DESCARTES E O CETICISMO

[Depois de uma parada nos posts de autoria própria, resolvi então, escrever algo. O texto não traz nada de novo para o mercado filosófico, são apenas algumas observações.]

Descartes acreditando na possibilidade de estabelecer um conhecimento certo e seguro, inicia por duvidar seriamente, como o cético faz, do que pensamos conhecer. A decisão de duvidar é provocada pela percepção de que, por um lado, nosso conhecimento é frágil e de que, por outro, essa fragilidade passa desapercebida ou é pouco considerada.

A primeira etapa da dúvida ataca o conjunto de minhas opiniões sobre as coisas sensíveis. Eu acredito que conheço os objetos do mundo exterior, porque eles se manifestam à minha percepção sensível. Porém, para desestabilizar isso basta mostrar que os sentidos me enganam algumas vezes e que, portanto, podem estar me enganando sempre.

Numa segunda etapa a dúvida volta-se para questionar a própria realidade da percepção sensível. Assim, suspeita-se que eu possa ter uma percepção sensível. Quando vejo ou toco, posso apenas estar pensando que faço tais coisas. Numa terceira etapa, a dúvida volta-se para mostrar que aquilo que intuímos intelectualmente pode não corresponder a realidade.

A resposta inicial de Descartes a essas questões é que ele certamente existe se pode convencer a si próprio de alguma coisa. Sua existência é uma condição necessária para que ele pense em alguma coisa, e ele pensar alguma coisa é uma condição suficiente para sua existência. É isso que inicia a queda do ceticismo.

Para Descartes o fato de eu ter um pensamento, de estar consciente dele, sendo que esta consciência é a base para esse autoconhecimento. Assim, não posso estar equivocado quanto a qualquer um dos meus pensamentos de que tenho consciência, de forma que, neste aspecto, não há espaço para erro.

Porém, cabe as epistemólogos questionar até que ponto esta argumentação é eficaz contra o ceticismo. Ao que parece, o argumento de Descartes não me dá garantia, se quer, para que eu afirme que tenho uma mão. Apesar da extrema engenhosidade do argumento cartesiano, para se chegar à certeza do cogito, ergum sum, não nos ajuda a contestar as hipóteses céticas com respeito ao mundo exterior. Assim, a certeza de Descartes, limita-se a garantia de crenças cogitais.

Além disso, o método cartesiano não questiona o próprio conteúdo de seus pensamentos. Quando falamos do conteúdo de nossos pensamentos, já estamos falando do que pertence ao mundo, já que atos de pensamentos visam trazer os objetos exteriores para o conteúdo da própria mente. Desse modo, as expressões de pensamento, geralmente, implicam a realidade exterior. O que nos leva a pôr em dúvida a certeza do “eu penso” de Descartes.

Referências

FORLIN, E. O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito. São Paulo: Associação Editorial Humanitas,2004.

LANDESMAN, C. Ceticismo. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

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