O QUE OS LIVROS DE EPISTEMOLOGIA CHAMAM DE “CONHECIMENTO”?

Por

César Schirmer dos Santos
 
Publicado em: externalismo.blogspot.com

Com sua busca frenética por uma tal de “crença verdadeira justificada”, uma boa parte dos atuais manuais de epistemologia, mesmo aqueles voltados a um público iniciante, deixam perplexos aos leitores não iniciados nos pressupostos da nova escolástica que vigora nas publicações de epistemologia – chamo de “nova escolástica” ao conjunto de pressupostos e de omissões que compõem os conteúdos e roteiros ritualizados nos manuais mais populares no mercado editorial e mais influentes entre os especialistas e professores. Não parece haver muito do que normalmente reconhecemos como conhecimento em tais manuais, e há discussões minuciosas sobre questões cuja pertinência é dada como óbvia, embora – como seria de se esperar, é claro – os pressupostos e motivações fundamentais da própria escolástica que os anima não sejam devidamente explicitados. Levando isso em conta, apresento um pequeno esclarecimento, em favor dos leitores que ainda não desistiram totalmente de tais obras.

Na literatura mais geral sobre a investigação do conhecimento, incluindo tanto os novos cânones quanto os novos hereges, de maneira geral o conhecimento recebe duas concepções complementares. Em primeiro lugar, há a concepção do conhecimento como base na qual de fato nos apoiamos, muitas vezes de maneira tácita, na nossa lida com o mundo, com os outros e conosco mesmos. Em segundo lugar, há a concepção do conhecimento como uma conquista individual penosa, e digna de elogio. Essa segunda concepção está no cerne da nova escolástica.
 
Um exemplo de epistemólogo do primeiro tipo é Ian Hacking. Sua investigação epistemológica diz respeito à inferência provável.[1] Sua base é a noção foucaultiana de saber. De acordo com essa concepção, na nossa vida social dispomos de diversos conjuntos organizados de conhecimentos, os quais são mantidos, aprimorados e transmitidos por especialistas. Os especialistas dispõem de teorias, de hipóteses e de preconceitos sobre seus objetos de investigação, os quais formam o corpo dos seus conhecimentos de superfície, os quais flutuam e mudam com bastante frequência. Mas os especialistas também dispõem de um arcabouço conceitual que dá sentido aos seus conhecimentos de superfície. Esse arcabouço é o saber. “Savoir [saber] não é o conhecimento no sentido de um punhado de proposições sólidas. Esse conhecimento ‘de nível profundo’ é mais como um conjunto postulado de regras que determina que tipo de asserções vão contar como verdadeiras ou falsas em algum domínio. Os tipos de coisas a serem ditas sobre o cérebro em 1780 não são os tipos de coisas a serem ditas vinte e cinco anos depois. Isso não é assim porque temos diferentes crenças sobre cérebros, mas porque ‘cérebro’ denota um novo tipo de objeto no discurso posterior, e ocorre em diferentes tipos de asserções”.[2] Dificilmente veremos tal tipo de contribuição nos novos livros introdutórios de epistemologia, o que apenas dificulta a vida de quem busca na epistemologia algum esclarecimento sobre as articulações do que usualmente vemos como conhecimento.
 
Um exemplo de epistemólogo do segundo tipo é Duncan Pritchard. Ele nos diz que “…. dizer que alguém tem conhecimento é creditar essa pessoa com um certo tipo de realização”.[3] Essa concepção da teoria do conhecimento se preocupa em estabelecer as condições nas quais poderíamos dizer que alguém merece ser reconhecido como um realizador ou conquistador epistêmico. Uma dessas condições seria a crença: “Mas para que isso seja uma realização sua, então a crença na proposição é essencial, visto que de outro modo a correção da proposição, onde for correta, não lhe dá crédito algum”.[4]
 
Na segunda concepção de conhecimento, a discussão sobre crenças verdadeiras e justificadas é fundamental, dado que alguns epistemólogos veem tais condições como cada uma necessária, em conjunto suficientes para se reconhecer alguém como conhecedor, enquanto outros ou consideram o conjunto insuficiente, ou rejeitam a necessidade de uma ou outra dessas condições. Na primeira concepção de conhecimento, o uso da metáfora chomskyana dos níveis profundo e superficial leva o epistemólogo a investigar (1) o que as pessoas usam como arcabouço conceitual, (2) quais suas teorias, hipóteses e preconceitos e (3) a articulação entre o nível profundo e o nível de superfície.
 
Enfim, essas são as duas principais maneiras de analisar o conhecimento. Elas são complementares, dado que a concepção que se articula em conhecimento na superfície mais saber do arcabouço conceitual profundo esclarece diversos aspectos do conhecimento que reconhecemos de maneira quase intuitiva, enquanto a concepção mais tímida da nova escolástica traz uma importante reflexão sobre as condições nas quais dizemos que alguém conhece alguma coisa. Ao ler os manuais da nova escolástica, você precisa ter em mente que esses pressupõem, de maneira indevida, apenas a segunda concepção, e por isso omitem discussões sobre a primeira concepção. Cabe a nós leitores ter isso em mente, e retirar o que há de proveitoso em tais leituras.
 
[1] Ver Ian Hacking, Ontologia histórica, p. 38.
[2] Hacking, Ontologia histórica, p. 93.
[4] Idem.
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