Archive for the ‘Acidentalidade’ Category

NOTAS SOBRE CETICISMO E PROBLEMA DE GETTIER

julho 19, 2010

Assistam a palestra do professor Emerson Carlos Valcarenghi, acessando o link abaixo

http://www.ustream.tv/recorded/7374523

 

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A AMEAÇA DA ACIDENTALIDADE

julho 17, 2010

Por

Roberto Hofmeister Pich

em

Veritas, Porto Alegre, v.50, n.4, Dezembro 2005

Klein foi bem-sucedido em mostrar o quão diferentes são as versões do externalismo de confiabilidade e do de função própria, quanto à ameaça da acidentalidade da crença verdadeira. Formulo com remendos o exemplo originalmente forçoso:

O Sr. Lesão tinha um aparato cognitivo perfeito até que, num desafortunado dia, sofreu uma lesão cerebral séria. Desde então, ele não mais consegue pôr as coisas em ordem, e a maior parte do seu conhecimento desaparece. A sua lesão cerebral lhe causa todos os tipos de percepções anormais e faz com que realize inferências deveras peculiares. Mas, além de causar no Sr. Lesão todos os tipos de proposições falsas, a sua lesão cerebral faz com que ele creia que tem uma lesão cerebral. Nota-se, ademais, que o Sr. Lesão não tem evidência – pelos sentidos, pela memória, introspecção, etc. – de que é anormal dessa maneira: interpreta o seu grupo de crenças incomuns como resultado de concepções originais e ousadas que refletiu sobre o mundo e a existência. Assim, a sua forma particular de lesão cerebral e as leis da natureza são tais que a sua lesão cerebral causa nele a crença em ao menos uma proposição verdadeira, junto com muitas outras crenças falsas.

Mesmo pressupondo que formulações confiabilistas do conhecimento responderiam ao contra-exemplo com muito mais sofisticação,23 parece-me justo afirmar que, (i) para o confiabilista, uma crença verdadeira é acidental do ponto de vista cognitivo sse é verdadeira, mas o processo que a produziu é tipicamente um que não resulta em crenças verdadeiras. Assim, o Sr. Lesão tem conhecimento, porque a crença verdadeira, do ponto de vista cognitivo, não é acidentalmente verdadeira. (ii) Para o adepto do externalismo de função própria, a acidentalidade cognitiva, ali, não se dá por “falta de evidência”, mas porque a crença surge como resultado de uma “anormalidade cognitiva”. A receita de contra-exemplos é pensar num evento e, tal que ele causa que S creia que e ocorre, onde e causa que S forme a crença em questão em virtude de uma anormalidade cognitiva. É um acidente, do ponto de vista cognitivo, que a crença seja verdadeira, pois há falha na obtenção da crença, conforme o plano de desígnio da estrutura noética. O exemplo força a adição de as faculdades noéticas de S envolvidas na produção daquela crença funcionarem propriamente. A crença do Sr. Lesão só é conhecimento se gerada pelo aparato cognitivo funcionando de modo próprio. Do contrário, é, ou ao menos pode sempre ser, um acidente cognitivo. O adepto da autorização por função própria diz, pois, que o Sr. Lesão não tem conhecimento, porque a crença verdadeira é acidentalmente verdadeira, cognitivamente. Numa terceira argumentação, (iii) o defensor da teoria de anulabilidade admite que uma crença é acidentalmente verdadeira se há evidência genuína que anula a evidência na qual se apóia, mas que permanece oculta ao sujeito. Também aqui o sujeito teria “sorte” de chegar à crença verdadeira.Teorias de anulabilidade não serão tratadas neste estudo.

O importante é que Klein mostrou que, mesmo se uma crença verdadeira for produzida sob as condições 1-4, ela pode ser acidentalmente verdadeira do ponto de vista cognitivo: logo, uma crença verdadeira não precisa ser produzida por faculdades funcionando propriamente, para que seja conhecimento. A justa lição tirada por Plantinga dos problemas de Gettier fora que, no sentido internalista, é possível falhar em se ter conhecimento, porque algo, não acessível ao sujeito, como as faculdades cognitivas sob disfunção, ou o ambiente cognitivo “poluído” assimétrico aos módulos cognitivos aplicados ao conhecimento, se impõe, podendo influir na obtenção de crença verdadeira. Porém, é decisivo notar que o aparato cognitivo pode estar funcionando de modo perfeito, nas condições de Plantinga, e ser meramente acidental, cognitivamente, ter alcançado a crença verdadeira. Tome-se o exemplo adaptado, a partir de Klein, da Sra. Jones, a Sortuda:

A Sra. Jones crê que possui um Ford funcionando bem. Ela forma essa crença em circunstâncias normais, usando o seu aparato cognitivo, que funciona de modo perfeito. Mas, como às vezes acontece, sem o conhecimento da Sra. Jones, o seu Ford é atingido e virtualmente demolido pelo caminhão do lixo – enquanto ele está parado lá fora, no estacionamento da sua repartição. Porém, também sem o conhecimento da Sra. Jones, ela recém ganhou um Ford, em perfeito funcionamento, no Concurso Ford, que corre uma vez por ano, nessa época, na companhia onde ela trabalha.

