A EPISTEMOLOGIA DEPOIS DO PRAGMATISMO

Por

Waldomiro José da Silva Filho

em

OLIVEIRA,E.C.(Org.) Epistemologia lógica e filosofia da linguagem. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana,2001.p.195-197

Ao pragmatismo está associado um argumento negativo dirigido à epistemologia, notadamente, ao “fundacionismo epistemológico”, à “certeza subjetiva”, ao “realismo metafísico” e à noção espetacular- representacionista da verdade e de conhecimento. Grosso modo, em Charles S. Peirce, William James,John Dewey, Ludwig Wittgenstein, Willard Von Quine e Wilfrid Sellars, as criticas à “linguagem privada”, “ostensão”, “intuição”, “experiência imediata”, “indução” e à prioridade da consciência do eu como primeiros princípios do conhecimento do mundo e das outras mentes, significou um duro golpe na idéia de uma fundamentação racional (epistemológica) do conhecimento, legando ao pragmatismo um dos seus principais argumentos.

Esta crítica negativa, consequentemente, retraçou os problemas da verdade e da realidade. Ora, para o pragmatismo, a idéia de verdade não pode ser tomada como ajuste espetacular e verificacional entre nossas proposições e coisas e acontecimentos no mundo independente da nossa linguagem. Pois, como salienta Rorty em Truth and progress de 1998, mesmo que concebamos que “verdadeiro” é um termo com pretensões absolutas, suas condições de aplicação serão sempre relativas: “…não existe tal coisa como um crença justificada sans phrase – justificada de um vez por todas –, pela mesma razão que não existe uma crença que se possa conhecer, de uma vez e para sempre, como indubitável” (RORTY,1998a,p.2).

A verdade pressupõe um falante com crenças ( que evoca como verdadeiras), um interprete que supõe crenças às sentenças do falante, uma comunidade, regras compartilhadas entre os utentes da linguagem e um contexto. Quando falamos sobre o mundo é fundamental que, sobre uma parcela importante de aspectos, estejamos dispostos a entrar em acordo – o que não implica que todas as nossas interpretações sejam idênticas, mas que, pelo menos, deva existir um acordo amplo sobre um marco a partir do qual as interpretações, inclusive a minha, entre em disputa. O requisito mínimo para a existência da “verdade” é que as próprias crenças, de algum modo, possam ser exploradas. Sabemos de uma crença, dirá Davidson, quando somos falantes capazes de compreender a emissão dos outros (DAVIDSON,1985,p.141 seq.): não haveria nada no mundo, nem objeto nem evento que seja pertinente à verdade e à falsidade se não houvesse criaturas falantes (Idem,1990,p.279). A realidade nasce não quando estamos diante da pura presença – disse Peirce, James e Dewey – nossas crenças comparecem na nossa fala com outros e podem, de algum modo, ser interpretadas, compreendidas e corrigidas. Não se pode dizer que a realidade e a verdade estão lá fora (RORTY,1991b; PUTNAM,2000; DAVIDSON,1990). Quando se busca categorias e fronteiras epistêmicas e ontológicas num lugar como a “experiência”(na “experiência das coisas” e na “experiência de si” ) perde-se de vista que, em Peirce e em Wittgenstein, não se pode distinguir, de um lado, o conhecido, o real, a vigília, a verdade e, do outro, a ilusão, o sonho, o delírio, a falsidade, recorrendo à uma consciência anterior e fora da idéia de verdade na linguagem.

Para Davidson (1986;2000), Putnam(1990) e Rorty(1991a;1991b;1998a) não há qualquer sentido em se falar de uma realidade ininterpretada, de uma verdade exterior às crenças e significados e de um espírito como observador passivo do espetáculo do mundo. O significado e a mente (mind) penetram tão profundamente o que entendemos por realidade que a esperança de nos vermos como cartógrafos de algo independente da linguagem está comprometida desde o princípio (PUTNAM,1990,p.20). Uma pessoa deve estar inscrita numa comunidade de fala se ela domina o conceito de crença e de crença verdadeira: só uma pessoa que interpreta a fala dos outros pode possuir o conceito de pensamento, de razão, de verdade e de realidade.

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Uma resposta to “A EPISTEMOLOGIA DEPOIS DO PRAGMATISMO”

  1. Marcos Says:

    Ontem refletindo sobre um livro que li a muito tempo “Assim Falou Zaratustra” me lembrei de uma frase notadamente pragmatista e anti-realista de Nietzsche:

    “Deus morreu”

    Ele não diz que deus não existe, ele diz que este existiu e morreu. Mas que tipo de existência o autor da a deus? A de um discurso, de um comportamento verbal, de um constructo explicativo, que perdeu sua função… morreu….
    A Existência que Nietzsche usa não é a Existência em essencia em si e per si, mas a existência do senso comum, a mesma de que eu digo que a cadeira existe.

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