A FILOSOFIA SECULAR BRITÂNICA

Por

Colin Brown

em

Filosofia e Fé Cristã,pp.183-185

Já vimos que, no segundo quarto do século XX, a filosofia britânica era dominada pela análise lingüística. Mesmo depois de passas das fases iniciais do positivismo lógico, estava preocupada com problemas relacionados à linguagem, significado e conhecimento.

WITTGENSTEIN.De certa maneira, o movimento é tipificado pela figura solitária de Wittgenstein em Cambridge, sempre a analisar incansavelmente a estrutura do pensamento, sempre questionando. Era constantemente perseguido pelo temor e que suas idéias fossem distorcidas por discípulos e críticos. Mesmo assim, relutava em publicar livros por causa da sua insatisfação ante suas próprias deficiências. De todos os filósofos do século XX, Wittgenstein é o que mais se aproxima da imagem popular do recluso excêntrico. Invariavelmente vestia-se de modo informal. Seu apartamento em Cambridge era parcamente mobiliado, equipado somente com uma cama, uma mesa e cadeiras de lona. Quando os alunos vinham para sessões de orientação, tinham de trazer suas próprias cadeiras. Para Wittgenstein, a filosofia era uma disciplina altamente especializada que se dedicava à análise da linguagem e do pensamento. Mas também era uma espécie de exercício em que a mente divagava. Conforme disse certa vez numa preleção:

O que ensino é a morfologia do uso de uma expressão. Demonstro que tem certos tipos de usos com os quais vocês nunca sonharam. Na filosofia, a pessoa sente-se forçada a olhar um conceito de uma certa maneira. O que faço é sugerir, ou até mesmo inventar, outras maneiras de olhá-lo. Sugiro possibilidades acerca das quais vocês não tinham pensado antes. Vocês pensavam que havia somente uma possibilidade, ou somente duas no máximo. Mas eu faço vocês pensarem em algumas outras. Além disto, faço vocês verem que era absurdo esperar que o conceito se conformasse àquelas possibilidades estreitas. Portanto, sua paralisia mental é amenizada, e vocês ficam livres para explorar todas as possibilidades de uso da expressão e descrever seus diferentes tipos.[1]

Esta idéia está bem distante do antigo conceito que via a filosofia como uma chave mestra capaz de destravar todos os segredos do universo. Tem, porém, a virtude de reduzir a matéria filosófica à proporções da vida. Impede-a de invadir as áreas propriamente reservadas para outras disciplinas acadêmicas, e assim a liberta para realizar a tarefa salutar de nos tornas conscientes do escopo e das limitações da linguagem e do pensamento.

MOORE. Outros filósofos de destaque não se deixam tão facilmente classificar em tipos. A maioria deles tem um pé no campo analítico. Mas nem G.E.Moore nem Bertrand Russell (que também eram filósofos de Cambridge) eram pura e simplesmente analistas. O nome de George Edward Moore (1873-1958) já surgiu em conexão com o argumento ontológico, e o idealismo ( sendo que rejeitava os dois). Nas preleções que proferiu em 1910-1911, e que foram subseqüentemente publicadas cerca de quarenta anos mais tarde sob o título Some Main Problems of Philosophy, Moore declarou que havia três tópicos principais na filosofia.

O alvo principal e primário da filosofia é fornecer um inventário metafísico do universo, ou seja, “uma descrição geral da totalidade deste universo, mencionando todos os tipos mais importantes de coisas que sabemos existir nele”. O segundo tópico dizia respeito ao conhecimento. Consistia em classificar os modos segundo os quais sabemos as coisas. O terceiro tópico era a ética.

Moore é lembrado como um defensor do senso comum na filosofia. No ensaio, “Em defesa do senso comum”(1925), fez uma distinção entre o significado e a veracidade daquilo que é dito de uma lado, e a análise daquele significado do outro lado. Em muitos casos, a primeira parte é clara e compreensível. É a última parte que é obscura e difícil. No âmbito da ética, atacava o que chamava de “falácia naturalista”, ou seja, a tentativa de invalidar por meio de explicações a noção do “bem”, como se fosse nada mais do que (por exemplo) o prazer que proporciona. Podemos reconhecer a bondade quando a achamos. Porém, em última análise, ela não pode ser analisada em seus elementos constitutivos. A bondade é pura e simplesmente bondade.

Na fase escolar,Moore converteu-se ao “ultra-evangelicalismo” e, durante um período de cerca de dois anos, sentiu-se obrigado a testemunhas e distribuir folhetos. A experiência revelou-se muito dolorosa, e antes de deixar a escola foi conquistado de volta ao “completo agnosticismo”. Não parece ter se desviado deste agnosticismo mais tarde na vida, e defendia que não havia evidências para sustentar a crença em favor da existência de Deus, e quase tão poucas contrárias a ela.


[1] Citado em Norman Malcolm, Ludwig Wittgenstein: A Memoir (OUP,1958,revisado 1966),p.50. Em Philosophical Investigations Wittgenstein fala de “jogos de linguagem”. Ao invés de procurar restringir o significado a ideias preconcebidas daquilo que é relevante, compara a linguagem com certo número de jogos que estão sendo jogados mais ou menos simultaneamente. A fim de entender o que significa uma declaração específica, devemos entender qual é o “jogo” e quais são as “regras”. “A analogia entre a linguagem e os jogos não lança luz aqui? Podemos facilmente imaginar pessoas num campo divertindo-se, jogando com uma bola de modo que começam vários jogos existentes, mas jogando muitos deles sem os completarem,e, entre eles, jogando a bola a esmo no ar e jogando-as uns contra os outros como brincadeira, e assim por diante. E agora alguém diz: O tempo todo estão jogando um jogo de bola e seguindo regras específicas a cada jogada.

E não existe também o caso em que jogamos e – inventamos as regras enquanto prosseguimos? E até há um jogo em que as alteramos – enquanto prosseguimos.”(op.cit.,p.33)

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