EM QUE SENTIDO A TEORIA DE LEHRER É UMA TEORIA COERENTISTA?

Por

Erik J. Olsson

em

The epistemology of Keith Lehrer

O que tem sido dito de modo sucinto é a seguinte questão: em que sentido, se há algum, a teoria de Lehrer é uma teoria coerentista, como é afirmado por Lehrer (pelo menos em parte)? Se alguém toma isso como essencial, tal que uma teoria faz uso do conceito de coerência sistemática ou global, então a teoria de Lehrer é claramente uma teoria não coerentista. Na visão de Lehrer, “ coerência não é um aspecto global do sistema”. Antes, o que ele chama coerência, como vimos, é uma relação entre um sistema de avaliação e uma proposição. Esta relação, além disso, “não depende de aspectos globais do sistema”. Não obstante isto, Lehrer diz que o conteúdo do sistema de aceitação deve ser logicamente consistente, assim referindo-se à aspectos globais de consistência. Lehrer também acrescentou a questão da consistência no seu artigo “ Reason and Consistency”, reimpresso como capítulo 6 em Metamind. O modelo de consistência é uma epistemologia internalista que é explorada pela contribuição de Volker Halbach neste volume.

Quais razões há, então, para chamar essa relação, que vai de encontro as objeções dadas relativas à um sistema de avaliação com um sistema de relação de coerência? Como eu compreendo Lehrer, esta relação de “ encaixe”, em vez de dizer , que é uma relação de “ inferência de”. Ele escreve, na edição de 1990 do TK: “ se é mais razoável para mim aceitar algo do que afirmar um [severo] conflito que outros na base do meu sistema de aceitação, então esta afirmação se encaixa melhor ou coere melhor com meu sistema de aceitação”(p.116). Ele também defende que: “uma crença pode estar completamente justificada para uma pessoa por causa de alguma relação da crença com um sistema que ela pertence, a maneira da coerência com o sistema, exatamente como o nariz pode ser bonito por causa de alguma relação do nariz com a face, a maneira que se encaixa com a face”(p.88). Lehrer está aqui afirmando que as declarações de coerência com um sistema é análogo a um nariz que se encaixa numa face.

Entretanto, como tenho argumentado em outro lugar (Olsson,1999), esta analogia é incompatível com a argumentação de Lehrer que o coerentismo não depende de aspectos globais de um sistema. Pois, quando dizemos que o nariz de encaixa na face, pretendemos combinar as duas coisas para que produza um lindo resultado geral, assim como o nariz se encaixa na face em virtude das propriedades globais subjacentes de beleza. Se coerir é análogo a se encaixar, como Lehrer propõe, então a declaração de coerência com um sistema, se combinada, os dois produzem um resultado global, assim a declaração se encaixa com o sistema em virtude das propriedades globais subjacentes da coerência. Isto, novamente, confronta com a declaração de Lehrer que coerência não depende de aspectos globais do sistema.

Assim a relação de coerência com um sistema de avaliação tem pouco a ver com a coerência assim chamada, sendo mais próximo à inferência. Contudo, as mais recentes idéias de Lehrer sobre confiabilidade são indiscutivelmente suficientes para transformar sua teoria em uma teoria coerentista depois de tudo. Como temos observado, há uma circularidade envolvida no argumento da minha aceitação de minha confiabilidade à razoabilidade da minha própria aceitação. E um aspecto saliente da teoria coerentista é presumivelmente esta licença da razão circular – pelo menos é a forma mais popular de caracterizar tal teoria.

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