APRESENTANDO A INFERÊNCIA À MELHOR EXPLICAÇÃO

Por

Alexandre Luis Junges

[Dissertação apresentada como requisito para obtenção do grau de Mestre, pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Sob a orientação do Prof. Dr. Cláudio Gonçalves de Almeida]

Vimos até aqui alguns dos principais modelos de inferência e explicação. No entanto, tratamos de ambos os tópicos separadamente. Como veremos a seguir, muitos casos sugerem que deve haver uma relação mais estreita entre as práticas de inferência e explicação. De fato, para os defensores da Inferência à Melhor Explicação, a relação entre a inferência e a explicação toma um papel central.

Uma maneira de demonstrar a importância das considerações explicativas na inferência é considerar os casos de explicações “auto-evidenciadoras”. Assim, consideremos novamente a situação em que você está numa praia deserta e encontra marcas de sapato na areia. Diante das evidências você infere uma explicação: “uma pessoa passou por aqui!”. Neste exemplo, as pegadas na areia são a evidência para a sua explicação inferida de que uma pessoa passou por ali. Porém, não é o caso que as evidências simplesmente fornecem as razões para inferir a explicação, mas sim também inferimos a explicação porque ela, se verdadeira, explica o fenômeno. Segundo Lipton, casos como este mostram que na escolha de uma hipótese as considerações explicativas desempenham papel importante junto às evidências. Assim, as
evidências para crer numa hipótese H não são a única razão para aceitar H, mas sim também é porque H explica as evidências que aceitamos H. É a conexão explicativa entre H e as evidências que torna a aceitação de H razoável. Do ponto de vista de um modelo unificacionista de explicação, poderíamos dizer que, ao incorporar H no nosso sistema de crenças, nós aumentamos a capacidade de lidar com informações novas e aumentar o nosso entendimento não apenas das evidências que dispúnhamos, mas também de como essas evidências se relacionam com o nosso sistema de crenças (cf. Psillos, 2002, p.619).

Para autores como Harman e Lipton, a importância de considerações explicativas nas inferências que fazemos sugerem um novo modelo de descrição de nossa prática indutiva, conhecido como ‘Inferência à Melhor Explicação’. Foi Gilbert Harman (1965) quem denominou pela primeira vez o modelo de “Inferência à Melhor Explicação” (IME). Embora a expressão seja relativamente nova, pioneiros no desenvolvimento da IME, como Harman e Paul Thagard, destacam que a idéia de inferir hipóteses com base no que elas explicam é antiga, correspondendo aproximadamente ao que Peirce chamou de ‘abdução’ e outros denominaram ‘inferência hipotética’, ou ainda, ‘o método de hipóteses’. Segundo Thagard (1978), a idéia é encontrada também em autores como Whewell, David Hartley, Leibniz e Descartes.

Ben-Menahem observa que Descartes no “Discurso do Método” descreve a relação entre uma explicação e o fenômeno que ela explica nos seguintes termos:

Pois se me afigura que nelas as razões se seguem de tal modo que, como as derradeiras são demonstradas pelas primeiras, que são as suas causas, essas primeiras o são reciprocamente pelas últimas, que são os seus efeitos. E não se deve imaginar que cometo com isso a falta que os lógicos chamam um círculo, pois, como a experiência torna a maioria desses efeitos muito certos, as causas das quais os deduzo não servem tanto para prová-los como servem para explicálos; mas bem ao contrário, são elas que são provadas por eles. (Descartes, 1987, p.70, apud Ben-Menahem, 1990, p.320).

Harman não só é um dos precursores no que diz respeito à formulação mais precisa do modelo da IME como tem sido um eminente defensor de que a prática de inferir explicações é um elemento importante do raciocínio ou ainda do próprio processo de justificação. Em seu artigo de 1965, Harman destaca que o modelo da IME sugere que, ao fazer uma inferência, “[…] nós inferimos a partir do fato de que certa hipótese explica as evidências, para a verdade desta hipótese” (1965, p. 89). Assim, a idéia básica é de que, a partir de certas evidências, nós inferimos a hipótese que melhor as explica. Para defensores da IME como Harman e Lipton, o modelo da IME ressalta o fato de que, em muitos casos, considerações explicativas são um guia para inferência.

