CETICISMO E LINGUAGEM

Por

Danilo Marcondes

em

SILVA FILHO,W.S.(Org.) O ceticismo e a possibilidade da filosofia. Ijuí: Unijuí,2005.

Como esclareci inicialmente, a questão da relação entre ceticismo e Filosofia da linguagem desenvolveu-se para mim em grande parte concomitantemente ao entendimento do projeto da Filosofia cética.

Ao analisar, contudo, o ceticismo moderno a pergunta que formulei dizia respeito a que papel teria tido o ceticismo no desenvolvimento da Filosofia da linguagem. Lancei a hipótese de que a crítica cética moderna aos poderes do intelecto e a posição cética acerca dos limites do conhecimento teriam aberto caminho para a valorização da linguagem,levando, em conseqüência, ao emergir da própria filosofia da linguagem ao final do século XIX. As críticas céticas aos poderes do intelecto teriam feito com que a representação mental – a idéia – não fosse mais vista como tendo um privilégio sobre a representação lingüística, o signo, considerado problemático devido a seu caráter convencional. Embora ainda defenda uma concepção segundo a qual o significado consiste na idéia associada à palavra, Locke parece ter sido o primeiro filósofo na tradição moderna a valorizar a linguagem, especificamente a palavra, em sua discussão do conhecimento. O livro III, “Sobre as palavras”, do Tratado sobre o Entendimento Humano, e a discussão ao final do Tratado sobre a necessidade de uma semiótica, enquanto teoria geral dos signos, para a ciência, teriam exatamente esse papel. Locke, enquanto cético moderado ou mitigado, estaria reconhecendo assim o papel da linguagem na experiência humana e, portanto, na base de todo o conhecimento. A linguagem teria um duplo papel, enquanto signo, representado a realidade e enquanto mediador da interação humana na comunicação.

A contribuição do ceticismo para a Filosofia da linguagem se daria assim de duas formas: 1) em um sentido negativo, pela crítica cética a concepção tradicional de mente e de representação mental; 2) em um sentido positivo, na valorização da linguagem enquanto sistema de signos e enquanto possibilidade de comunicação, ambas relevantes no processo de conhecimento.

A principal dificuldade no desenvolvimento dessa linha de investigação consiste, contudo, em se conseguir uma maior aproximação no período moderno entre filósofos céticos e filósofos que tenham atribuído a linguagem um papel central na filosofia. Locke parece permitir, sob certos aspectos, essa aproximação, embora não seja assumidamente um filósofo cético, porém antes de Charles Sanders Peirce[1] não tenhamos conseguido encontrar um filósofo que efetivamente formule uma posição que contenha os dois sentidos, negativo e positivo, apontados anteriormente.

Creio que a estratégia interpretativa para tratamento dessa questão que parece pertinente, deverá buscar antes um conjunto de problemas e de argumentos em diferentes textos e autores, do que propriamente um filósofo que possa ser identificado como adotando esta posição. O solipsismo certamente pode ser considerado um desses problemas que abre caminho para a filosofia da linguagem, uma vez que mostra como a via da subjetividade, pensada em termos de consciência interior e da dicotomia mundo exterior e mundo interior,leva a um impasse. A necessidade de fundamentação da ciência, pela via da subjetividade que em um momento inicial parece ser a solução, é o outro lado dessa mesma moeda. A Filosofia da linguagem, contudo, inicialmente com Frege e Russell,adotará uma perspectiva realista e procurará na linguagem, concebida de um ponto de vista lógico, uma nova possibilidade de fundamentação da ciência, evitando os impasses do solipsismo. A crise da proposta de fundamentação do conhecimento científico virá apenas um pouco mais adiante, em meados do século XX.

Cabe dizer aqui que nesta concepção a Filosofia se caracteriza mais pelos problemas filosóficos do que por suas propostas de solução e uma das principais lições metodológicas da Filosofia Analítica consiste em nos ensinar que podemos analisar argumentos independentemente dos filósofos que a empregaram; podemos inclusive analisar argumentos independentemente de suas conclusões. A história do ceticismo moderno, diferente da do ceticismo antigo, talvez seja antes uma história de argumentos do que de escolas. Assim, embora não possamos identificar nenhum dos mais influentes filósofos modernos como um cético, talvez à exceção de Hume, o ceticismo estaria presente nos problemas que enfrentam e nos argumentos que usam. Não teríamos assim correntes filosóficas céticas modernas, mas sim o ceticismo como conjunto de problemas e argumentos.

Pergunto-me então se minhas duas questões iniciais sobre a viabilidade da filosofia cética hoje e sobre a relação entre o ceticismo e linguagem que propus como fio condutor para a leitura do ceticismo – antigo, moderno e contemporâneo -, podem de fato se articular, se as duas pontas deste fio podem ser unidas.

