O PARADOXO DE MOORE – COMO VOCÊ AINDA NÃO O VIU

Por

Cláudio de Almeida

em

Veritas,Porto Alegre, v. 54, n. 2,maio/agosto 2009

Diz a lenda, com base num relato de Norman Malcolm, que Wittgenstein considerava a descoberta que chamou “Paradoxo de Moore” como sendo a mais importante contribuição de G. E. Moore à Filosofia. A atenção que o problema recebe na obra de Wittgenstein torna a lenda plausível. E, a despeito de tudo o mais que há de venerável na obra de Moore, não é, mesmo, óbvio que Wittgenstein estivesse errado em sua avaliação da importância do paradoxo. Ao contrário, boa parte do meu objetivo neste artigo é argumentar em favor da tese de que o paradoxo talvez seja bem mais importante, para a agenda filosófica contemporânea, do que Wittgenstein podia supor no contexto intelectual em que estava localizado.

É certo que nem Moore, nem Wittgenstein estavam habilitados a compreender perfeitamente a extensão do problema. Isso não é matéria de debate. Ambos foram demasiado superficiais em suas análises do paradoxo. Embora eu não pretenda discutir suas análises aqui – não pretenda lhe dizer, exata e completamente, por que são insatisfatórias – eu devo dizer-lhe, ao menos, quais são algumas de suas maiores deficiências.1 Isso lhe é devido, porque eu pretendo mostrar-lhe, logo abaixo, que nem Moore, nem seu parceiro informal na discussão do problema, Wittgenstein, deram-nos condições de perceber o que é paradoxal no Paradoxo de Moore! Veja bem: eu não estou dizendo, apenas, que eles não solucionaram o problema. Eu estou, mesmo, dizendo-lhe que eles conheceram apenas parte do problema; não conheceram todo o problema.
Não há qualquer exagero na afirmação de que o Paradoxo de Moore foi completado por John N. Williams nos anos 90. Para ver como essa parceria inconsciente (no próprio Williams) e tardia se deu, reflita sobre as deficiências da compreensão mooreana/wittgensteiniana do problema como sugerido abaixo.
Moore observou que parece ser “absurda” a asserção de uma sentença como “Eu fui ao cinema ontem, mas não creio tê-lo feito”. Nos escritos em que discute essa suposta absurdidade, ele não a distingue da absurdidade veiculada pela sentença “Eu fui ao cinema ontem, mas creio que não o fiz”.2 Wittgenstein tampouco se importa com a diferença entre as proposições expressas por essas sentenças.3 De resto, para ambos, o fenômeno em questão diz respeito ao caráter aparentemente “absurdo” do ato de asserção de sentenças como essas. Agora, observe: A proposição expressa por uma sentença como “Chove, mas eu não creio que chova” causa perplexidade (naqueles que a percebem!) só porque o verbo “crer” é conjugado na primeira pessoa e no presente do indicativo! Conjugue-o em outra pessoa, ou em outro tempo verbal, e a perplexidade desaparece. Assim, se você faz uma asserção de “Chove, mas eu não acreditei que o tempo está chuvoso até sair de casa”, o problema desaparece. O problema também desaparece quando uma sentença mooreana está encaixada em um condicional, por exemplo, ou em uma disjunção. Nenhuma excitação é provocada pela sentença “Se chove e eu creio que não chove, preciso encontrar uma previsão meteorológica mais confiável”, porque, aqui, a sentença mooreana não é objeto de asserção. Do mesmo modo, veja como nada há de ofensivo, ceteris paribus, na asserção da (proposição expressa pela) seguinte sentença: “Ou chove e eu creio que não chove, ou você parou, finalmente, de me iludir sobre o tempo lá fora”. E observe, ainda, que a suposta absurdidade não se confunde com a absurdidade de um caso de autocontradição. As sentenças em questão expressam proposições contingentes. Nós precisamos, então, compreender o que faz, a priori, “absurda” a asserção dessas proposições. (A asserção de qualquer proposição contingente pode ser “absurda”, indevida, infeliz sob certas condições. Mas, é chocante que a asserção de uma dada proposição contingente seja “absurda” em quaisquer condições concebíveis). Esse é o Paradoxo de Moore na sua formulação histórica.
Mas, se isso é tudo que você vê naquelas sentenças mooreanas, você não vê tudo que elas contêm de problemático – e as condições estão criadas para uma análise deficiente do problema.
