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MOORE E A PROVA DO MUNDO EXTERIOR

outubro 28, 2011

Kant no prefácio da Crítica da Razão Pura já apontou a necessidade de uma prova das coisas exteriores, e, de fato, é importante dar provas das coisas exteriores. Kant apontou como escândalo o fato de a Filosofia não apresentar provas para a existência de objetos exteriores.

Há uma longa tradição filosófica que confunde três expressões: “coisas exteriores a nós”, “coisas exteriores” e “coisas exteriores a nossa mente”, foram usadas como sinônimas de forma equivocada. O próprio Kant reconheceu que a expressão “coisas exteriores a nós” é ambígua.

Kant para distinguir empiricamente os objetos exteriores dos objetos exteriores no sentido transcendental, chama os primeiros de “coisas que se devem encontrar no espaço”. A partir dessa expressão, pode-se encontrar nesta categoria todas as coisas que conhecemos como objetos físicos, no entanto, coisas como a sombra, não podem ser incluídas na categoria de objetos físicos.

Kant usa a expressão “apresenta-se no espaço” como equivalente a “deve-se encontrar no espaço”. Porém, há coisas que apresentam-se no espaço, contudo não são encontradas nele. Exemplos disso são as imagens posteriores, imagens duplicadas, dores corporais e sensações posteriores.Tais coisas devem ser reconhecidas como objetos exteriores, ainda que não sejam encontradas no espaço.

Moore expressa que se interessa em prover provas para as “coisas que devem se encontrar no espaço”, de tal forma que se existe uma planta e um cão segue-se que há coisas que se devem encontrar no espaço, pois não pode existir um cão que não possa ser encontrado no espaço.

“Coisas que devem ser encontradas no espaço” está relacionada a “coisas exteriores a nossas mentes”. Assim, deve-se distinguir o que é exterior a minha mente do que está em minha mente, com minha mente eu penso, imagino e lembro.

Portanto, é necessário deixar claro que tenho uma experiência quando não estou inconsciente, nem sonhando, nem tendo visão ou alguma coisa do tipo. Enquanto essas coisas estão em minha mente, meu corpo é exterior a ela. Neste sentido, “coisas que devem ser encontradas no espaço” é diferente de “exterior a nossas mentes”, pois do fato de que existem coisas que não encontramos em nossas mentes não se segue que há coisas que podem ser encontradas no espaço, já que podem existir coisas no espaço que não são percebidas por mim. As coisas que se encontram no espaço que eu percebo, essas são exteriores a minha mente.

Por conseguinte, se posso provar que existe uma mão e uma folha de papel, terei provado que há duas coisas que são exteriores a nossa mente, e quantas coisas não posso provar!

Pode-se provar que duas mão existem ipso facto, mostrando-as. Por exemplo, a melhor forma de provar que um livro contem erros de impressão é abrindo-o e mostrando. E pelo mesmo modo, posso provar que objetos exteriores existiram no passado.

Alguns querem que se prove que “aqui está minha mão e aqui está outra”. Moore acredita que tal tipo de prova não se pode dar.

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WITTGENSTEIN E O CONHECIMENTO DE OUTRAS MENTES

outubro 27, 2011

Wittgenstein demonstra a incoerência da idéia de que nomes para sensações e nomes para experiências ganham significado pela associação com um objeto mental, por exemplo, a palavra dor pela associação com a sensação dor.

Está claro que alguém pode manter relações consigo mesmo, por exemplo, se dar ordens, se castigar, etc. Agora, vamos pensar como seria se nós tomássemos nota de nossas vivências internas, será que seríamos entendidos por outrem?

Essa linguagem que expressa as vivências internas de um sujeito pode ser chamada de linguagem privada. Tal linguagem é conhecida apenas pelo falante.

A palavra dor é conectada com uma sensação que ela nomeia através de uma definição privada, que se configura na tentativa de uso da palavra para essa sensação. Assim, a dor é uma sensação epistemicamente privada.

Por ser uma sensação epistemicamente privada, só o sujeito sabe de modo indubitável que sente dor. Por outro lado, não posso conhecer de modo direto o que  o outro sente, já que o externo nem sempre está conectado com o interno.

Como dissimulação e fingimento são sempre logicamente possíveis, não se pode nunca se estar certo de que uma pessoa esteja realmente tendo a experiência que ela pelo seu comportamento parece estar tendo.

O signo, neste caso, a palavra dor, não substitui nem descreve a sensação, apenas serve para que outros saibam que tenho tal sensação. De forma que, a palavra dor é uma substituição parcial do gemido.

Eu percebo que alguém sente dor quando este manifesta alguns comportamentos, porém a base disso não está na indução, mas no assentamento lingüístico.

A dor não é acompanhante do grito ou gemido, e nem está por trás destes, mas está visível neles. A dor não é o mesmo que o comportamento de dor, pois alguém pode estar com dor e não o demonstrar. Portanto, pode ser enganador inferir dor pelo comportamento de outrem. Além de que o fingimento ocorre em todas as circunstâncias.

INDUÇÃO PARA RUSSEL

outubro 3, 2011

Os dados passados dos sentidos são conhecidos como coisas que existiram no passado. A questão é se podemos fazer inferências a partir desses dados dos sentidos. Para que isso possa ocorrer é necessário que o conjunto de coisas que conhecemos seja um sinal da existência de outra espécie de coisas e assim por diante. Somente assim, conforme Russel, podemos estender nosso conhecimento para além da esfera privada.

O Sol sairá amanhã, dificilmente conseguiremos uma prova para esta assertiva, porém podemos buscar crenças que sendo verdadeiras justificariam essa assertiva.

Se alguém nos pergunta por que cremos que o Sol sairá amanhã, a resposta que temos, prima facie, é que ele saiu invariavelmente todos os dias. Se alguém for mais longe ainda e nos perguntar sobre que base nós sustentamos essa crença, então recorremos as leis do movimento. Portanto, questionar se o Sol sairá amanhã, é questionar se as leis do movimento ainda serão válidas amanhã, pois a saída do Sol pela manhã é um caso particular do funcionamento das leis do movimento.

No entanto, o ponto nefrálgico da discussão é se um número qualquer de casos em que uma lei funcionou proporciona a evidência que funcionará no futuro. Se respondermos negativamente, segundo a visão de Russel, então não teremos razão para acreditar nos fatos mais rotineiros de nossa vida como o nascer do Sol ou mesmo que o pão terá um sabor distinto amanhã do que ele sempre teve.

O problema, visto de outro modo, é o questionamento se temos razão para crer que tudo o que ocorreu ou ocorrerá é o caso de alguma lei universal e que não há exceção alguma a ela, o que se chama de uniformidade da natureza. Para Russel, as leis universais que possuem exceção são englobadas por leis que não possuem.

Se duas coisas ocorrerem juntas com grande freqüência, chegaremos quase a uma certeza que no futuro elas ocorrerão juntas. Com base nisso, Russel esboça o seguinte princípio indutivo:

1-    Quanto maior a freqüência com que A estiver associado a B, maior é a probabilidade que assim aconteça em um novo caso;

2-    Quanto maior o número de casos, mais perto se chega da certeza.

Assim, segundo o filósofo, mesmo com as exceções não podemos perder as esperanças no futuro, pois toda a nossa conduta está baseada em associações que ocorreram no passado e que cremos que ocorrerão no futuro.