PLANTINGA E A FENOMENOLOGIA DA MEMÓRIA

Publicado em externalismo.blogspot.com

Warrant and proper function. New York e Oxford: Oxford University Press.
Este resumo trata apenas de um pequeno trecho sobre memória entre as páginas 57 e 64 no qual Plantinga trata da fenomenologia da memória e do caráter básico das crenças oriundas da memória.

Como já dizia o sensato Aristóteles, a memória é sobre o passado.[1] Mas a sensatez de tal afirmação não é suficiente para deixarmos de ficar intrigados com a memória. Afinal de contas, como a memória pode ser sobre o passado? Ok, traços das coisas percebidas ficam impressos no nosso cérebro, assim como grafites ficam impressos nas paredes. Todavia, as paredes não lembram (a não ser em um sentido metafórico de ‘lembrar’), mas nós sim (p. 57).

Eis os três principais aspectos da fenomenologia da memória:
1. A memória apresenta-se como intencionalidade. A lembrança de determinada coisa é lembrança que se apresenta como dessa coisa (p. 59). Lembrar não é como ver fotos antigas e não reconhecer quem está na foto. Ao contrário, é reconhecer determinada coisa. Tal reconhecimento está sujeito aos ‘pecados’ da memória,[2] sendo os mais relevantes a atribuição errada e a distorção.

2. A memória apresenta-se como sendo do passado (p. 59). Caso não se apresenta-se como sendo do passado, não seria memória, mas sim alucinação.

3. A memória apresenta-se como memória, e não como informação oriunda do testemunho (p. 59). Acho que aqui Plantinga não conta toda a história, pois acontece, como nos dizem os psicólogos, neurobiólogos e George Orwell,[3] de uma pessoa tomar uma informação oriunda do testemunho por uma lembrança legítima. Talvez lembranças sejam sempre reconhecidas como lembranças, mas vez que outra lembranças falsas são reconhecidas como lembranças legítimas.

Levando em conta tais aspectos, é interessante o caso da replicante Rachel, no filme Blade Runner. Ela tem lembranças de certas coisas, tais lembranças se apresantam como sendo do passado, e se apresentam como lembranças. Mas não são lembranças, são ‘implantes’.

Memórias são básicas, no sentido de não apoiadas em evidências. A memória não é como a indução: não lembro do sol nascer pela manhã de tanto ver tal coisa. Ao contrário: a lembrança do evento recorrente é o fundamento da indução.[4] Eu simplesmente lembro de tal coisa. Isso não significa que a memória não possa ser corrigida. Ela é básica, mas corrigível (p. 61).

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[1] Aristóteles, De memoria et reminiscentia, 449a15.
[2] Ver Schacter, Os sete pecados da memória.
[3] Em A revolução dos bichos e 1984.
[4] É o ponto de Burge em “Content preservation”: a memória é fundamental para o raciocínio.

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