Neste contra-exemplo – aceitando que um contra-exemplo mostra algo só se é claramente possível, e não é claramente possível se mantém dúvida sobre a sua possibilidade –, todas as condições de autorização por função própria são obtidas. Mas, a crença verdadeira não é um caso de conhecimento, porque é claramente obtida por acidente, cognitivamente. E a lição básica é que há, a partir disso, “um Problema de Gettier Generalizado”, isto é, “se autorização pode ser transferida a partir de uma crença falsa, autorizada [como “O meu Ford, que estacionei há alguns minutos, encontra-se lá fora”], através do exercício próprio das nossas faculdades para uma crença verdadeira [como “Eu (Sra. Jones) possuo um Ford em bom funcionamento”], então aquela crença verdadeira será autorizada, mas não será conhecimento”.O que fazer, a partir daí, com a teoria original?

ACASO EPISTÉMICO E CONHECIMENTO

julho 3, 2010

Por

Duncan Pritchard

Publicado inicialmente em: soturnaprimavera.blogspot.com

É dito frequentemente que o conhecimento aspira à verdade, no sentido em que quando acreditamos numa proposição, acreditamos que ela é o caso (i. e. que é verdadeira). Quando aquilo em que acreditamos é verdadeiro, dá-se uma coincidência entre o que pensamos ser o caso e o que é o caso. Acertamos na verdade. No entanto, se a mera crença verdadeira é suficiente para ‘acertar’ na verdade, podemos interrogar-nos porque é que os epistemólogos, na sua busca por uma boa definição de conhecimento, não se dão imediatamente por satisfeitos, aceitando que conhecimento não é mais do que crença verdadeira – i. e. acertar na verdade.
Há realmente uma boa razão que explica porque é que os epistemólogos não se contentam com a ideia de conhecimento como crença verdadeira. É que uma pessoa pode possuir uma crença verdadeira por acaso, situação em que não poderíamos atribuir-lhe o mérito de acertar na verdade. Suponhamos que Harry fica convencido de que o cavalo Lucky Lass irá ganhar a próxima corrida só porque achou o nome do cavalo engraçado. Esta não é claramente uma boa base sobre a qual devêssemos construir uma crença acerca do vencedor da próxima corrida de cavalos, visto que o facto de acharmos o nome do cavalo apelativo não tem influência sobre a prestação deste durante a corrida.
Supunhamos, no entanto, que a crença de Harry acaba por se tornar verdadeira, que Lucky Lass ganha de facto a corrida. É isto conhecimento? Intuitivamente não, pois a crença é verdadeira apenas por uma questão de sorte. Não esqueçamos que o conhecimento é algo que se alcança, algo que resulta do mérito de alguém, não podendo ser aquilo que alcançamos puramente por uma questão de sorte.
Para enfatizar este ponto, pensemos por um momento no que significa alcançar um feito noutra área, como no tiro com arco. Se alguém é um bom arqueiro, ao tentar atingir o centro do alvo em condições favoráveis (por exemplo, sem um vento demasiado forte), atingi-lo-á habitualmente. É isso que significa ser um bom arqueiro. A palavra ‘habitualmente’ é aqui importante, porque àqueles que não são bons arqueiros acontece-lhes às vezes acertar no centro do alvo, mas não habitualmente. É possível que apontem a seta e que, por sorte, atinjam o centro do alvo. Mas significa isto que quem acerta numa ocasião é um bom arqueiro? Não, pela simples razão de que essas pessoas não seriam capazes de repetir a façanha. Se tentassem outra vez o mais certo é que a seta desaparecesse no céu.
Possuir conhecimento é algo semelhante. Imaginemos que uma crença é uma seta que apontamos ao alvo, nesse caso a verdade. Atingir o alvo e formar uma crença verdadeira é acertar, visto que temos sucesso numa dada ocasião. No entanto, formar uma crença verdadeira não é suficiente para possuir conhecimento, tal como não basta para ser um bom arqueiro acertar no centro do alvo por mera sorte. O conhecimento tem de ser um resultado dos nossos esforços, em vez de um resultado que se alcança por puro acaso. Isto quer dizer que o modo como formamos uma crença deve, em circunstâncias normais, conduzir habitualmente à verdade.
Harry, que forma a crença verdadeira de que Lucky Lass ganhará a corrida só porque gostava do nome do cavalo, é como a pessoa a quem aconteceu acertar no alvo e que não é um bom arqueiro. Formar uma crença sobre a possível vitória de um cavalo, considerando apenas se o seu nome tem ou não tem graça, conduzirá habitualmente à formação de uma crença falsa.
Comparemos Harry com alguém que genuinamente sabe que a corrida será ganha por Lucky Lass. Essa pessoa pode ser, por exemplo, um ‘Mr. Big’, um gangster que viciou a corrida, drogando os outros cavalos para que Lucky Lass ganhasse. Ele sabe que a corrida será ganha por Lucky Lass, pois o modo como ele formou a sua crença, baseando-se na informação privilegiada de que dispunha para pensar que Lucky Lass não poderia perder, conduzi-lo-á normalmente a uma crença verdadeira. Não é por uma questão de sorte que Mr. Big atinge o alvo da verdade.
Deste modo, o desafio para os epistemólogos é explicar o que é necessário reunir à mera crença verdadeira de modo a que se obtenha conhecimento. Em particular, os epistemólogos precisam de explicar o que tem de ser acrescentado à crença verdadeira para capturar esta ideia de que o conhecimento, em contraste com a mera crença verdadeira, é um feito genuíno do agente, algo de que ele é responsável, no sentido de uma crença obtida não apenas por uma questão de sorte.