A RACIONALIDADE E AS DECISÕES TOMADAS EM ESTADO DE INCERTEZA

[Texto extraído de MOSER, P.K; MULDER. D.H.; TROUT, J.D. A teoria do conhecimento: uma introdução temática. São Paulo: Martins Fontes, 2004.p.148-151]

Qualquer que seja a nossa opinião a respeito do sistema de crenças do povo zande, podemos nos perguntar se a estabilidade social assim obtida não poderia ser alcançada por meio de um sistema mais eficaz ou mais perfeito. Sempre que ocorre de as pessoas não realizarem todo o seu potencial, esse fato tem pelo menos duas explicações imediatas: (a) os processos de pensamento dessas pessoas são deficientes; e (b) exigências específicas obstam o discernimento racional normal. Nesse caso, o que concluir de um desempenho menor do que o possível? Quais são os fundamentos que nos permitem criticar um comportamento desviado e preservar a dimensão normativa da racionalidade?

A moderna teoria das decisões parte do pressuposto de que, para atender a determinadas exigências de coerência e perfeição, as preferências da pessoa em relação aos possíveis resultados de suas ações vão determinar, pelo menos em parte, quais serão as ações racionais para ela, na medida em que fica assim determinada a utilidade que essas ações tem para ela. Quando alguém toma decisões racionais num estado de certeza, conhece de modo definido quais serão os resultados das ações que pode fazer. Quando toma decisões numa situação de risco, só pode atribuir probabilidades diversas a esses resultados. Os que seguem a chamada teoria byesiana das decisões partem do pressuposto de que essas probabilidades são subjetivas, na medida em que são determinadas pelas crenças daquele que toma a decisão. Quando alguém toma a decisões num estado de incerteza, não dispõe das informações necessárias para tomar a decisão; assim, não é capaz sequer de atribuir probabilidades definidas aos resultados das ações disponíveis.

Partindo do princípio de que a racionalidade é puramente instrumental(e que, portanto, até mesmo os objetvos nazistas de Hitler não necessariamente errôneos no que diz respeito à sua racionalidade). Herbert Simon (1983) encontrou um ponto falho na moderna teoria das decisões.  Diz ele que os seres humanos quase nunca dispõem dos fatos, das preferências e do poder de raciocínio exigidos pela teoria das decisões. Afirma que a racionalidade humana é “limitada”, na medida em que não exige uma maximização da utilidade e nem mesmo um grau mínimo de coerência. Exige, antes, a aplicação de uma determinada gama de valores pessoais(ou seja, de preferências) em vista da resolução dos problemas relativamente específicos que a pessoa enfrenta, e tudo isso de tal modo que o processo não seja ótimo, mas simplesmente satisfatório para quem o empreende. Para reduzir ao mínimo a sua explicação da racionalidade, portanto, Simon invoca as limitações que o ser humano sofre de fato.

Os teóricos contemporâneos se dividem quanto à importância das limitações psicológicas humanas para a explicação da racionalidade. A controvérsia gira em torno de qual deve ser o grau de idealização dos princípios de racionalidade. Com isso, suscita-se a importante questão de saber o que faz com certos princípios da racionalidade sejam verdadeiros e outros, falsos. Se os princípios da racionalidade não são simples definições estipuladas ( que decretam o que é a racionalidade), essa questão merece receber dos filósofos mais atenção do que tem recebido. O esquecimento desse assunto metafilosófico faz com que a teoria da racionalidade seja tema de infindáveis controvérsias filosóficas.

Os teóricos da racionalidade propuseram várias regras para a formação de crenças a partir de raciocínios probabilísticos. Umas das mais famosas é o teorema de Bayes, que tem como um dos seus principais corolários a idéia de que a propabilidade de uma crença formada a partir de determinados dados ser verdadeira é proporcional ao produto das probabilidades dos dados, pressuposta a verdade da crença, pela probabilidade de a crença ser verdadeira independentemente dos dados particulares disponíveis, ou seja, a chamada probabilidade prévia da crença. Por exemplo: se temos dois vidros que contêm bolas de gude pretas e brancas e uma pessoa tira uma bola preta de um dos vidros, você poderá avaliar melhor a probabilidade de essa bola ter saído do primeiro vidro se conhecer o conteúdo inicial dos dois vidros. Se o primeiro vidro tem, digamos, 95% de bolas pretas e o segundo contém 95% de bolas brancas, é muito mais provável que a bola de gude tenha saído do primeiro vidro. (Especificamente, a probabilidade de a crença ser verdadeira, levando-se em conta os dados disponíveis, é igual ao produto acima mencionado dividido pela probabilidade dos dados independentemente da crença em questão, ou seja, independentemente da probabilidade prévia da crença.)

O teorema de Bayes e a concepção de racionalidade por ele favorecida são importantes por dois motivos. Em primeiro lugar, exerceram enorme influencia sobre os mais diversos campos de estudo, como a teoria das confirmações na filosofia das ciências, a teoria das decisões racionais e a teoria formal do aprendizado. Em segundo lugar, representam uma certa abordagem normativa da tomada de decisões racionais. Segundo muitos teóricos, oferecem uma regra pela qual toda pessoa deve atualizar o seu grau de comprometimento epistêmico (ou seja, o grau da crença) com uma determinada hipótese, quando se apresentam novos dados. Existem muitas outras teorias normativas de tomada de decisões( como a de Herbert Simon, já mencionada), mas o bayesianismo tem se mostrado especialmente duradouro.

É possível atribuir valores de probabilidade a uma teoria previamente existente. Por isso, muitos filósofos pensam que o teorema de Bayes é capaz de levar em conta o papel desse conhecimento prévio no processo racional de tomadas de decisões. Na psicologia, já se apresentaram modelos bayesianos para lançar luz sobre o processo decisório de pequenos grupos de especialistas e de leigos, como os membros de um júri e equipes administrativas. Um dos principais pressupostos desses trabalhos é a idéia de que o teorema de Bayes, considerado em si mesmo, é teoricamente neutro e se aplica a todos os assuntos sem distinção. A noção de que a inferência bayesiana( uma regra entre muitas outras) pode gerar conclusões  plausíveis em certos domínios ( na economia, por exemplo) mas não em outros( como a ciência política, por exemplo) é totalmente descartada por certos estudiosos.

Como descrição dos processos pelos quais fazemos inferências de fato, o bayesianismo é falho na teoria e na prática. Nem os leigos, nem os cientistas, nem nenhum grupo de especialistas atualizam regularmente seus comprometimentos epistêmicos de acordo com as rigorosas regras de Bayes. Uma vez que os seres humanos transgridem rotineiramente essas regras, os bayesianos renunciaram à pretensão de descrever a realidade e se concentraram com a afirmação normativa de que todos nós deveríamos raciocinar como os bayesianos – de que nossas inferências seriam mais racionais se assim fizéssemos. Essa alegação merece ser estudada, e várias pessoas se dedicaram a esse estudo. Muitos psicólogos e estatísticos submeteram esse tema a uma análise experimental.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: