CONFIABILISMO EXTERNALISTA

Por

Matthias Steup

em

Philosophical Issues,14,Epistemoloy,2004 

É razoavelmente claro, então, como a questão pode ser compreendida.[1] Vamos proceder e examinar várias respostas a ela. Eis uma resposta radicalmente externalista:

Confiabilismo externalista radical(R-EXREL)

Experiências sensoriais são uma fonte de justificação se e somente se são confiáveis.[2]

Confiabilismo, como compreendido aqui, é uma teoria não de crença justificada[3], mas de experiência sensória como fonte de justificação. Entretanto, o tipo de confiabilismo que eu quero discutir é relativamente próximo do confiabilismo de crença justificada, e assim sucumbe as objeções análogas.

De acordo com R-EXREL, a confiabilidade da experiência sensória é suficiente para fazê-la uma fonte de justificação. Isto não parece certo, imagine um mundo possível, cujo os habitantes faculdades perceptuais confiáveis, mas que também tem, talvez devido as manipulações do demônio cartesiano, irresistível evidência para crer que suas faculdades perceptuais não são confiáveis. Chamo isto de O mundo do Genio Maligno ao Reverso( como oposto ao Mundo do Gênio Maligno Padrão). Nele, a experiência sensória é confiável, mas parece não confiável. É a experiência sensória uma fonte de justificação no Mundo do Gênio Maligno ao Reverso? Há boa razão para pensar que não.[4]

Suponha que você ouça Glen afirmar que P, mas você tem excelente evidência para pensar que Glen não é um informante digno de confiança. A afirmação de Glen não dá, parece, a você uma razão para crer que P. Agora imagine você mesmo sendo uma habitante do Mundo do Gênio Maligno ao Reverso. Você tem uma experiência sensorial que P. Você também tem forte evidência para crer que as experiências sensórias não sejam confiáveis. Pareceria que sua experiência sensória não dá a você mais uma razão para crer que P do que a afirmação de Glen. Isto sugere que a confiabilidade da experiência sensória não é suficiente para fazê-la uma fonte de justificação.[5] Minimamente, deve ser o caso que não há razões para pensar que a experiência sensória não é confiável. Vamos, portanto, modificar R-EXREL, que nos dá:

Cofiabilismo externalista moderado(M-EXREL)

Experiências sensórias são uma fonte de justificação se e somente se (i) elas são de fato confiáveis e (ii) não há razões para pensar que elas não são confiáveis.

Embora M-EXREL é mais plausível do que R-EXREL,  entretanto é problemático. Ele afirma que a experiência sensória é uma fonte de justificação somente se é confiável. O Mundo do Gênio Maligno Padrão – um mundo em que a experiência sensória não é confiável, mas parece confiável – sugere de outra forma. Os habitantes deste mundo tem estados mentais que refletem nossos próprios, que significa que a não confiabilidade de suas faculdades perceptuais, por assim dizer, são ocultas a eles. Dado que o sentido do termo ‘justificação’ que nós temos adotado, e assumindo que a experiência sensória é uma fonte de justificação para nós, temos a conclusão plausível que no Mundo do Gênio Maligno Padrão a experiência sensória é uma fonte de justificação. M-EXREL implica, implausivelmente, que não é.

Em resumo: no Mundo do Genio Maligno ao Reverso, a experiência sensória é confiável, mas parece não confiável e portanto não é uma fonte de justificação. Isto mostra que a confiabilidade de facto da experiência sensória não é necessariamente  para fazê-la uma fonte de justificação. De acordo com M-EXREL, é. Assim, nem R-EXREL nem M-EXREL é uma boa resposta a questão.


[1] [N.T.]A questão é: Por que uma experiência sensorial que P é uma fonte de justificação – uma razão –  para crer que P?

[2] O “se e somente se” é para ser entendido como indicando equivalência, ou coextensão necessária.

[3] Como, por exemplo, os processos do confiabilismo de Goldman. Ver 1979.

[4][N.T.] Sugiro a leitura do caso Truetemp de Keith Lehrer.(Breve estarei postando ele aqui)

[5]  O Mundo do Gênio Maligno ao Reverso é parecido ao caso de Norman BonJour. Ver BonJour 1985, capítulo 3. O último é que pretende mostrar que a confiabilidade não é suficiente para crença justificada, o primeiro para mostrar que confiabilidade não é suficiente para fazer experiência sensória uma fonte de justificação.

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