O QUE É FALIBILISMO?

Por

Susan Haack

em

HAACK, Susan. Filosofia das lógicas. São Paulo: UNESP, 2002. p. 303-307

Vou usar ‘falível’ no sentido de cognitivamente falível, isto é, falível com respeito a crenças, e não, por exemplo, com respeito a promessas, resoluções etc. Dizer que uma pessoa (ou grupo de pessoas, ‘ a comunidade científica’, por exemplo) é falível é dizer que ela, está sujeita a sustentar crenças falsas. Dizer que um método é falível é dizer que ele está sujeito a produzir falsos resultados. É claro que uma pessoa pode ser falível porque ela usa métodos falíveis de aquisição de crenças – exame de vísceras ou horóscopos, talvez. Parece-me ser inegável que as pessoas são falíveis – todos somos propensos a sustentar ao menos algumas crenças falsas. Sabemos que são falsas algumas crenças que as pessoas sustentavam – houve época, por exemplo, em que as pessoas acreditavam que o Sol se move ao redor da Terra, que a Terra é plana, etc. – e é razoável, tanto quanto cauteloso, supor que nós também acreditamos em coisas que são falsas, embora, é claro, não saibamos quais das coisas em que acreditamos são falsas, e naturalmente deveríamos parar de acreditar nela se soubéssemos.

Contudo, os epistemólogos frequentemente pensaram que, com respeito a certos tipos de crenças – crenças de alguém sobre suas próprias experiências sensoriais imediatas são um exemplo favorito – as pessoas podem ser infalíveis: elas estão sujeitas a ter crenças falsas sobre astronomia, geografia etc., mas elas não estão sujeitas a se enganar com respeito a estarem com dor, vendo uma mancha vermelha etc. E alguns autores argumentaram que também não estamos sujeitos a nos enganar sobre verdades da lógica. A lógica, pensam eles, possui uma segurança epistemológica especial. Popper, por exemplo, embora enfatize nossa falibilidade com relação a conjecturas cientificas, não obstante parece confiante de que a lógica é segura (cf.1960 sobre seu falibilismo, e cf. 1970 sobre sua recusa de estender o falibilismo á lógica).

O falibilismo estende-se à lógica?

(i)Necessidade. Por que deveríamos estar dispostos a admitir que podemos estar enganados sobre o que consideramos serem as leis da física, mas não poderíamos estar enganados sobre o que consideramos serem as leis da lógica? Uma razão importante – importante ao menos porque está baseada numa confusão importante – deriva da presumida necessidade das leis da lógica. O argumento seria mais ou menos o seguinte: as leis da lógica são necessárias, ou seja, elas não poderiam não ser verdadeiras. Assim, uma vez que uma lei lógica não pode ser falsa, a crença de alguém numa lei lógica não pode estar equivocada, e, assim, é infalível. Tenho pouca dúvida de que este argumento seja ilegítimo. ( As verdades da matemática também são supostamente necessárias. Mas, não obstante isso, somos propensos a sustentar crenças matemáticas falsas, o resultado de erros de cálculo, por exemplo. E se as leis da física são,como alguns supõe, fisicamente necessárias, não se pensa normalmente que isso acarrete que sejamos infalivelmente capazes de dizer quais são as leis da física.) Mas o que está errado com o argumento de que, uma vez que as leis da lógica são necessárias, o falibilismo não se estende à lógica?

Este argumento está errado por duas razões. Primeiro, ele depende do uso de ‘falivel’ como um predicado, não de pessoas, mas de proposições: um predicado que signifique, presumivelmente, ‘possivelmente falso’. Ora, é bem verdade que se as leis da lógica são necessárias, elas não são possivelmente falsas,e, portanto, neste sentido, elas são ‘infalíveis’. Mas a tese de que algumas proposições são possivelmente falsas ( que chamarei de ‘falibilismo de agente’). E o falibilismo proposicional não acarreta o falibilismo de agente. Mesmo que as leis da lógica não sejam possivelmente falsas, isto de modo algum garante que não estejamos sujeitos a sustentar crenças lógicas falsas. Ao alegar que somos falíveis em nossas crenças lógicas ( que o falibilismo de agente de fato estende-se à lógica) não estou, é claro, afirmando a tese contrária de que, embora, digamos, ‘p V –p’ seja necessária, podemos falsamente acreditar que p V –p. Em lugar disso, estou alegando que,embora ‘p V –p’ seja necessária, nós podemos falsamente acreditar que –(PV –p), ou então,talvez,embora ‘pV-p’ não seja necessária, nós falsamente acreditamos que seja. (Deliberadamente, escolho o terceiro excluído como um exemplo de uma pretensa lei lógica, uma vez que há, é claro, uma disputa sobre seu status.) Segundo, ao argumento é dado uma plausibilidade enganadora, pela facilidade com que a tese de que algumas proposições são contingentes. Se as leis da lógica são necessárias, nossas crenças lógicas não serão, de fato, contingentes, mas ou necessariamente verdadeiras, ou necessariamente falsas. Entretanto, ‘possivelmente falsa’ não deveria ser equiparada a ‘contingente’, pois crenças necessariamente falsas são possivelmente falsas.[1]

A fé que a lógica é inalterável tem frequentemente sido a base para negar que a lógica seja revisável. Uma vez que esteja claro – como espero que esteja agora – que a necessidade dos princípios lógicos não mostra que somos logicamente infalíveis, também vai estar claro que se a lógica é não-revisável, não é porque ela seja inalterável.

Ora, uma razão para acreditar que somos falíveis no que diz respeito a nossas crenças sobre o mundo é que sabemos que as pessoas uma vez confiantemente acreditavam naquilo que nós agora (assim pensamos) sabemos ser falso. E embora estejamos certos de que eles estavam errados em pensar, por exemplo, que a terra é plana, o fato de que suas crenças resultaram falsas é uma razão para nós admitirmos que algumas de nossas crenças podem também resultar equivocadas. E razões similares operam, pensaria, para uma cautela semelhante sobre nossas crenças lógicas. Por exemplo: Kant escreveu que ‘Em nossos próprios tempos não houve nenhum lógico famoso,e, de fato, não precisamos de quaisquer novas descobertas na Lógica…’(1800,p.11). Sua confiança de que a lógica era uma ciência completa parece-nos – beneficiados com um conhecimento restrospectivo, depois de enormes avanços feitos em lógica desde o último quartel do século XIX – exibir um curioso e notável excesso de confiança. ( A confiança de Kant na lógica aristotélica era baseada na crença de que a lógica incorpora as ‘formas de pensamento’, que só podemos pensar de acordo com estes princípios. Uma discussão destas idéias será feita adiante.) Ou, mais uma vez: Frege pensava que a redução da aritmética à lógica garantiria a aritmética epistemologicamente, porque ele tomou as verdades da lógica como auto-evidentes. Nós, contudo, sabendo que os axiomas ‘auto-evidentes’ de Frege eram inconsistentes, tendemos a considerar inadequada sua confiança.(Lakatos,1963-1964, num esplendido ensaio filosófico sobre a história da matemática, similarmente subverte a tendência a colocar a matemática num pedestal epistemológico.) Uma outra razão contra o excesso de confiança epistemológica é o conhecimento de que outras pessoas sustentam, com o mesmo grau de confiança, crenças incompatíveis com as nossas próprias. E este motivo opera na esfera da lógica também; a própria pluralidade de sistemas lógicos depõe contra nossa posse de qualquer capacidade infalível para determinar as verdades da lógica.

(ii) Auto-evidência. Ainda assim, a idéia de que as verdades da lógica são auto-evidentes precisa de um exame mais atento. O que significa alegar que alguma proposição é auto-evidente? Presumivelmente, algo no sentido de que ela é, obviamente, verdadeira. Mas, uma vez assim colocado, a dificuldade com o conceito de auto-evidencia não pode ser dissimulada. O fato de que uma proposição é óbvia não constitui, lamentavelmente, nenhuma garantia de que ela seja verdadeira. (É relevante que diferentes pessoas, e diferentes épocas, considerem ‘obvias’ proposições diferentes e mesmo incompatíveis – que alguns homens são naturalmente escravos, que todos os homens são iguais…) Se alguém diz que os axiomas inconsistentes de Frege apenas pareciam auto-evidentes, mas não podiam realmente sê-lo, ou que eles eram auto-evidentes, mas, infelizmente, não eram verdadeiros, a auto-evidência deixa de fornecer uma garantia epistemológica. Porque ou (na última suposição) uma proposição pode ser auto-evidente, mas falsa, ou então ( na primeira suposição), ainda que seja verdade que se uma proposição é auto-evidente, então ela é, de fato, verdadeira, não se tem nenhuma maneira certa de dizer quando uma proposição é realmente auto-evidente.[2]

(iii)Analiticidade. Outra razão para duvidar da revisibilidade da lógica parece derivar da idéia, primeiro, de que verdades lógicas são analíticas e depois, que verdades analíticas são, por assim dizer, manifestas. Se A é verdadeira em virtude do seu significado, a idéia é, então, de que ninguém que a compreenda pode deixar de ver que ela é verdadeira. Há lugar, penso, para duvidas se um argumento realmente convincente pode ser desenvolvido nesta direção. Pois a idéia de ‘verdadeiro em virtude do significado’ está longe de ser transparente, não apenas por causa( como Quine insistiu a muito) do significado, mas também por causa do ‘em virtude de’. E mesmo supondo que possa, há lugar para dúvidas adicionais se sua conclusão iria seriamente feri o falibilismo, pois mesmo que, se compreendemos uma verdade lógica corretamente, não poderíamos deixar de reconhecer sua verdade, isto garantiria a correção de nossas crenças lógicas somente se tivermos também alguma maneira segura de estarmos certo de ter compreendido corretamente um candidato a ser verdade lógica. ( Vale a pena notar a similaridade estrutural entre este comentário e a crítica anterior ao argumento da ‘auto-evidência’.)


[1] Se estou certa ao dizer que um falibilismo interessante e genuinamente epistemológico fará de ‘falível’ um predicado de pessoas em vez de proposições, isto tem a conseqüência de que é mal orientada a tentativa de Popper de acomodar o falibilismo dentro de uma ‘epistemologia sem um sujeito cognoscente’ (ver seu artigo com este titulo em 1972). E se estou certa ao dizer que o falibilismo de agente, pode, de uma modo bastante consistente, estender-se a tópicos cujas verdades são necessariamente verdadeiras, não há necessidade de embaraço(tal como mesmo um ‘falibilista contrito’ como C.S. Peirce manifesta)sobre estender o falibilismo à matemática.

[2] Meus comentários tem muito em comum com a crítica muito astuta de Peirce (1868) da faculdade infalível da ‘intuição’ que Descartes supunha que possuíssemos.

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