem conhecimento. Para resolver este problema surgiram várias teorias e dentre elas o anulabilismo que propõe uma quarta condição relacionada a justificação para o sujeito saber que p.
A teoria anulabilista apregoa que o sujeito não tem conhecimento nos casos de Gettier, porque existe uma proposição verdadeira que se passasse a fazer parte do seu conjunto de crenças, esta destruiria sua justificação. Sendo assim, o sujeito tem conhecimento quando sua justificação não for anulável. Em outras palavras, quando não exista uma verdade que ao ser crida não leve a justificação por água abaixo.
Esta é uma proposta muito forte, pois reputa casos de conhecimento como se fossem de ignorância. Veja os casos abaixo:

Caso dos irmãos Grabit. Digamos que eu tenha um amigo chamado Tom Grabit e vejo alguém que parece ser Tom roubando um livro da livraria: eu até chego a acreditar que Tom roubou um livro daquele estabelecimento. Tom de fato roubou o livro. Porém, eu não sei que Tom tem um irmão gêmeo idêntico, John, que é um ladrão e estava na livraria no dia em questão e roubou uma cópia do mesmo livro, só que este estava no banheiro enquanto eu via Tom roubando o livro.

Caso da louca senhora Grabit. Suponha que o caso acima de fato ocorreu com a exceção que Tom não tem um irmão gêmeo, mas que a mãe de Tom, que tem alucinações, admitiu as alegações acerca de John.

O anulabilismo parece resolver satisfatoriamente o primeiro caso, pois se eu passasse a acreditar na proposição que Tom tinha um irmão gêmeo minha justificação seria anulada. No entanto, no segundo caso ao acreditar na proposição que a mãe de Tom ter dito que ele tinha um irmão gêmeo idêntico, John; eu perderia justificação, mas se a mãe de Tom fosse tida como louca e nunca tivesse havido um gêmeo, parece que eu teria sabido o tempo todo que Tom havia roubado o livro.

Referências
DANCY, J. Introducción a la Epistemología Contemporánea. Ed. Tecnos, 1993.
GETTIER, Edmund. Is Justified True Belief Knowledge? Analysis 23, n. 6, 1963, pp 121-123. Reimpresso em MOSER, Paul. Empirical Knowledge – Readings in Contemporary Epistemology. Lanhan: Rowman & Littlefield. 2. ed., 1996.
KLEIN, P. D. Concept of Knowledge. In: Routledge Encyclopedia of Philosophy.London; New York: Routledge, 1998. CD-ROM, version 1.0.

Anúncios

5 Respostas to “ANULABILISMO: UMA RESPOSTA AOS CONTRA-EXEMPLOS DE GETTIER?”

  1. Paulo Sérgio Says:

    lendo seu texto pude entender melhor os conteúdos dados em sala.Por isso se você tiver tempo e boa vontade escreva mais sobre os outros cosos de respostas aos contra exemplos de Gettier

  2. Jaaziel de Carvalho Costa Says:

    Elano, o caso de Gettier que você propôs – caso da maternindade – é semelhante ao caso do assassinato dos líderes dos direitos civis de Goldman. Porém, existem divergencias quanto a este último, visto que algumas pessoas atribuem conhecimento e outras não. Nos casos de Gettier é um caso perfeito de ignorância, então dá uma sofisticada no caso da maternidade. Quanto aos outros exemplos achei muito bons. Creio que o blog vai vingar! Continue com o trabalho! abraço

    • Elano Says:

      Caro Jaaziel,
      Realmente o caso de Goldman é controvertido,recebo com muita alegria suas considerações e tentarei trabalhar mais o caso.

  3. Jaaziel de Carvalho Costa Says:

    Me esqueci de uma coisa!
    O artigo de Gettier possui 3 contra-exemplos e não 2 como você afirma!
    Obs: isso é só um comentário histórico que não aumenta nem diminui o conteúdo que queres passar!

    • Elano Sudário Bezerra Says:

      Caro Jaaziel,
      O artigo de Gettier realmente possui apenas dois contra exemplos.Acredito que você esteja fazendo uma diferenciação no segundo caso entre o caso do Ford e de Brown em Barcelona,mas istes são apenas um caso.Para tanto irei transcrever abaixo a conclusão do artigo:
      “These two examples show that definition (a) does not state a sufficient condition for someone’s knowing a given proposition. The same cases, with appropriate changes, will suffice to show that neither definition (b) nor definition (c) do so either.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: