OS MÉTODOS CIENTÍFICOS E FILOSÓFICOS E A SUPOSTA CAPACIDADE DE ELES RESOLVEREM OS PROBLEMAS ALHEIOS

Por

Emerson Carlos Valcarenghi

[Esta é a segunda parte do texto intitulado Qual é a diferença entre a atividade filosófica e a atividade científica do professor Emerson, que dirige o grupo de epistemologia contemporânea na UFPI]

A objeção que examinamos há pouco concluiu algo próximo do seguinte: se cientistas executam métodos próprios da atividade científica, tais agentes terão, ao cabo da respectiva atividade, subsídios que lhes permitirão relatar quais são os conceitos necessários ao conceito‑φ. Ora, para tornar ainda mais claro o seu ponto, nosso objetor poderia oferecer o seguinte arrazoado adicional: tomemos dois dos métodos disponíveis a agentes científicos. O primeiro tem sido chamado de ‘hipotético‑dedutivo’ e o segundo de ‘indutivo’. No primeiro método, os agentes testam hipóteses com o fito de decidir se elas respondem verdadeiramente, ou não, às perguntas científicas em jogo.[1] Para tanto, eles montam uma amostra de indivíduos/fatos[2] para determinar, de modo observacional, se os indivíduos da amostra recebem, ou não, a atribuição do conceito afirmado/negado pela hipótese em teste. Por exemplo, vamos supor que um agente científico estivesse testando a hipótese de que todos os cisnes são brancos. Nesse caso, ele precisaria reunir um determinado conjunto de indivíduos que recebessem a atribuição do conceito‑cisne.[3] Assim, o teste de uma hipótese no método hipotético‑dedutivo consiste em determinar se os indivíduos que constituem a amostra recebem, ou não, a atribuição do conceito expresso na hipótese. No exemplo dado acima, o teste da hipótese consistiria em determinar se os indivíduos que receberam a atribuição do conceito‑cisne também receberam a atribuição do conceito‑branco. A hipótese seria confirmada, se atribuíssemos branco a todos os indivíduos da amostra, e refutada, se atribuíssemos vermelho, roxo, azul etc. a qualquer um deles. Ora, depois das considerações acima em torno do método hipotético‑dedutivo – com as quais, diga‑se de passagem, nós concordamos – nosso objetor poderia explorar o seguinte argumento contras as nossas pretensões: se um agente científico consegue montar uma amostra de cisnes para testar, à moda do método hipotético‑dedutivo, a hipótese de que todos os cisnes são brancos, então todos os conceitos necessários para que algo seja um cisne serão atribuídos já por ocasião em que a amostra é montada. Se não fosse assim, não teríamos um conjunto de coisas das quais diríamos serem cisnes. E, sendo assim, argumenta o nosso objetor, cientistas poderiam registrar os conceitos usados nas atribuições necessárias feitas aos indivíduos da amostra e comunicá‑lo ao filósofo. Com esse exemplo, o objetor conclui que a atividade científica é capaz de, ao menos, contribuir com a atividade filosófica.

            Nosso objetor, contudo, poderia ainda não estar satisfeito. Ele poderia continuar dizendo que a atividade científica seria capaz de dar contribuições à atividade filosófica, se, em vez de fazerem uso do método hipotético‑dedutivo, os cientistas fizessem uso do método indutivo. Afinal de contas, também seria necessário montar uma amostra para executar esse método. Mais precisamente, faríamos o seguinte: montaríamos uma amostra de indivíduos a que atribuímos serem cisnes, por exemplo, e, após atribuirmos sob percepção o conceito‑branco a certo número de indivíduos da amostra, nós projetaríamos aquele conceito, de modo proporcional, a indivíduos que não pertencem à amostra.[4] Partindo de tais considerações, nosso objetor poderia argumentar o seguinte: assim como no caso do método hipotético‑dedutivo, o método indutivo inclui, entre seus procedimentos, a formação de uma amostra de indivíduos aos quais atribuímos certo conceito, digamos φ. Nesse caso, todos os conceitos necessários para que algo seja um φ são atribuídos no processo de formação da amostra. Por fim, nosso objetor repetiria o bordão de que a atividade científica é capaz de, pelo menos, contribuir com a atividade filosófica, posto que cientistas poderiam comunicar ao filósofo os conceitos usados nas atribuições necessárias aos indivíduos pertencentes à amostra.

 

            Bem, segundo vemos, a objeção acima não apela para pretensas convergências de sentido entre problemas filosóficos e científicos, nem para a tese de que a decisão da verdade/falsidade de uma afirmação depende, em última instância, de procedimentos perceptuais. A objeção acima faz apelo à tese de que métodos científicos são superfuncionais, ou seja, são capazes de resolver seus próprios problemas, e também os problemas alheios, como os filosóficos, por exemplo. Mas, em rigor, essa tese não se trata de nenhuma novidade aqui. De um jeito ou de outro, ela foi invocada por algumas objeções que já discutimos. A novidade é o argumento invocado para sustentá‑la. Assim, se quisermos mostrar o fracasso desse argumento da objeção atual, temos que mostrar, de maneira definitiva, que a tese da superfuncionalidade dos métodos científicos é falsa, pelo menos, no tocante a sua aplicação em problemas filosóficos. Para tanto, iremos mostrar que métodos científicos não permitem uma decisão acerca de se um determinado conceito, ψ, é ou não necessário em relação a φ.

            Nosso argumento para provar que a tese da superfuncionalidade dos métodos científicos é falsa é o seguinte: suponhamos que um agente científico qualquer executa o método científico M para obter resposta verdadeira a uma determinada pergunta científica. Ora, mesmo que M seja eficaz em fornecer aquela resposta, o máximo que ele pode fazer, com vistas a uma possível contribuição para com a atividade filosófica, é gerar uma resposta que veicula um conceito que não tem exceção atributiva perceptual no mundo atual. Mas, isso está longe de fornecer contribuição para a atividade filosófica. Afinal de contas, as perguntas filosóficas pedem por conceitos necessários, ou seja, conceitos que, se tivéssemos que atribuir numa situação perceptual, seriam atribuídos, não apenas no mundo atual, mas em todos os mundos possíveis. Nós já vimos essa diferença antes, quando falamos que dois cientistas poderiam oferecer respostas divergentes, porém ambas verdadeiras acerca do que é um φ segundo o que percebemos sensorialmente. Bastaria, para tanto, que eles estivessem em mundos em que os conceitos veiculados por suas respostas fossem ambos sem exceção atributiva perceptual, embora o fossem cada um em seu respectivo mundo. Sendo assim, vamos supor que determinado cientista resolva crer que a relação entre algo ser um ψ e algo ser um φ é o tipo de resposta que ele poderia informar a um filósofo. O cientista faz isso: ele diz a um filósofo que, se alguma coisa é um φ, então ela é necessariamente um ψ. Ora, mesmo que fosse verdade que ψ fosse um conceito necessário relativamente a φ, isso jamais poderia ser decidido pela metodologia científica que o agente de nossa hipótese empregou. Afinal de contas, conceitos contingentes também podem ser atribuídos, sem exceção relativamente ao mundo atual, a todos os indivíduos testados pela metodologia própria da atividade científica (aliás, o agente científico visa justamente obter respostas que sobrevivam, sem exceção no mundo atual, aos testes observacionais). Mas, se conceitos contingentes também podem ser atribuídos, sem exceção no mundo atual, aos indivíduos testados pelos métodos científicos, que dependem irremediavelmente da percepção, então tais métodos não têm como decidir se ψ é necessário em relação a φ ou ψ é um conceito contingente sem exceção observacional no mundo atual. Afinal de contas, tanto os conceitos necessários, quanto os contingentes sem exceção perceptual no mundo atual, são ambos atribuíveis sob circunstâncias perceptuais. Sendo assim, como os métodos científicos poderiam discriminar uns dos outros?

            Desse modo, mesmo que os métodos científicos confirmassem, através de seus imprescindíveis testes observacionais, a resposta de que todos os φ’s são ψ’s, essa confirmação jamais nos permitiria decidir a verdade/falsidade daquela resposta em relação à pergunta filosófica correlata. Isso porque, por mais testes observacionais que fizéssemos, jamais poderíamos distinguir entre um conceito contingente que não tem exceção observacional no mundo atual e um conceito necessário, vez que ambos têm a propriedade de não ter exceção observacional no mundo atual. Por exemplo, se a teoria de que os objetos estão sujeitos à atração para o centro da Terra fosse aprovada, sem exceção, em todos os testes observacionais realizados no mundo atual, ainda assim, isso seria insuficiente para decidirmos que o conceito de ser atraído para o centro de algum planeta seja necessário para o conceito de força gravitacional. Afinal de contas, ele poderia ser apenas um conceito contingente sem exceção observacional no mundo atual. Conclusão: mesmo que M – um método científico qualquer – gere uma resposta veiculando um conceito necessário relativamente a φ, isso seria insuficiente para decidirmos se o conceito veiculado na resposta por ele gerada se trata de um conceito necessário relativamente a φ ou se trata apenas de um conceito sem exceção observacional no mundo atual.

            Mas, se considerarmos com atenção a conclusão acima, veremos que ela é verdadeira apenas se a resposta gerada pelos métodos científicos é falsa em relação à pergunta científica para a qual aquela resposta foi originalmente endereçada. Isso porque, se uma resposta gerada por um método científico fosse verdadeira em relação à pergunta científica para a qual foi originalmente endereçada, então aquela resposta seria verdadeira em reação à pergunta científica em jogo. Se fosse assim, a resposta gerada por M veicularia um conceito contingente relativamente a φ o qual não apresenta exceção nas atribuições procedidas perceptualmente. Mas, perguntas filosóficas não pedem por tais conceitos, mas, sim, por conceitos necessários relativamente a φ. Conclusão: se uma resposta obtida pela execução de um método científico responde verdadeiramente à pergunta científica para a qual ela foi destinada, então ela responde falsamente à pergunta filosófica correlata.

            Em resumo, podemos estabelecer a seguinte conclusão final sobre a capacidade de métodos científicos darem, ao menos, contribuição à atividade filosófica: se um método científico gera uma resposta que responde verdadeiramente a uma dada pergunta científica, então ela responde falsamente à pergunta filosófica correlata, e se um método científico gera uma resposta que, embora responda falsamente a uma dada pergunta científica, responda verdadeiramente à pergunta filosófica correlata, é indecidível, via execução daquele método, se ela responde verdadeiramente à pergunta filosófica correlata.[5]

 

            As considerações tecidas acima nos permitiram mostrar que métodos científicos são incapazes até mesmo de colaborar na resolução de problemas filosóficos. Tal conclusão, porem, pode não se aplicar automaticamente a outros métodos que, assim como os científicos, são chamados de ‘a posteriori’.[6] Por essa razão, julgamos ser interessante uma discussão, mesmo que breve, da ideia de que algum método a posteriori poderia ser usado para resolver, ou colaborar na resolução, de problemas filosóficos. Mais especificamente, queremos examinar um método cuja descrição pode ser feita, grosso modo, através da seguinte sequência de procedimentos: (1) percepção de algo a que atribuímos φ; (2) realização de modificações graduais, e observacionalmente controladas, no item percebido até que lhe deixemos de atribuir o conceito‑φ; (3) registro dos conceitos que se aplicam às modificações efetuadas e cujas ocorrências permitem que cessemos de atribuir o conceito‑φ.[7]

            O que diremos do método que acabamos de descrever? Em primeiro lugar, mesmo que ele fosse capaz de resolver, ou de colaborar na resolução de problemas filosóficos, isso não afetaria nossas pretensões argumentativas nesse ensaio, pois o método acima não é científico. Em segundo lugar, o método acima enfrenta uma limitação crucial de execução no que diz respeito aos conceitos ficcionais. Ou seja, se ‘φ’ representasse um conceito ficcional, nós não poderíamos operar qualquer modificação observacionalmente controlável. Em terceiro lugar, o método acima poderia apresentar dificuldades de aplicação mesmo para o caso em que ‘φ’ representasse conceitos não‑ficcionais. Afinal de contas, nós poderíamos enfrentar alguma limitação ligada à realização das modificações necessárias para aplicação do método. Por exemplo, vamos supor que nossa questão filosófica fosse acerca do que é uma zebra e que víssemos algo a que atribuímos tal conceito. Vamos supor agora que, morrendo de medo das modificações que pretendemos fazer, a esperta zebrinha fugisse em desabalada carreira. Nesse caso, é certo que teríamos uma dificuldade técnica em executar o método em questão. Vejamos outro caso. Vamos concebê‑lo bastante similar ao anterior, com a diferença de que, agora, sairíamos para testar a hipótese de que zebras são coisas que têm necessariamente faixas negras. Ora, se, para testar nossa hipótese, resolvêssemos cobrir as faixas negras de nossa zebrinha com tinta de alguma outra cor, mas uma greve mundial nas fábricas nos deixasse sem uma gota, nós simplesmente não conseguiríamos proceder segundo o método sob discussão e ficaríamos, novamente, sem decidir o caso. Ou seja, mesmo que, por hipótese, métodos a posteriori fossem tão eficazes na consecução das metas filosóficas, quanto métodos a priori, os últimos poderiam continuar estando mais à mão, mais disponíveis ao agente que os primeiros. Isso porque, se, em vez de perder tempo correndo atrás da zebrinha, nós nos puséssemos a realizar certos procedimentos mentais apropriados, nós obteríamos o resultado pretendido. Do mesmo modo, se, em vez de aguardar o término da greve das fábricas de tintas, nós nos puséssemos a realizar certos procedimentos mentais apropriados, nós obteríamos igualmente o resultado pretendido.

            Mas, as considerações acima nos permitem conclusões ainda mais fortes. Elas nos permitem dizer que métodos a priori são globalmente mais eficientes para a consecução das metas filosóficas do que os métodos a posteriori. Pois, mesmo que a disponibilidade imediata de métodos a posteriori fosse exatamente a mesma que a de métodos a priori, ainda assim, métodos a posteriori continuariam encontrando um limite em relação aos conceitos ficcionais. E não importa o fato de que os agentes filosóficos poderiam menosprezar a análise de conceitos ficcionais. Isso não muda o fato de que apenas métodos apriorísticos seriam capazes de obter a análise de conceitos ficcionais, quaisquer que fossem eles. Se isso é verdade e somos agentes que têm a pretensão de proceder com maior eficiência na satisfação de nossas metas, então devemos abdicar do uso de qualquer método a posteriori na resolução de problemas filosóficos.[8] Em outras palavras, se um agente tem a meta de resolver problemas filosóficos o mais eficientemente que ele conseguir, ele não deve, sob pena de irracionalidade, fazer uso de métodos a posteriori na tentativa de resolver tais problemas.[9]

         

            Até aqui devotamos nosso tempo na refutação da tese de que a atividade científica seria capaz de contribuir para a resolução de problemas filosóficos. É chegada a hora de fazer o inverso, ou seja, de mostrar que a atividade filosófica também não é capaz, sequer, de contribuir para a resolução de problemas filosóficos.

            Para provarmos nosso ponto, faremos uso do seguinte argumento: suponhamos que um agente, que estivesse tentando responder corretamente a uma pergunta filosófica, propusesse a resposta R: se algo é um φ, então ele é (necessariamente) um ψ. Em adição, vamos supor que, após a execução de procedimentos que são próprios à atividade filosófica, o agente filosófico em questão conseguisse decidir que R é falsa. Bem, se o agente conseguisse decidir que R é falsa, ele também poderia conseguir decidir que ψ é um conceito contingente em relação a φ. Se fosse assim, a atividade filosófica seria capaz de decidir que ψ é um conceito contingente em relação a φ. Dado que conceitos contingentes são o tipo de conceito demandado pela pergunta científica, alguém poderia perguntar‑se: por que a atividade filosófica não seria capaz de contribuir com a tarefa científica? A resposta é que, embora a atividade filosófica seja capaz de mostrar que um dado conceito é contingente em relação a outro, isso está muito distante de constituir uma contribuição efetiva à atividade científica. Afinal de contas, a pergunta científica não pede quaisquer conceitos contingentes em sua resposta, mas aqueles que sejam segundo o que percebemos sensorialmente. É claro, tal observação é, por si só, insuficiente para provarmos que a atividade filosófica é inapta para prestar a contribuição sob discussão. Afinal de contas, o uso de métodos a posteriori não está vedado a agentes filosóficos. E, nesse caso, alguém poderia insistir na ideia de que o filósofo seria capaz de prestar auxílio ao cientista, caso resolvesse aplicá-los para efeito de decidir se ψ, além de contingente, seria também segundo o que percebemos sensorialmente. Mas, é exatamente aqui que a tese da contribuição mútua, ou mesmo unilateral, cai por terra. Afinal de contas, para decidir se um determinado conceito é contingente e segundo o que percebemos sensorialmente (com toda a força dessa expressão), não bastaria ao filósofo executar um método a posteriori qualquer. Ele teria que executar métodos que envolvessem alguma amostra, ou seja, alguma coleção de indivíduos em quantidade relevante para o fim em jogo. Ora, mas, se nosso agente o fizesse, ele estaria executando métodos científicos. Se esse fosse o caso, a atividade executada para decidir a verdade/falsidade da resposta R teria deixado de ser filosófica e passado a ser científica. Conclusão: se, para resolver, ou contribuir para a resolução de um problema científico, um filósofo tem que deixar de executar a atividade filosófica e passar a executar a atividade científica, então a atividade filosófica é tal que sequer contribui para a resolução de problemas científicos, que era o que queríamos provar.

           

            Para encerrar nosso ensaio, queremos trazer à tona uma questão que, muito facilmente, acabaria emergindo a partir das especulações que fizemos no parágrafo anterior. A questão é esta: manteríamos nós a atribuição do conceito de filósofo a um agente que, além de, assumir a meta de contribuir para a resolução de um problema científico e propor‑lhe uma resolução, passasse a fazer uso de métodos científicos para decidi-la verdadeira/falsa? Não, nós diríamos que, em algum momento, o agente filosófico se converteu em agente científico. Sendo assim, gostaríamos de lançar e discutir, embora muito brevemente, propostas de análise para alguns dos conceitos expressos no parágrafo acima. Nossa agenda será composta pelos seguintes problemas filosóficos: o que é uma proposta científica? O que é uma proposta filosófica? O que é um agente científico? O que é um agente filosófico?

            Para tentarmos responder, mesmo que parcialmente, às perguntas acima, vamos imaginar dois agentes: um filosófico, AF, e um científico, AC. AF tem a pretensão de responder corretamente à pergunta filosófica, PF, enquanto AC tem a pretensão de responder corretamente à pergunta científica, PC. Agora, vamos imaginar que tais agentes propõem respostas que acabam sendo corretas em relação a PF e PC, mas de maneira cruzada. Ou seja, a resposta de AF é correta, mas em relação à PC, enquanto a resposta de AC é correta, mas em relação à PF.[10]

            Dado o caso acima, nossa questão de ordem é: o fato de AF e AC terem proposto resposta, que cruzadamente, são corretas em relação a PF e PC, muda a categoria de suas propostas, de modo que a proposta de AF, que era filosófica, passa ser científica, e a proposta de AC, que era científica, passa a ser filosófica? Nossa resposta é não. Afinal de contas, o que as especulações acima mostram é que, para uma proposta ser filosófica, científica etc., é necessário, e talvez suficiente, que um indivíduo a proponha, respectivamente, para um problema filosófico, científico, etc. Ou seja, a classe a que pertence uma dada proposta de resolução de problema não depende do seu conteúdo, do crachá de identificação do agente, nem da metodologia empregada para decidi-la verdadeira/falsa, mas do tipo de problema em relação ao qual o agente dirige sua proposta de resposta.

            A próxima questão com a qual iremos lidar tem a ver com os demais problemas da nossa agenda filosófica, a saber, o que é um agente filosófico e o que é um agente científico. A questão é a seguinte: o fato de AF e AC darem uma resposta correta cruzada em relação a PF e PC seria suficiente para converter AF num agente científico e AC num agente filosófico? Nossa resposta é, simplesmente, não. Afinal, as pretensões responsivas de AF e AC são essenciais para a categoria de agentes a que pertencem. Ou seja, o tipo de agente que alguém é depende fundamentalmente do tipo de problema que esse agente quer resolver ou contribuir para resolver. Por essa razão, é que os agentes AF e AC não se converteram, respectivamente, em científico e filosófico apenas pelo fato de terem proposto uma resposta que é correta em relação à pergunta alheia.

            A última questão ligada à nossa agenda é: e se AF e AC executassem uma metodologia cruzada para decidir a verdade/falsidade de suas propostas de resposta, isso seria relevante para os dizermos filosóficos ou científicos? Por exemplo, vamos supor que AF e AC, mantendo suas pretensões responsivas ligadas, respectivamente, à PF e PC, passassem a fazer uso de métodos cruzados. Nós diríamos, nesse caso, que eles teriam se convertido, respectivamente, em agente científico e agente filosófico? Não, não diríamos. Nós, simplesmente, diríamos, que AF e AC estariam fazendo uso de métodos ineficazes para decidirem a verdade/falsidade de suas propostas de repostas.

           

            Enfim, esperamos ter respondido, senão completamente, pelo menos parcialmente, a todas as perguntas a que nos propusemos responder ao longo desse ensaio, em especial, sua pergunta‑título. Todavia, é certo que outras não receberam o mesmo tratamento. De qualquer modo, esperamos que nosso ensaio tenha sido útil na compreensão da natureza de duas das atividades intelectuais mais apreciadas em nossa sociedade. Aliás, se ele foi útil na compreensão daquilo que constitui a atividade filosófica, o leitor mesmo poderá concluir que esse ensaio tem sido, desde seu início, produto literal dessa atividade.

 

Referências

 

FEYERABEND, P. K. Against method. London: New Left Books. 1975.

HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano. Lisboa: Edições 70, s/d.

POPPER, K. R. Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionária. São Paulo: EDUSP, 1975.

QUINE, W. V. O. Dois dogmas do empirismo. In: Ensaios. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1975.

QUINE, W. V. O. Epistemologia naturalizada. In: Ensaios. Col. Os Pensadores.  São Paulo: Abril, 1975.

 


[1] Popper, em Conhecimento Objetivo, e Feyerabend, em Against Method, parecem sugerir que a hipótese não deva ser objeto de crença por parte do usuário do método hipotético‑dedutivo. No entanto, para que o agente assegure alguma racionalidade no teste de sua hipótese, ele, de algum maneira, tem que acreditar na proposição que é objeto de sua hipótese (ou, pelo menos, não crer nas proposições que são inconsistentes com ela). É claro que alguém poderia ficar agora em duvida sobre se não seria de algum modo irracional ao agente científico testar uma hipótese cuja proposição‑objeto ele toma como verdadeira. Nossa resposta é de que a crença na hipótese seria irracional apenas se a intensidade com a qual o agente acreditasse nela fosse inadequadamente alta. Em outras palavras, a crença na hipótese não é irracional, se o grau dessa crença é adequadamente baixo. Nesse caso, as coisas se passariam da seguinte maneira: se a crença do agente na hipótese em teste fosse de grau adequadamente baixo, e o agente confirmasse a hipótese nos testes, então o grau com que o agente acreditara inicialmente na proposição sob hipótese poderia, ou deveria, elevar‑se. Se, pelo contrário, os testes observacionais refutassem a hipótese, o grau de crença do agente naquela hipótese teria que zerar de vez, sob pena de ele crer irracionalmente. Além do mais, se testes, ou situações análogas, ocorridas postumamente reconfirmassem a hipótese, o agente poderia, ou deveria, aumentar a intensidade da crença na proposição que fora, antes, objeto de sua hipótese.

[2] Embora a amostra possa ser constituída por indivíduos ou por fatos, nós falaremos, daqui em diante, apenas em/de amostras de indivíduos. Não obstante, queremos que fique subentendido que as conclusões extraídas para um caso são, em princípio, extensíveis para o outro. Ainda a respeito da amostra, também nos parece útil dizer que é a hipótese que determina a classe de indivíduos pertencentes à amostra. Por exemplo, se nossa hipótese é de que seres humanos se comportam de modo autodestrutivo, a amostra não poderia, em princípio, ser constituída por ratos. Isso poderia acontecer apenas se, funcionando juntamente com nossa hipótese, tivéssemos a crença de que há uma analogia relevante entre os indivíduos das diferentes classes em jogo.

[3] Nesse instante, alguém poderia ser tentado a pensar que os indivíduos da amostra teriam que receber a atribuição do conceito de cisne necessariamente numa circunstância perceptual, ou seja, numa circunstância em que o agente percebe algo a que atribui o conceito‑cisne. Isso não é rigorosamente necessário. Isso porque os agentes poderiam acreditar, de modo presumido, que os indivíduos da amostra são cisnes e, nesse caso, testar hipóteses que especulariam a respeito dos efeitos decorrentes do fato de aqueles indivíduos serem cisnes. Por exemplo, vamos supor que estejamos testando uma hipótese que versa sobre o comportamento vocal dos cisnes quando são isolados numa cápsula e lançados no espaço sideral. A certa altura do experimento, vamos supor, nós perdemos todo o meio de monitoramento perceptual, com exceção do sonoro. Ora, nós não precisamos atribuir o conceito de cisne, perceptualmente, quando procedemos o teste de nossa hipótese sobre as vocalizações dos cisnes: nós podemos simplesmente presumir que são cisnes que estão lá. Apesar disso, deve ficar claro que, sem teste observacional, nós não podemos assumir, de certo modo, que as vocalizações daqueles animais sejam como nossa hipótese o assevera. Isso tem que ser atribuído obrigatoriamente sob percepção (confira mais sobre os pontos em jogo na nota 9). Por fim, uma advertência: as observações dessa nota não foram feitas para mostrar que a atividade científica pode resolver problemas que versam sobre entidades “imperceptíveis”, como átomos, bósons, buracos negros etc. Sim, a atividade científica pode resolver problemas ligados a átomos, bósons, buracos negros etc. Não, exemplares desses conceitos não são imperceptíveis, vez que, se fôssemos suficientemente miniaturizados ou “maxiaturizados” nós atribuiríamos sob percepção, e respectivamente, os conceitos de átomo, bóson, buraco negro etc. Ou seja, os exemplares desses conceitos não são imperceptíveis. Eles são apenas atualmente não‑percebidos.

[4] Confira na Investigação sobre o Entendimento Humano de Hume um argumento contra a capacidade de o método indutivo justificar uma crença.

[5] Ou seja, não é impossível a um método científico gerar resposta que seria verdadeira para uma pergunta filosófica. Mas, o ponto é que, mesmo que isso acontecesse, o método não nos permitiria decidir que a resposta gerada por ele responderia verdadeiramente à pergunta filosófica. Exemplo: não é impossível que um moedor de carne gere uma Ferrari 599 GTB Fiorano em vez de carne moída. É certo, porém, que não poderíamos decidir quando e se ela o faria, se dispuséssemos apenas da verdade de que seria possível que ela o fizesse.

[6] Conforme sugerimos acima, todo método científico é a posteriori, embora nem todo método a posteriori seja científico. A razão pela qual um método científico é a posteriori é a ocorrência de um procedimento perceptual em sua composição. Métodos a posteriori diferem de métodos ditos ‘a priori’, porque os últimos não apresentam a ocorrência de um procedimento perceptual em sua composição.

[7] Nós também poderíamos ter optado por uma espécie de correlato, igualmente não‑científico, do método hipotético‑dedutivo. Nesse método, a inicialização se daria por meio da formulação de uma hipótese cujo teste, porém, dar‑se‑ia através dos mesmos elementos de alteração e cessação de atribuição do conceito inicial, tal como os caracterizamos acima.

[8] Alguém poderia reclamar aqui que agentes só precisam ter metas ligadas à eficácia de um método, que não são necessárias metas ligadas a maior eficiência de um método em relação a outro. De fato, não é necessário que fixemos metas que sejam ligadas à maior eficiência de um método relativamente a outro. Contudo, há metas cujo próprio conteúdo implica a necessidade da execução de métodos que sejam, não apenas mais eficientes do que outro, mas que sejam absolutamente eficientes, isto é, que sejam infalíveis.

[9] Mas, nesse instante, alguém poderia propor a seguinte objeção contra a superioridade dos métodos a priori na condução da tarefa filosófica: suponhamos que, numa circunstância perceptual, atribuíssemos somente os conceitos necessários para algo ser um φ. Nosso objetor aproveitaria a circunstância para dizer que métodos a posteriori seriam tão eficazes, quanto métodos a priori na consecução da meta filosófica. Mas, nosso objetor está errado. Primeiro, é falso que a eficácia de métodos a posteriori seja simplesmente igual à de métodos a priori. Isso aconteceria apenas se a situação especulada pela hipótese fosse o caso. Segundo, não nos parece que a situação especulada pela hipótese poderia ser o caso. A tese de que seria possível atribuirmos numa situação perceptual apenas os conceitos necessários relativamente a φ é algo que soa bastante complicado. Nós suspeitamos que as atribuições de φ em situações perceptuais, e até mesmo nas situações imaginacionais, carregam, pelo menos, um conceito contingente relativamente a φ.

[10] Advertência: essa hipótese das respostas corretas cruzadas poderia tentar alguém a compor um argumento ainda em defesa de uma contribuição mútua entre as atividades filosófica e científica. Mas, isso seria um tremendo erro, primeiro, porque uma mera proposta de resposta não dá ao agente a condição de decidi‑la verdadeira/falsa. Segundo, justo em razão das respostas serem cruzadas, elas não constituem, ipso facto, contribuição mútua.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: