DOUTRINAS CÉTICAS

REALE, Miguel. Introdução à filosofia. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

Passemos, agora, a examinar o problema do ceticismo, que, geralmente, se contrapõe ao dogmatismo. Enquanto o dogmatismo afirma a possibilidade de atingir-se a verdade com certeza e sem limites a priori, o ceticismo implica uma atitude dubitativa ou uma “provisoriedade constante”, mesmo a respeito de opiniões emitidas no âmbito das relações empíricas.

Muitos autores colocam no quadro do ceticismo uma série de doutrinas, por exemplo, o criticismo de Kant, ou o positivismo de Augusto Comte. Parece-nos que essa subordinação não tem razão de ser. O ceticismo nunca abandona a atitude dubitativa do espírito, mesmo quando enuncia juízos sobre algo de maneira provisória, sujeitos a serem refutados à luz de sucessivos testes. Veremos, mais tarde, que o relativismo baliza o conhecimento humano, excluindo de suas possibilidades a esfera do absoluto, mas daí não resulta que o relativismo possa ser considerado cético. Os relativistas declaram que se conhece parcialmente, mas sustentam a certeza objetiva, ainda que refutável, do pouco que se conhece.

O ceticismo, ao contrário, distingue-se por sua posição de reserva e de desconfiança, mesmo quando acolhe em caráter provisório certas explicações da realidade. Há, portanto, uma profunda diferença de atitude espiritual entre o relativista e o cético, entre o espírito crítico e o espírito cético: um duvida para certificar-se da verdade; o outro duvida por descrer dela, pela equivalência de todas as respostas possíveis. A quem lhe objetasse que “afirmar a equivalência de todas as respostas é sempre afirmar algo, dando-o como certo” ––– o cético retrucaria que esta é uma asserção equivalente às demais, e recairíamos, a seu ver, na circularidade dubitativa…

O ceticismo também poderia ser distinto, sempre para fins expositivos, em total e parcial. O ceticismo absoluto é conhecido também como pirronismo, em razão do filósofo da Grécia, Pirron (360-270 a.C), que pregava a necessidade da suspensão do juízo (epogé), dada a impossibilidade de qualquer conhecimento certo: ––– o ceticismo absoluto envolve tanto as “verdades metafísicas”, da realidade em si mesma, quanto as relativas ao fundo dos fenômenos. O homem não poderia pretender, de modo algum, certeza gnosiológica, visto não existir adequação possível entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido. Desse modo, afirmações ou negações a respeito de algo problematicidade e incerteza, porque insuscetíveis de qualquer verificação, não sendo possível dizer que algo seja verdadeiro ou falso em si mesmo, assim como belo ou feio, justo ou injusto. Já antes dissera o sofista Górgias que nada existe, e que, se fosse possível conhecer algo, também não seria possível expressar o conhecido com exatidão; e mesmo que houvesse possibiliodade de expressá-lo, não haveria possibilidade de entendimento, visto como cada homem daria às palavras sentidos diversos. O homem não teria outro remédio senão a atitude de não formular problemas, dada a equivalência fatal de todas as respostas.

O ceticismo radical já alberga em si mesmo a sua contradição, porque, se o cético apresenta sua doutrina, é porque afirma ou nega alguma coisa. O cético, no momento em que põe em dúvida a possibilidade de conhecer, já está afirmando algo de que não pode abrir mão, para poder subsistir como cético: –– a necessidade de duvidar…

O ceticismo radical é, porém, mais uma exacerbação do que uma tendência natural, embora haja sempre céticos quanto a este ou aquele problema da realidade ou da vida. Daí haver céticos no plano teorético, como os há no plano prático. Já tivemos ocasião de ver a atitude de Pascal, cujo ceticismo é ético, procurando, angustiosamente, as bases do agir em uma problematicidade transcendente ou escatológica.

O ceticismo é, muitas vezes, considerado uma atitude fácil e cômoda, mas não é assim. A dúvida é sempre um estado de inquietação e, como disse Augusto Comte, marca uma transição entre uma afirmação e outra: –– o homem não pode normalmente viver sem crer em algo.

Podemos, aqui, distinguir duas atitudes céticas, que se tem revelado na Historia. Uma prende-se ao ceticismo da velhice, do abandono do poder criador do homem. É o ceticismo que aparece nas épocas em que a cultura e a civilização perdem consciência de seu próprio destino, ou de seus valores. É o ceticismo do cansaço, dos que se sentem pequenos para a tarefa que outros souberam elevar tão alto: –– é o ceticismo, por exemplo, da Nova Academia em contraste com as afirmações maravilhosas do ciclo platônico-aristotélico. Em contraposição a esse, há o ceticismo metódico das épocas adolescentes e jovens, como, por exemplo, o de Descartes, com a dúvida metódica, não para fugir ou renunciar à verdade, mas para abrir caminhos mais seguros à conquista da verdade mesma. É a atitude cética ascendente das épocas históricas em eclosão, mas ceticismo provisório, que alberga as condições de seu superamento.

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