O QUE É FILOSOFIA? PARTE 1

Por James Cornman e Keith Lehrer

em

Philosophical Problems and Arguments – An introduction, 2.ed. Macmillan Publishing: New York, 1974. Trecho do primeiro capítulo.

Tradução de Marcelo Fischborn

O texto foi divulgado originalmente em fischborn.wordpress.com.

No tocante a assuntos acadêmicos, tanto nas ciências como nas humanidades,é, em geral, verdadeiro que o modo mais satisfatório de descobrir do que ele trata é adentrar no estudo das questões e problemas característicos da área.

Descrições gerais de uma área são frequentemente tão abstratas a ponto de não serem informativas, ou ainda muito idiossincráticas, a ponto de serem enganosas. Apesar disso, vale a pena tentar alguma caracterização da filosofia, ainda que histórica, para que você tenha um melhor entendimento da natureza da investigação filosófica. Uma das principais razões para proceder assim, é explicar o papel principal da disputa e da argumentação no estudo de problemas filosóficos. Para isso, iremos, sem pretender oferecer uma definição precisa, apresentar algumas informações sobre a filosofia como uma disciplina, a fim de oferecer uma orientação geral a respeito da área que você está prestes a estudar.

Primeiramente, algumas palavras sobre o desenvolvimento histórico da filosofia como uma área. Não muito tempo atrás, todos os assuntos eram considerados parte da filosofia. Filosofia da matéria abarcava o que nós hoje entendemos por física e química, filosofia da mente englobava o assunto de psicologia e áreas adjacentes. De modo breve, a filosofia era inicialmente algo tão amplo, a ponto de cobrir qualquer área de investigação teórica. Qualquer assunto, para o qual pudesse ser apresentada uma teoria geral explicando seu conteúdo, teria sido uma ramificação da filosofia. Entretanto, uma vez que a área de estudo alcançasse o ponto onde uma teoria principal dominasse e, com ela, desenvolvessem-se métodos padronizados de crítica e confirmação, daí em diante a área estaria separada da nação-mãe da filosofia e se tornaria independente.

Outrora, por exemplo, os filósofos avançaram uma variedade de teorias para explicar a natureza da matéria. Alguém sugeriu que tudo era feito de água; outro, um tanto próximo das concepções atuais, propôs que a matéria era composta de minúsculos, homogêneos e indivisíveis átomos. Uma vez que certas teorias da matéria, bem como métodos experimentais para testá-las, tornaram-se devidamente estáveis na comunidade de sábios, a filosofia da matéria transformou-se nas ciências da física e da química. Um outro exemplo de problema filosófico que foi convertido em problema científico é o problema da natureza da vida. Houve um tempo em que foi conjeturado que a vida era uma entidade espiritual, que entrava no corpo no nascimento e saía com a morte, e, em outro, que era ela uma força vital especial que ativava o corpo. Atualmente, a natureza da vida é explicada em termos bioquímicos.

Assim, é uma peculiaridade da filosofia que, uma vez que a argumentação e disputa nos tenham levado a uma teoria com uma metodologia adequada, cobrindo com sucesso uma questão filosófica, teoria e metodologia tornam-se separadas da filosofia e são consideradas parte de uma outra disciplina. Certos assuntos estão atualmente em transição. Um exemplo disso é a área da linguística e, dentro dela em particular, a semântica.Filósofos têm articulado uma variedade de teorias para explicar como palavras podem ter significado e o que constitui este significado. Foram dadas explicações em termos de imagens, ideias e outros fenômenos psicológicos.Atualmente, filósofos e linguistas explicam significado em termos da função das palavras no discurso e das características semânticas subjacentes, que desempenham na semântica um papel similar ao que é desempenhado pelas partículas atômicas na física. Nessa área não há uma distinção precisa entre um filósofo e um linguista. Ambos aplicam métodos de análise gramatical e semântica, recentemente desenvolvidos, para articular leis e teorias, explicando assim a estrutura e conteúdo da linguagem. É característico de uma área em transição que a questão sobre se um investigador é um filósofo ou um cientista torna-se discutível. Em filosofia, o sucesso do desenvolvimento de uma área frequentemente leva à independência e autonomia da parte desenvolvida. É por essa razão que qualquer especificação da filosofia em termos de assuntos é suscetível de ser tanto controvérsia hoje, como desatualizada amanhã.

Apesar de tudo, as considerações precedentes explicam uma característica relativamente constante da filosofia, a saber, o estado de arte indeterminado. As questões estudadas em filosofia são abordadas através de métodos dialéticos de argumento e contra-argumento. E um estudante pode às vezes sentir que, depois de longa e árdua investigação, nada foi determinado. Esta impressão é parcialmente devida ao fato de que, em qualquer época, a filosofia sempre se encontrará lidando com certo tipo de problemas intelectuais: estes são aqueles problemas ainda não articulados de modo tal que uma única teoria e metodologia capaz de resolvê-los lhes tenha sido fixada. Onde o intelecto humano está lutando com algum problema intelectual complexo e não há modelo e abordagem experimental estáveis para o assunto, pode-se esperar encontrar tal problema no domínio da filosofia. Uma vez que a investigação intelectual tenha levado à articulação de uma teoria padrão, juntamente com um acordo sobre um método de investigação experimental, então, muito provavelmente, o problema não mais será considerado parte da filosofia. De fato, ele será atribuído a alguma disciplina independente. Assim, a filosofia, devido ao seu próprio sucesso, perde um de seus assuntos.

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