É preciso que se observe, de imediato, que a formulação histórica do problema dá importância indevida ao conceito de asserção. O que nos espanta num caso de asserção de uma proposição mooreana é o fato de que uma asserção é, no mais das vezes, a manifestação pública de um ato de crença, e o que o problema nos oferece é a consideração de um caso de aparente crença irracional em que a irracionalidade da crença se deve exclusivamente ao conteúdo aberrante da crença, sem que esse seja um caso de autocontradição – ainda que, segundo muitos (particularmente, aqueles que foram influenciados pela análise wittgensteiniana do problema) esse conteúdo seja, de alguma forma, aparentado à autocontradição, ou, mesmo, um caso de autocontradição implícita.4 Permita-me enfatizar esse ponto fundamental. Uma proposição mooreana é contingente: obviamente, pode ser verdadeiro que chove e que eu não creio que chova. O problema é que eu não posso crer nisso racionalmente! Mais uma vez, veja como isso é chocante: Se o que chamamos “conhecimento factual” (o conhecimento de fatos de qualquer espécie, inclusive fatos envolvendo objetos imateriais) é, pelo menos, a crença racional verdadeira (com alguma outra propriedade que a faça imune à deficiência revelada por Edmund Gettier), como se supõe ser, tradicionalmente, desde Platão, então, se é verdade que chove e eu não creio que chova, aí está um fato do qual eu não posso ter conhecimento enquanto ocorre!5 Mas, se você pensar que o problema é, fundamentalmente, um problema de asserção absurda, e, não, de crença absurda, irracional, você então enfrentará a dificuldade aparentemente intransponível de explicar o que faz desse caso um caso de asserção absurda, sem que o conceito de crença irracional desempenhe um papel central em sua explicação. Não há tal explicação na literatura contemporânea. Por outro lado, parece óbvio que, se alguém tem uma crença mooreana desacompanhada de qualquer ato de asserção, essa pessoa tem uma crença “absurda”, como diria Moore. Queremos, assim, saber em que consiste a “absurdidade” da crença mooreana. A explicação da absurdidade da asserção mooreana vem daí, de graça.
Mas, note: Até aqui, nada foi dito sobre por que as proposições que constituem o paradoxo devem ser percebidas como “absurdas”, por que, exatamente, devemos pensar que são paradoxais e que, se você não as percebe como absurdas, paradoxais, o problema é seu! Se aceitarmos as teses segundo as quais uma proposição mooreana não é uma contradição e a “absurdidade” da proposição mooreana não é derivada da suposta absurdidade da asserção que a tem como conteúdo, porque isso nada explica sobre o fato mais fundamental de que sua crença mooreana é absurda mesmo quando não-manifestada num ato de asserção, então você não encontrará compreensão da absurdidade mooreana no que lhe dizem Moore e Wittgenstein sobre o fenômeno. E não é razoável pensar que, se o que faz daquelas proposições “absurdas” não lhe é aparente, você é um caso de pouca inteligência.6 O paradoxo não é, sob esse aspecto, diferente de outros paradoxos importantes. Se alguém lhe disser que é irracional ter a crença cujo conteúdo é expresso por “Esta crença não é verdadeira”, nada há de irrazoável no pedido por uma explicação da irracionalidade dessa crença. (A simples menção dessa crença pode não bastar para que você a considere irracional). Essa explicação toma a forma de um argumento cuja conclusão é a de que sua crença é verdadeira se e somente se não é verdadeira, o que é absurdo e parece depor, conclusiva e obviamente, contra a racionalidade da crença em questão, como você não terá dificuldade de compreender diante da exposição do argumento.7 O mesmo pode ser dito do paradoxo que nos preocupa. É aí que John Williams entra em cena. E é aí que notamos a necessidade de uma discussão muito mais sofisticada do fenômeno que chamamos “Paradoxo de Moore”. Essa discussão mais satisfatória vai mostrar, com clareza inédita, que o fenômeno é epistêmico.
Devemos, de imediato, observar que proposições mooreanas da forma
(i) p, mas eu não creio que p são, sob um aspecto potencialmente importante, diferentes de proposições mooreanas da forma
(ii) p, mas eu creio que não-p, o que muitos analistas, assim como o próprio Moore, deixaram de observar, ou deixaram de levar em conta em suas análises do problema. Como notou Williams, quem tiver uma crença que tenha como objeto tanto uma proposição da forma (i), quanto uma proposição da forma (ii), terá, necessariamente, uma crença falsa em seu sistema de crenças, mas as causas dessa posse necessária de uma falsidade são diferentes nesses casos. Para ver como crenças das formas (i) e (ii) garantem a inclusão de falsidades em seu sistema de crenças, suponha, como é tradicionalmente feito, que a crença se distribui sobre a conjunção, ou seja, que, se você crê que p&q, então você crê que p e crê que q. Observe, agora, que, se você crê em uma proposição da forma (i), você crê que p. Mas, nesse caso, a conjunção da forma (i) é falsa, já que sua crença de que p falsifica o segundo conjunto da conjunção (segundo o qual você não crê que p). Portanto, uma crença da forma (i) é autorrefutadora. Assim, se verdadeira, a crença da forma (i) é falsa. Portanto, toda crença da forma (i) é falsa.
No outro caso, em vista do mesmo princípio de distribuição, se você tem uma crença da forma (ii), você, mais uma vez, crê que p. Agora, se a crença da forma (ii) é verdadeira, então você é inconsistente (isto é, tem crenças contraditórias), porque, se a conjunção é verdadeira, é fato que você também crê que não-p, conforme o segundo conjunto daquela conjunção. Necessariamente, uma de suas crenças é falsa. Assim, tanto crenças da forma (i) quanto crenças da forma (ii) asseguram a inclusão de uma falsidade no seu sistema de crenças.
Com base nessa observação certeira, Williams pretende fundamentar a conclusão segundo a qual uma crença mooreana é irracional apenas porque compromete o agente com a posse de uma crença falsa. Mas, eu penso ter mostrado, em outras publicações sobre o assunto, que há várias boas razões para crer que aquela observação certeira não lhe dá a base conceitual para uma explicação satisfatória da irracionalidade mooreana.9
Para nossos propósitos aqui, cumpre observar, em primeiro lugar, que, sejam quais forem seus méritos, uma explicação do fenômeno fundada apenas na observação de Williams é insatisfatória, porque é incompleta. A análise que Williams faz dos casos (i) e (ii) não permite explicar por que as formas
(iii) p, mas não é racional, para mim, crer que p
e
(iv) p, mas é racional, para mim, crer que não-p
parecem-nos tão “absurdas” quanto as formas (i) e (ii). Note que esses não são casos de autorrefutação ou inconsistência. Nem crenças da forma (iii), nem crenças da forma (iv) assegurariam a posse de crença falsa.10 Se p é verdadeira, se é verdadeira minha autocrítica em (iii) e (iv) e se eu não consigo crer como julgo que deva segundo essa autocrítica, então nem (iii), nem (iv), por si sós, acrescentarão falsidades ao meu sistema doxástico. E, ainda que ignoradas pela grande maioria dos autores que tratam do problema, (iii) e (iv) parecem, muito claramente, ser formas mooreanas. A minha crença de que p é irracional em ambos os casos – dada a suposição de que minhas crenças das formas (iii) e (iv) são verdadeiras. No caso de (iii), eu creio verazmente que sou irracional ao crer que p. No caso de (iv), dada a suposição universalmente aceita de que eu não posso crer racionalmente em contraditórios, eu sou, mais uma vez, irracional ao crer que p. (Note que estamos trabalhando com a suposição de que as crenças das formas (iii) e (iv) são verdadeiras. E estamos concluindo que podem ser verdadeiras. Mas, são verdadeiras só se são irracionais. Essa característica de crenças é peculiar à absurdidade mooreana).

É possível que haja proposições contingentes de muitas outras formas que sejam, também, casos dessa forma de irracionalidade que chamamos “mooreana”. Não parece haver critério sintático ou semântico que caracterize o fenômeno. Mas, devemos exigir que uma análise da absurdidade mooreana mostre, ao menos, por que crenças nas proposições das formas (i)-(iv) são casos de irracionalidade. É o que pretendo fazer a seguir.
Mas, observe, para concluirmos nossa discussão rápida da proposta de Williams, que, se você considera que a irracionalidade de uma crença da forma (ii) é derivada do fato de que, se verdadeira, essa crença põe uma falsidade no sistema doxástico do crente, nós ainda carecemos de uma explicação de por que isso torna aquela crença irracional. Não há essa explicação na obra de Williams. E não é fácil imaginar como tal explicação seria produzida em favor de Williams. Dado aquele princípio de distribuição da crença, e dada a suposição falibilista prevalente de que falsidade de uma dada crença não implica sua irracionalidade, qualquer crença conjuntiva falsa põe uma falsidade no sistema doxástico do crente. E, por hipótese, essa crença conjuntiva pode ser racional.

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