O ARGUMENTO DA MEMÓRIA

Por

Ricardo Rangel Guimarães

[Dissertação apresentada como requisito para a obtenção do grau de Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Sob a orientação do Prof. Dr. Cláudio Gonçalves de Almeida]

A fim de abordarmos a lembrança sem crença e sem conhecimento, seria conveniente retomar o argumento da memória de Peter Ludlow revisitado por Paul Boghossian, e discutir a posição de Sven Bernecker sobre o mesmo. Segundo Ludlow, o argumento da memória pode ser analisado da seguinte maneira:

(1) Se S não esquece nada, então tudo o que S sabe em t1 ele sabe em t2.
(2) S não esquece nada.
(3) S não sabe que P em t2.
(4) Logo, S não sabe que P em t1.

Segundo Sven Bernecker, este argumento da memória se apoiaria em três pressupostos básicos, a saber: em primeiro lugar, o conteúdo da memória seria fixado pelas condições ambientais e externas do passado, quando o mesmo foi adquirido, e não no presente, quando a memória é evocada. O segundo pressuposto é que uma ‘mudança não informada de ambiente’ (slow-switching), como, por exemplo, da Terra para a Terra-Gêmea, levaria o sujeito a ‘perder’ seus conceitos antigos, adquiridos no passado, passando a adquirir conceitos novos, e o terceiro, que é o que de fato mais interessa aqui em nosso contexto, é que a lembrança envolveria conhecimento, lembrar é conhecer. Mas para Bernecker, o primeiro destes pressupostos seria razoável, o segundo questionável (ao contrário de Ludlow, por exemplo, que na sua variedade de externalismo social, em detrimento do externalismo semântico defendido por Sven Bernecker, admite a slow-switching permanente, uma constante mudança conceitual do conteúdo mental relativa ao ambiente de deferimento), e o terceiro falso, ou seja, lembrar não implicaria necessariamente em conhecer.

Sem entrar no mérito da questão do conteúdo mental, e concentrando-se na questão epistemológica apenas, o argumento da memória de Ludlow apóia-se na tese de que lembrar é uma forma de conhecer, a lembrança seria uma ‘forma’ de conhecimento. A teoria padrão é a teoria epistemológica da memória (TEM), que busca evidência pela primeira premissa do argumento da memória, a saber, se S não esquece que P, então S sabe que P, sendo P um caso de conhecimento: isso só poderia ser o caso se lembrar for uma maneira de conhecer. Esta TEM, tão referida e objeto de análise aqui, que condiciona diretamente a lembrança com o conhecimento, é aceita, por exemplo, só para citar alguns nomes importantes, por filósofos do porte de Robert Audi, já referido e que será objeto constante de análise neste contexto, Michael Dummett, Gareth Evans, Norman Malcolm e Timothy Williamson, dentre outros, mas é rejeitada por Sven Bernecker, que ao contrário de conceber epistemicamente a memória como retenção de conhecimentos na mente, concebe a mesma como retenção de representações, como tem se insistido neste horizonte de pesquisa.

Uma das principais razões para esta rejeição é que Bernecker admite a possibilidade do conteúdo da memória ser representacional ou mera crença, e não conhecimento; assim, nesse caso nem toda lembrança teria o caráter, o estatuto de ser conhecimento. De acordo com a TEM, esta, a memória, seria conhecimento retido na mente. Se tomarmos e aceitarmos a visão canônica de conhecimento como crença verdadeira justificada, excluindo os casos de tipo Gettier, que requereriam a tal quarta condição para garantir a suficiência do caráter epistêmico de tais casos, isso significa que a lembrança de P em t2 no argumento da memória precisaria satisfazer algumas condições para tanto, a saber:

a) P deve ter sido verdadeiro no tempo t1;
b) S teve uma crença que P em t1;
c) S estava justificado em t1 a crer que P;
d) P é verdadeiro em t2;
e) S crê que P em t2;
f) S está justificado em t2 a crer que P.

Na TEM, todas as condições acima devem ser satisfeitas para haver memória. Para Bernecker, é possível haver memória sem a necessidade de crença ou de justificação, ou seja, ele aceita a primeira e a quarta condições ( a) e d), respectivamente), e recusa todas as outras. Os casos de defeated justification, de derrota da justificação que serão dados pelos contraexemplos que serão apresentados no curso de desenvolvimento desta pesquisa, bem como da não necessidade de haver crença memorial no processo da lembrança proposicional, ilustram este ponto e estes tópicos: contudo, tais análises serão realizadas e discutidas nas seções subsequentes. Levando-se em conta o fracasso da TEM, Sven Bernecker reformula o argumento da memória apresentado anteriormente, refinando-o e redefinindo-o da seguinte forma:

(1) Se S não esquece nada, então o que S representa em t1, S pode representar em t2.
(2) S não esquece nada.
(3) S não pode representar P em t2.
(4) Logo, S não representa P em t1.

No argumento da memória original, aquilo que não pode ser conhecido no futuro, não pode ser conhecido no presente: isto significaria, em termos gerais, ‘jogar’ a possibilidade para o futuro das crenças que o agente epistêmico tinha no passado, pois é potencialmente possível ‘perder’, ‘extraviar’ crença, justificação e mesmo conhecimento no futuro em relação
às crenças, justificação e conhecimento do passado. Neste argumento refinado de Bernecker, aquilo que não pode ser representado no futuro não pode ser representado no presente, e assim como o argumento da memória original, este refinado é nocivo ao externalismo, por exemplo, pois possui uma crítica implícita e tácita à teoria da causação das representações na mente como conteúdo da memória, em que se S não representa P nem no tempo passado, t1, e nem no presente, t2, não haveria uma relação causal dos objetos externos com a mente, inexistindo com isso as representações mentais dos mesmos e a sua possível evocação através do expediente memorial, e a preservação do conteúdo mental entre t1 e t2.

Sven Bernecker distingue duas concepções diferentes acerca da noção de esquecimento que fazem parte do senso comum, a saber, um esquecimento do sujeito em sentido amplo e irrestrito, uma falha cognitiva na memória causada por qualquer razão que seja, estando ou não no controle do sujeito em questão, e o esquecimento estrito, uma falha de memória na qual o sujeito é o responsável por tanto. Na premissa (1) do argumento refinado, esta noção de esquecimento amplo está suposta, pois se S não tem nenhum tipo de esquecimento, então ele pode representar em t2 o que representou em t1. Em relação ao conteúdo mental, o argumento apóia-se em uma noção equívoca de esquecimento, pois a mudança de ambiente (slow-switching) leva em conta o esquecimento no sentido amplo, e não estrito: se a perspectiva externalista fosse adotada, essas mudanças de ambiente poderiam privar-nos das nossas próprias lembranças, abandonando com isso a concepção de autonomia de uma memória individual, e passando a se adotar uma espécie de memória coletiva. Este, contudo, é um problema que não será tratado nem interessa diretamente aqui, haja vista ser um tema mais pertinente à filosofia da mente e a análise do conteúdo mental do que a epistemologia da memória propriamente dita.

A mudança lenta leva ao esquecimento no sentido amplo, numa crítica ao argumento da memória já realizada, por exemplo, por Brueckner. No final da seção 5 de Memory and Externalism, intitulada justamente ‘lembrando sem conhecer’ (remembering without knowing), Sven Bernecker diz textualmente que a memória, ao contrário do conhecimento, não implica em justificação, e que a mesma, memória, pode ser mera representação ou crença, mas não conhecimento. De posse destes elementos importantes acerca do argumento da memória revisitado por Sven Bernecker, passaremos a analisar agora, a partir da próxima seção, a sua concepção de memória proposicional e o aspecto epistemológico que atribui ou não a esta. Tais considerações são de suma importância para o tratamento global e específico da sua tese central da lembrança sem conhecimento.

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