WITTGENSTEIN E O EXTERNALISMO

Por

Alexandre N. Machado

em

em Smith, P.J. & Silva Filho, W. (org.) (2007) Ensaios sobre Ceticismo. 
São Paulo: Alameda.

Uma teoria sobre uma determinada propriedade  F é externalista se dela se segue a possibilidade que, de duas coisas que possuem as mesmas propriedades intrínsecas (e, por isso, são intrinsecamente indistinguíveis entre si), apenas uma delas possua a propriedade F. O que determina que uma delas possui a propriedade  F é sua relação com outra coisa. Chamemos uma propriedade assim de externa.  Há muitas propriedades que são obviamente externas. Entretanto, alguns filósofos contemporâneos sustentam, contra boa parte da tradição filosófica, que, apesar das aparências em contrário, certas propriedades que são geralmente consideradas internas  são, ao menos em alguns casos,externas. Dentre essas propriedades estão a propriedade que um indivíduo tem de ter  uma crença cognitivamente justificada (externalismo epistemológico), de ter um evento mental com um determinado conteúdo (externalismo sobre o conteúdo mental) e de ser capaz de usar uma expressão lingüística com um determinado significado (externalismo semântico).

Há dois outros aspectos do externalismo filosófico que são importantes. Um deles é uma ênfase no caráter social daquilo que determina a posse de uma propriedade externa. Quando o argumento contra o internalista baseia-se principalmente nesse aspecto, o externalismo recebe o nome de “anti-individualismo”. O outro aspecto importante do externalismo é o caráter não-
epistêmico daquilo que determina a posse de uma propriedade externa. Isso significa que, se F é uma propriedade externa, é possível que a seja F e não saibamos isso.

Esse último aspecto do externalismo tem conseqüências que, à luz da tradição (internalista), parecem absurdas. Para um externalista epistemológico, é  possível que um sujeito tenha uma crença cognitivamente justificada e seja incapaz de identificar explicitamente (não tenha acesso cognitivo a) aquilo que
a justifica. Se a identificação daquilo que justifica cognitivamente uma crença
constitui a justificação dessa crença, então se pode dizer, de um modo um tanto paradoxal, que, para um externalista, um sujeito pode ter uma crença justificada e ser incapaz de produzir uma justificação dessa crença.Para um internalista, isso é simplesmente impossível. Para um externalista semântico, é possível que um sujeito use um termo de modo incorreto e não tenha acesso cognitivo àquilo que mostraria o seu erro, a saber, o significado do termo.Para um internalista, isso é simplesmente impossível.

O presente texto visa apresentar, em caráter preliminar, uma avaliação wittgensteiniana de alguns pressupostos de um dos principais argumentos em favor do externalismo semântico: o experimento mental da Terra Gêmea, desenvolvido por Putnam no seu clássico “The Meaning of ‘Meaning’”. Primeiramente pretendo mostrar que alguns dos mencionados pressupostos externalistas parecem implicar a possibilidade do erro maciço.A seguir pretendo expor esquematicamente um argumento wittgensteinano contra essa possibilidade. Esse argumento procura mostrar que o erro maciço é incompatível com a normatividade essencial da linguagem.

Esse aparente conflito entre a filosofia de Wittgenstein e o externalismo não esconde as semelhanças entre ambos. Entretanto, creio que essas semelhanças
são algumas vezes exageradas.Embora a idéia wittgensteiniana de publicidade da gramática tenha afinidades com o externalismo semântico, a idéia de autonomia (ou “arbitrariedade”) da gramática parece estar em franco conflito
com ele. Mas vou tratar desses últimos pontos apenas de passagem no final do
texto.

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