O QUE É FILOSOFIA? PARTE 3

Por James Cornman e Keith Lehrer

em

Philosophical Problems and Arguments – An introduction, 2.ed. Macmillan Publishing: New York, 1974. Trecho do primeiro capítulo.

Tradução de Marcelo Fischborn

O texto foi divulgado originalmente em fischborn.wordpress.com.

Cinco problemas filosóficos

Após uma introdução à metodologia da argumentação, nós seguiremos a um
exame de cinco problemas filosóficos. Esses problemas foram preocupação dos filósofos no passado e estão no núcleo da controvérsia filosófica atual. Assim, os capítulos subsequentes fornecerão exemplos paradigmáticos de questões e argumentos filosóficos. Um estudo cuidadoso destes capítulos recompensará você com uma concepção clara da investigação filosófica atual.

O primeiro problema que confrontaremos é o problema sobre conhecimento e ceticismo. Basicamente, consideraremos se as pretensões de conhecimento que os homens tomam por garantidas são, de fato, justificadas. Por exemplo, muitos homens supõem que seus sentidos servem como fonte de conhecimento, que olhando, tocando, e assim por diante, eles sabem da existência de qualquer número de objetos familiares. Mas alguns filósofos duvidaram que nossos sentidos podem ser a fonte de tal informação, e eles têm defendido convincentemente a conclusão de que nós não temos conhecimento de tais assuntos. Assim, o problema inicial com que nos defrontaremos é investigar os méritos do ceticismo.

É apropriado e útil iniciar nosso estudo da filosofia considerando o problema do conhecimento, porque este assunto está entrelaçado com todos os outros. Nós estaremos perguntando constantemente se alguma crença é justificada, não importa qual questão estejamos enfrentando, e, ao considerar o problema do conhecimento e ceticismo, obteremos um melhor entendimento de como uma crença pode ser justificada ou se mostrar injustificada.

Em segundo lugar, consideraremos o problema da liberdade e determinismo. Nós usualmente supomos que nossas ações, ao menos agora e na sequência, são livres. Isso remonta a acreditar que nós temos alternativas genuínas entre as quais escolher, e que, seja lá o que tenhamos escolhido, nós simplesmente poderíamos ter escolhido e agido de modo completamente diferente. Apesar disso, nós também supomos que existem causas para todos
os acontecimentos, incluindo nossas próprias escolhas e ações. A dificuldade é que esta crença universal na causalidade parece totalmente inconsistente com a crença de que agimos livremente, pois a primeira tem a consequência de que todas as nossas ações são resultados inevitáveis do processo causal. O
problema é determinar se estamos justificados antes em uma do que em outra dessas crenças.

O terceiro problema está intimamente ligado ao segundo. É o problema a respeito do mental e o físico. Pessoas diferem de coisas inanimadas por ter pensamentos, sensações e emoções, os quais são fenômenos caracteristicamente mentais. É razoável admirar de que forma precisamente estes estados mentais estão relacionados com certos processos físicos que ocorrem em nossos corpos como, por exemplo, os processos neurais que ocorrem no cérebro. Alguns defendem que há uma conexão causal entre nossos pensamentos e o que acontece dentro de nossas cabeças. Não obstante, filósofos têm apresentado argumentos para o contrário e,consequentemente, têm defendido uma teoria alternativa sobre a relação entre o físico e o mental. Por exemplo, alguns filósofos têm defendido a tese de que pensamentos simplesmente são estados mentais e, portanto, que o mental é idêntico a algum aspecto ou parte do físico, e não algo causalmente conectado a ele. O problema é decidir qual dessas conflitantes teorias é justificada.

Em seguida, nós discutiremos o problema de justificar a crença na existência de Deus. Este problema dispensa muitos comentários. A maioria das pessoas, quer teístas, ateus ou agnósticos, deve, em algum momento, espantar-se sobre se há algum modo de justificar racionalmente a crença na  existência de um ser supremo. Nós estudaremos detalhadamente os argumentos relevantes que têm sido oferecidos por filósofos e teólogos.

Por fim, nos voltaremos para o campo da ética e, aqui, atentaremos para a questão sobre como um homem pode justificar seus juízos éticos concernentes ao que é certo e errado. Nós tentaremos encontrar alguma regra ou padrão moral, em termos dos quais possamos julgar racionalmente os méritos de vários cursos de ação. A procura procederá por uma consideração dos argumentos que têm sido oferecidos, tanto a favor como contra, vários e conflitantes padrões éticos propostos pelos filósofos.

Os métodos da filosofia

Depois de discutir os problemas recém esboçados, é essencial considerar os métodos e técnicas da filosofia. Algumas vezes é dito que a filosofia é uma disciplina dialética. Isto significa que ela se dá por um processo de argumentação e contra-argumentação. Certamente, todas as disciplinas dependem de argumentos em alguma medida, mas na filosofia o raciocínio lógico desempenha um papel especialmente proeminente. A explicação disso é que a filosofia esforça-se para responder aquelas questões fundamentais, para as quais é difícil encontrar quaisquer fatos empíricos que as resolvam. Quando duas pessoas discordam sobre algum assunto filosófico, o único caminho de progresso que se lhes abre é considerar e avaliar os argumentos e objeções em ambos os lados. Portanto, a investigação filosófica deve ser crítica e lógica para que algum ganho resulte. Para facilitar tal investigação, precisamos aprender a formular questionamentos críticos sobre os argumentos que encontramos, e a examinar as respostas com sagacidade lógica. Essas são questões de lógica e semântica. Nós apresentaremos uma breve introdução sobre lógica e semântica, com vistas a abordar os problemas em disputa na filosofia portando aquelas habilidades lógicas que são os requisitos para uma investigação inteligente e rigorosa.

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