CONHECIMENTO, CONTEXTO E O PONTO DE VISTA DO AGENTE

Traduzido por Bernardo Alonso

[Estes são os três primeiros parágrafos do artigo de Timothy Williamson ‘Knowledge, Context and Agent’s Point of View’, de 2005, que estava traduzindo até surgir uma outra tradução que será publicada este ano. O artigo está no livro Contextualism In Philosophy: Knowledge, Meaning, and Truth, Oxford University Press.]

Contextualismo é relativismo domesticado. Relativismo sobre a verdade geralmente é motivado pela idéia da discordância sem culpa. Imagine dois indivíduos: um (ela) diz ‘P’; o outro (ele) diz ‘Não P’ (1). Aparentemente se P, então ‘P’ é verdadeiro e ‘Não P’ falso, portanto ela está certa e ele errado; se não P, então ‘P’ é falso e ‘Não P’ verdadeiro, portanto ele está certo e ela está errada. Em ambos os casos há uma assimetria entre as partes. Uma vez que P ou Não P (pela lei do terceiro excluído), há de fato uma assimetria entre eles, de um modo ou do outro. Ainda assim as duas partes podem ser consideradas por um observador neutro como um par igualmente inteligente, informado, perceptivo e alerta. Relativistas em relação à verdade empenham-se em dissolver a incômoda assimetria: ‘ “P” é verdadeiro para ela, “Não P” é verdadeiro para ele’. O problema começa quando perguntamos o que os relativistas querem dizer por ‘para’ na construção ‘verdadeiro para X’. Se dizer que algo é verdadeiro ‘para’ X é apenas dizer que X acredita que seja verdadeiro, então a tentativa de dissolução equivale a isto: ‘Ela acredita que “P” é verdadeiro; ele acredita que “Não P” é verdadeiro’. Porém, isso não acrescenta nada além de que ambas as partes acreditam que estão certas; não faz nada para minar o argumento da assimetria entre eles. Relativistas teriam que significar outra coisa para ‘verdadeiro para X’. Quando convidados a explicar o que mais eles pretendem significar, relativistas ferozes vociferam incoerentemente.

Contextualistas, em contraste, possuem uma resposta clara. Uma sentença é verdadeira para X se e somente se é verdadeira quando proferida por X, verdadeira relativa a um contexto no qual X é o falante. Tal relativismo é domesticado porque a relatividade no contexto do valor de verdade de uma sentença permite a incondicionalidade do valor de verdade do que a sentença é usada para dizer em um dado contexto. Quando ela diz ‘P’, ela diz verdadeiramente: não apenas verdadeiramente para ela, mas absolutamente verdadeiro. Quando ele diz ‘Não P’, ele também diz verdadeiramente: não apenas verdadeiramente para ele, mas absolutamente verdadeiro. O argumento a favor da assimetria assume que, quando ela diz ‘P’, ela fala verdadeiramente se e somente se P, e quando ele diz ‘Não P’, ele fala verdadeiramente se e somente se não P. No entanto, essa suposição é apenas tão boa quanto a suposição de que, quando ela diz ‘P’, ela diz que P, e quando ele diz ‘Não P’, ele diz que não P. O contextualismo nega tal suposição nos casos em questão. Se eu relato um falante que profere a sentença ‘P’ como tendo dito que P, na realidade assumo, contrário ao contextualismo, que ela disse em seu contexto o que eu teria dito em meu contexto ao proferir as mesmas palavras.

Uma grande força do contextualismo é que é indiscutivelmente correto com respeito a alguns casos. Se ela diz ‘Eu sou uma mulher’ ao passo que ele diz ‘Eu não sou uma mulher’, normalmente não nos ocorreria, nem por um momento, pensar que eles estão em desacordo, à despeito de que, verbalmente, a sentença dele seja a negação da sentença dela. Nós automaticamente aplicamos a regra que ‘Eu’ quando usado em um dado contexto refere-se ao falante daquele contexto: quando ela usa ‘Eu’, este se refere à ela; quando ele usa ‘Eu’, este se refere a ele. A cláusula descitacional de que eu sou o referente de ‘Eu’ quando usado por ele ou ela não tem força. Assim, quando ela diz ‘Eu sou uma mulher’, ela diz que ela é uma mulher; conseqüentemente, ela fala verdadeiramente se e somente se ela é uma mulher; ela não diz (falsamente) que eu sou uma mulher. Quando ele diz ‘Eu não sou uma mulher’, ele diz que ele não é uma mulher; conseqüentemente, ele fala verdadeiramente se e somente se ele não é uma mulher; ele não diz que eu não sou uma mulher. Ao relatarmos o discurso deles corretamente nós tornamos manifesta a possibilidade de que ambas as partes falam verdadeiramente. Esta deve ser manifesta também para as partes.

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