CETICISMO: UMA INTRODUÇÃO HISTÓRICA

Tendo em vista que a tradição filosófica ocidental surgiu na Grécia num contexto em que as teorias formuladas suscitavam divergências e discordâncias, alguns filósofos assumiram uma posição radical: colocaram em xeque as alegações de conhecimento de todas as doutrinas filosóficas, e deste modo minando nossa capacidade de obter um conhecimento indubitável sobre o mundo.

Considera-se que o ceticismo foi fundado por Pirro de Élis (c. 365-270-c a.C.).[1] Sabemos alguma coisa sobre a filosofia de Pirro por meio de seu discípulo Tímon de Fliunte, de quem subsistiram alguns fragmentos. Pirro evitava comprometer-se com quaisquer opiniões sobre a natureza das coisas, pois, segundo ele, nem os sentidos nem a razão nos permitem conhecer as coisas tais como são.[2]

Um dos mais tradicionais e proeminentes trabalhos sobre o ceticismo encontra-se em Descartes, precisamente em suas Meditações. Onde Expõe o argumento dos erros dos sentidos, pois quem nunca foi enganado por eles? Então se eles já enganaram uma fez não é agora que devemos atribuir uma credibilidade inquestionável a eles, ou seja, todos os nossos sentidos são falhos. Como também faz uso do argumento do sonho, que se expressa mostrando que não tenho evidências para corretamente acreditar que não estou sonhando, já que durante o sonho ninguém tem a capacidade de distinguir de quando está acordado. É também demonstrado a crença na existência de um Deus onipotente e criador, que também pelo seu pleno poder poderia nos enganar. Descartes supõe ainda a existência de um gênio maligno que tem por objetivo fazer com que cometamos equívocos acerca de todas as coisas.[3]

Deste modo, o ceticismo vem assumindo várias formas, seus argumentos tem se tornado cada vez mais sofisticados e atraído a atenção dos epistemólogos. Um dos argumentos céticos mais conhecidos e mais debatidos na literatura é o argumento a partir do erro que, partindo da premissa que todos nós erramos, pelo menos uma vez na vida, e que na situação na qual estávamos em erro, não tínhamos reconhecido, naquele momento, que estávamos errados. Portanto, nada nos garante que na situação atual também não estejamos errados.

Outro argumento cético que vem sendo amplamente discutido: é o argumento de cérebros em cubas. Este argumento propõe que podemos ser cérebros em tanques de laboratório, manipulados por psicólogos que nos enviam impressões das coisas que vemos e sentimos. De forma que nada em nossa experiência nos revela que somos cérebros em cubas. Assim, nossas experiências seriam idênticas as de quem não fosse um cérebro na cuba, porém não seriam reais, já que são meros inputs. Logo, se não sabemos que somos cérebros na cuba, não sabemos qualquer outra coisa do mundo exterior.[4]


[1] Há um tipo de ceticismo que remonta a Sócrates, este é chamado de ceticismo acadêmico, por ter surgido na Academia de Platão depois da morte de Sócrates.

[2] MOSER, P.K; MULDER. D.H.; TROUT, J.D. A teoria do conhecimento: uma introdução temática. São Paulo: Martins Fontes, 2004.p.12

[3] DESCARTES, R. Meditações. 3ª ed. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 1983.p.93-97

[4] NOZICK, R.  Philosophical explanations. Oxford: Oxford University Press. 1981.p.168

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Uma resposta to “CETICISMO: UMA INTRODUÇÃO HISTÓRICA”

  1. Marcelo Fischborn Says:

    Elano,

    Gostaria de fazer uma observação à passagem:
    “Então se eles já enganaram uma ‘V’ez [está com ‘f’ no texto] não é agora que devemos atribuir uma credibilidade inquestionável a eles, ou seja, todos os nossos sentidos são falhos.”

    Penso que esse ponto está apresentado de uma maneira um tanto confusa. Você não mencionou que a dúvida para Descartes é um método. O argumento:

    Os sentidos já me enganaram alguma vez.
    Logo, todos os nossos sentidos são falhos.

    parece induzir a pensar que os sentidos estão sempre nos enganando. A suspensão de juízo que Descartes faz com todos os que derivam dos sentidos é parte de seu método. Não se segue de “os sentidos já me enganaram” que “tudo o que deriva dos sentidos é falso”.

    Outra coisa. Há uma crítica muito forte (não sei se correta) de Austin ao que ele chama (não exatmente nessa formulação) de “obsessão” por certeza, que isso levaria ao ceticismo. Está no livro “Sentido e Percepção”, você conhece este livro? Talvez você pudesse avaliá-lo melhor que eu por pesquisar sobre o assunto. (Há algumas citações dele no meu blog, inclusive relacionando com essa passagem de Descartes sobre o engano dos sentidos).

    Um abraço.

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