Para entender melhor como funciona o modelo, vejamos um exemplo adaptado de Adam Morton (1998, p.212):

Suponha que você chegue em casa esperando encontrar sua amiga. No entanto, ela não está e você nota que a bicicleta dela também não está. Então você lembra que ela havia lhe dito que estava por terminar de escrever uma história e que deveria enviá-la urgentemente por correio para
uma revista. Você então supõe: ela pegou a bicicleta e foi até o correio para enviar a história.

O raciocínio feito acima é um exemplo de IME. De posse das evidências, você infere a melhor explicação, ou seja, de que ela pegou a bicicleta e foi até o correio para enviar a história.Da mesma maneira, a crença de que há pegadas na areia são a evidência para aquilo que as explica, por exemplo, que uma pessoa passou por ali. Ou, ainda, a hipótese da existência de Netuno é a melhor explicação para as perturbações na órbita de Urano.

De fato, um problema a considerar é de que há certamente mais de uma possível explicação para um dado fenômeno. No exemplo, acima, existiam certamente outras explicações para as suas evidências, como, por exemplo, sua amiga ter sido seqüestrada por terroristas, ou que a bicicleta dela ter sido roubada. A explicação de que ela pegou a bicicleta e foi até o correio para enviar a história foi, naquele momento, a melhor explicação, mas não a única.

Defensores da IME, como Lipton (2004, p.56), sustentam que uma explicação não deve apenas poder explicar o fenômeno, ela deve ser a melhor das explicações em competição. Desse modo, seguindo Fumerton (1980, p.594), podemos representar a natureza de um raciocínio em termos da IME da seguinte maneira:

1) Q (o fenômeno)
2) Do conjunto de hipóteses competidoras, P1, P2, …., Pn, capazes de explicar Q, P1 é a
melhor explicação de Q dados os critérios C1, C2, ……, Ck.
_________________________________________________________________________
3) Portanto, P1.

Aqui, no entanto, outra questão se coloca, a saber, que critérios dispomos para decidir qual é a melhor explicação?

A resposta a esta pergunta tem gerado polêmica e dividido os filósofos em defensores e críticos da IME. Para os defensores da IME, é justamente neste processo de seleção da melhor explicação em que o modelo se diferencia descrevendo o modo como são feitas estas escolhas, e fornecendo os critérios que permitem julgar uma hipótese como sendo melhor do que outra. Assim considera-se que a escolha da melhor hipótese deve estar baseada em considerações como: simplicidade, conservadorismo, precisão, alcance, fertilidade, unificação, poder explicativo, analogia, entre outras, das chamadas ‘virtudes explicativas’. (Thagard, 1978; Harman, 1988; Lipton, 2004).

No entanto, quando fazemos uma inferência a partir de um corpo de evidências, nosso objetivo é atingir a verdade, ou seja, a partir do fato de que uma dada hipótese fornece a melhor explicação, queremos concluir que esta hipótese é verdadeira. Um problema que surge é, justamente, o de que as virtudes explicativas e a verdade parecem estar desconectadas, ou seja, não há nenhuma conexão lógica entre a satisfação dos critérios explicativos e a verdade. (Vogel, 1998). Assim, críticos da IME questionam, porque deveríamos considerar a melhor explicação a mais provável de ser verdadeira?

Estas são questões que põem em xeque o status epistêmico do modelo da IME e representam um desafio para seus defensores. Para que seja possível tratar destas questões, passaremos agora a olhar mais de perto o modelo da IME, focando num primeiro momento, alguns aspectos da abordagem de Peter Lipton da IME. Assim, nos ocuparemos primordialmente do problema descritivo para depois tratar do problema da justificação.

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