A AMEAÇA DA ACIDENTALIDADE

Por

Roberto Hofmeister Pich

em

Veritas, Porto Alegre, v.50, n.4, Dezembro 2005

Klein foi bem-sucedido em mostrar o quão diferentes são as versões do externalismo de confiabilidade e do de função própria, quanto à ameaça da acidentalidade da crença verdadeira. Formulo com remendos o exemplo originalmente forçoso:

O Sr. Lesão tinha um aparato cognitivo perfeito até que, num desafortunado dia, sofreu uma lesão cerebral séria. Desde então, ele não mais consegue pôr as coisas em ordem, e a maior parte do seu conhecimento desaparece. A sua lesão cerebral lhe causa todos os tipos de percepções anormais e faz com que realize inferências deveras peculiares. Mas, além de causar no Sr. Lesão todos os tipos de proposições falsas, a sua lesão cerebral faz com que ele creia que tem uma lesão cerebral. Nota-se, ademais, que o Sr. Lesão não tem evidência – pelos sentidos, pela memória, introspecção, etc. – de que é anormal dessa maneira: interpreta o seu grupo de crenças incomuns como resultado de concepções originais e ousadas que refletiu sobre o mundo e a existência. Assim, a sua forma particular de lesão cerebral e as leis da natureza são tais que a sua lesão cerebral causa nele a crença em ao menos uma proposição verdadeira, junto com muitas outras crenças falsas.

Mesmo pressupondo que formulações confiabilistas do conhecimento responderiam ao contra-exemplo com muito mais sofisticação,23 parece-me justo afirmar que, (i) para o confiabilista, uma crença verdadeira é acidental do ponto de vista cognitivo sse é verdadeira, mas o processo que a produziu é tipicamente um que não resulta em crenças verdadeiras. Assim, o Sr. Lesão tem conhecimento, porque a crença verdadeira, do ponto de vista cognitivo, não é acidentalmente verdadeira. (ii) Para o adepto do externalismo de função própria, a acidentalidade cognitiva, ali, não se dá por “falta de evidência”, mas porque a crença surge como resultado de uma “anormalidade cognitiva”. A receita de contra-exemplos é pensar num evento e, tal que ele causa que S creia que e ocorre, onde e causa que S forme a crença em questão em virtude de uma anormalidade cognitiva. É um acidente, do ponto de vista cognitivo, que a crença seja verdadeira, pois há falha na obtenção da crença, conforme o plano de desígnio da estrutura noética. O exemplo força a adição de as faculdades noéticas de S envolvidas na produção daquela crença funcionarem propriamente. A crença do Sr. Lesão só é conhecimento se gerada pelo aparato cognitivo funcionando de modo próprio. Do contrário, é, ou ao menos pode sempre ser, um acidente cognitivo. O adepto da autorização por função própria diz, pois, que o Sr. Lesão não tem conhecimento, porque a crença verdadeira é acidentalmente verdadeira, cognitivamente. Numa terceira argumentação, (iii) o defensor da teoria de anulabilidade admite que uma crença é acidentalmente verdadeira se há evidência genuína que anula a evidência na qual se apóia, mas que permanece oculta ao sujeito. Também aqui o sujeito teria “sorte” de chegar à crença verdadeira.Teorias de anulabilidade não serão tratadas neste estudo.

O importante é que Klein mostrou que, mesmo se uma crença verdadeira for produzida sob as condições 1-4, ela pode ser acidentalmente verdadeira do ponto de vista cognitivo: logo, uma crença verdadeira não precisa ser produzida por faculdades funcionando propriamente, para que seja conhecimento. A justa lição tirada por Plantinga dos problemas de Gettier fora que, no sentido internalista, é possível falhar em se ter conhecimento, porque algo, não acessível ao sujeito, como as faculdades cognitivas sob disfunção, ou o ambiente cognitivo “poluído” assimétrico aos módulos cognitivos aplicados ao conhecimento, se impõe, podendo influir na obtenção de crença verdadeira. Porém, é decisivo notar que o aparato cognitivo pode estar funcionando de modo perfeito, nas condições de Plantinga, e ser meramente acidental, cognitivamente, ter alcançado a crença verdadeira. Tome-se o exemplo adaptado, a partir de Klein, da Sra. Jones, a Sortuda:

A Sra. Jones crê que possui um Ford funcionando bem. Ela forma essa crença em circunstâncias normais, usando o seu aparato cognitivo, que funciona de modo perfeito. Mas, como às vezes acontece, sem o conhecimento da Sra. Jones, o seu Ford é atingido e virtualmente demolido pelo caminhão do lixo – enquanto ele está parado lá fora, no estacionamento da sua repartição. Porém, também sem o conhecimento da Sra. Jones, ela recém ganhou um Ford, em perfeito funcionamento, no Concurso Ford, que corre uma vez por ano, nessa época, na companhia onde ela trabalha.

Neste contra-exemplo – aceitando que um contra-exemplo mostra algo só se é claramente possível, e não é claramente possível se mantém dúvida sobre a sua possibilidade –, todas as condições de autorização por função própria são obtidas. Mas, a crença verdadeira não é um caso de conhecimento, porque é claramente obtida por acidente, cognitivamente. E a lição básica é que há, a partir disso, “um Problema de Gettier Generalizado”, isto é, “se autorização pode ser transferida a partir de uma crença falsa, autorizada [como “O meu Ford, que estacionei há alguns minutos, encontra-se lá fora”], através do exercício próprio das nossas faculdades para uma crença verdadeira [como “Eu (Sra. Jones) possuo um Ford em bom funcionamento”], então aquela crença verdadeira será autorizada, mas não será conhecimento”.O que fazer, a partir daí, com a teoria original?

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