No contexto da filosofia da linguagem contemporânea foi Kripke quem formulou uma nova relação emtre ceticismo e semântica com sua interpretação da concepção de regras e de linguagem privada em Wittgenstein. Kripke identifica um paradoxo cético em Wittgenstein no famoso § 201 das Investigações filosóficas que afirma: “ Nosso paradoxo era: nenhum modo de agir poderia ser determinado por uma regra, porque qualquer modo de agir poderia estar de acordo com a regra”.

A aplicação da regra não pode depender de uma interpretação da regra pelo falante,  porque será sempre possível uma interpretação que dê conta de qualquer aplicação da regra. Segundo Kripke, portanto, a noção de regra deve ser vista em relação à recusa por Wittgenstein da possibilidade de uma linguagem privada ou estritamente subjetiva. O critério de correção da regra é seu reconhecimento público, o uso compartilhado da linguagem. Muito se discutiu e tem ainda discutido sobre a leitura de Kripke dessa passagem e do argumento wittgensteiniano. Pode-se inclusive considerar que mais do que preocupado com a fidelidade ao complexo e, por vezes obscuro, texto de Wittgenstein, Kripke está interessado na discussão da possibilidade de uma linguagem privada, interior, solipsística,  recorrendo a noção wittgensteiniana de regra como fornecendo um forte argumento contra essa possibilidade.

A relação de Wittgenstein com o ceticismo é peculiar. Tradicionalmente podemos situá-lo como anticético com base em sua discussão de questões epistemológicas, principalmente no Sobre a Certeza. O ceticismo que Wittgenstein combate como equivocado, pode-se dizer despropositado, é precisamente o ceticismo epistêmico a que nos referimos anteriormente, que leva ao problema da realidade do mundo externo e ao solipsismo. As tentativas de refutar este tipo de ceticismo e de encontrar fundamentos para o conhecimento humano são, por sua vez, frustradas porque a dificuldade está na pergunta e não nas tentativas de resposta. O antifundacionismo wittgensteiniano pode ser visto dessa forma como uma proposta de esvaziar o questionamento cético sobre a possibilidade do conhecimento e não de encontrar fundamentos mais sólidos ou mais profundos.

O ceticismo semântico estaria presente, contudo, menos na noção de regra e de sua aplicação, tal como encontramos em Kripke, mas na concepção de indeterminação do significado. Se o significado não é uma propriedade das palavras, se não as segue como uma sombra, mas está no uso, no jogo de linguagem; se por sua vez nenhum jogo tem um privilégio em relação aos demais, e se a filosofia consiste em desfazer equívocos e elucidar os usos e não em construir teorias, “ trazendo as palavras de seu sentido metafísico para o comum” e “ condensando uma nuvem de metafísica em uma gota de gramática”, então podemos aproximar a posição filosófica de Wittgenstein, não só quanto ao problema do significado, mas também quanto a tarefa da filosofia, do ceticismo antigo em seu sentido investigativo, suspensivo e terapêutico em relação aos dogmas e doutrinas de sua época.

Ao abandonarmos a centralidade da dúvida e a busca de fundamentos para o conhecimento científico, seja na mente, seja na linguagem entendida como sistema formal, estamos deixando de atribuir uma prioridade na filosofia à questão epistêmica, ampliando seu escopo para a análise dos sentidos de nossa experiência.

Ao abandonarmos a dicotomia entre experiência comum e reflexão filosófica ou teórica, entendendo-as como contínuas e inter-relacionadas, estamos dando a filosofia um papel mais prático. E com isso, como apontam alguns autores contemporâneos, como Stanley Cavell, a possibilidade de uma filosofia cética ser uma alternativa para a filosofia adquire hoje um novo sentido.

Seria a discussão sobre o significado na filosofia analítica parte desta estratégia kantiana que leva ao insulamento, ao separar nosso entendimento comum das palavras e expressões da investigação sobre a natureza das relações semânticas? A separação radical entre os três níveis – sintaxe, semântica e pragmática – não equivaleria assim a um certo tipo de insulamento, mas precisamente um insulamento da pragmática em relação a semântica e a sintaxe? E, nesse caso, a filosofia da linguagem ordinária,as concepções de significado como uso, que recolocam a análise filosófica no plano da experiência comum, não estariam mais próximas da proposta cética antiga? Essa seria talvez uma hipótese capaz de unir as duas pontas do fio condutor que mencionei anteriormente.


[1] Peirce (1839-1914) não só critica a noção cartesiana de idéia, como desenvolve uma teoria do signo e uma concepção falibilista da ciência.

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