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CONTEXTUALISMO DE PADRÕES

setembro 15, 2011

Por

Patricia Ketzer

[Trecho de Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Filosofia, Área de Concentração em Filosofias Analítica e Continental, Linha de Análise da Linguagem e Justificação, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM, RS), Sob orientação do Prof.Dr.Albertinho Luiz Gallina]

Em 1978, David Annis publica pela primeira vez o seu artigo A Contextualist Theory of Epistemic  Justification,  no  qual  ele  formula  o que posteriormente  ficou  conhecido  como contextualismo de padrões. Annis (2003)  inicia seu artigo expondo as  teorias da  justificação mais aceitas até então, o fundacionalismo e o coerentismo, e apresenta o contextualismo como uma alternativa que tem sido negligenciada. 

Annis (2003) parte de nossos objetivos epistêmicos mais comuns: buscar a verdade e evitar  o  erro,  para  apresentar  sua  teoria  contextualista.  Quando  uma  pessoa  profere  uma crença, há muitas objeções que podem ser  levantadas contra essa,  todas dentro dos objetivos epistêmicos de buscar a verdade e evitar o erro. A pessoa pode explicitar uma série de razões para  justificar  sua crença, entretanto, é bem possível que  tenhamos, ainda, objeções  a estas razões. Existem  casos  em  que  nenhuma  objeção  é  levantada,  e  assim,  a  pessoa  não  precisa apresentar razões para justificar sua crença, nestes casos não significa que não haja objeções, mas  que  em  geral,  elas  são  dispensáveis. Annis  (2003)  usa  o  exemplo  de  uma  pessoa  que afirma estar vendo um livro marrom através da sala, casos como esse normalmente dispensam tanto razões, quanto objeções.

É  sempre  possível  apresentar objeções  com  o  intuito  de  buscar  a  verdade  e  evitar  o erro, mas exigir que alguém saiba responder a todas as objeções possíveis é um requerimento alto demais para a justificação. Os avanços no conhecimento científico são exemplos disso, a ciência  está  em  constante  aperfeiçoamento,  o  que  é  conhecimento  hoje  pode  não  sê-lo amanhã, se houverem experimentos que constatem erro nas conclusões anteriores. 

No  momento  em  que  se  profere  uma  crença  pode-se  estar  de  posse  das  melhores razões para  fazê-lo, mas  se considerarmos que posteriormente  tais  razões podem  se mostrar errôneas,  teremos  de  admitir  que  existem  algumas  objeções  logicamente  possíveis  que  a pessoa não é capaz de responder no momento em que profere sua crença. Responder a estas objeções  exige  uma  posição  epistêmica  nova,  e melhor,  do  que  a  pessoa  atualmente  está. Segundo Annis (2003, p. 249), isso é inviável:

Serem  levantadas  e  respondidas  as  objeções  não  deveria  requerer  que  os participantes  estejam  em  uma  posição  epistêmica  nova.  O  que  está  sendo questionado é  se a pessoa em  sua presente posição  está  justificada em acreditar h. Assim, a pessoa tem apenas de responder as objeções correntes, isto é, às objeções baseadas na evidência disponível corrente.

Somente considerando o contexto no qual as crenças  são proferidas podemos avaliar se  elas  estão ou  não  justificadas,  pois  responder  às  objeções  requer  que  estejamos  em  uma posição epistêmica em que estas objeções sejam pertinentes. Essa posição epistêmica só pode ser avaliada ao considerar o contexto em que a pessoa se encontra. O conceito de dúvida real, proposto  por  Annis  (2003),  nos  auxilia  a  reconhecer  objeções  que  devem  ou  não  serem levantadas em um determinado contexto, as objeções serão aceitas apenas se  forem  fruto de uma  dúvida  real,  de  inquietações  que  surgem  em  situações  reais.  As  dúvidas  se  colocam quando uma crença é proferida em um contexto no qual ela não é, em geral, mencionada ou aceita  naturalmente, assim,  os  outros membros  do  contexto  são  levados  a  questionar  esta crença, formulando objeções.

Se quisermos exemplificar o que seria uma dúvida  real, podemos pensar na  seguinte situação: Camila vai a  relojoaria consertar seu  relógio, ela afirma ao  relojoeiro: “Eu sei que meu  relógio está marcando o  tempo erroneamente”. O  relojoeiro  faz uma série de perguntas acerca  desta  afirmação:  Que  horas  seu  relógio  está marcando  agora?  Você  o  acertou?  Há quanto tempo você não troca a pilha? Mas entre estas não estão questões filosóficas acerca do conceito  de  tempo,  são  dúvidas  que  surgem  no  relojoeiro  a  partir  da  crença  proferida  por Camila, considerando que ele  será o  responsável  por consertar o  relógio  se a crença estiver justificada.

Objeções  que  não  fazem  parte  do  contexto  são  irrelevantes  e  não  precisam  ser consideradas  por  aquele  que  crê,  o  conceito  de  dúvida  real  auxilia-nos  a  identificar  que objeções  necessitam  ser  respondidas  pela  pessoa  que  profere  uma  crença.  As  objeções oriundas de dúvidas  reais nascem dentro do próprio contexto em que a crença  foi proferida, elas  surgem  a  partir  de  práticas  reais  e  interferem  no  cotidiano,  frente  a  que  exigem  uma resposta, e nestes casos a pessoa buscará a resposta, pois a objeção a mobilizará para tal. 

Segundo Annis (2003) aquele que crê só precisa responder às objeções se há uma alta probabilidade  destas  serem  formuladas  no  contexto  em  questão,  no  caso  de  baixa probabilidade está dispensado de apresentar razões. Annis (2003, p. 249) ainda destaca:

Ela deve  ser  uma manifestação  de  uma  dúvida  real,  que  seja  ocasionada  por  uma situação  real da vida. Assumindo que as probabilidades subjetivas que uma pessoa atribui  refletem  as  atitudes  epistêmicas  efetivas  e  que  essas  são  o  produto  da  sua confrontação com o mundo, a questão acima pode ser expressa como segue. A S não é  requerido  responder  a  uma  objeção  se,  em  geral,  seria  atribuída  uma  baixa probabilidade das pessoas questionarem S.

O contextualismo exige um novo modo de pensar,  inclusive acerca das objeções que se  levantam  contra  uma  crença,  isso  porque,  ao  levarmos  em  conta  o  contexto  temos  de considerar,  além  do  fato  de  as  objeções  surgirem  a  partir  de  dúvidas  reais,  o  fato  de  que somente pessoas que partilham das mesmas crenças podem levantá-las. Se a justificação se dá em  decorrência  de  haverem  crenças  comumente  aceitas  no  contexto,  apenas  pessoas  que compartilham estas crenças podem levantar objeções.

Deste  modo,  levantar  objeções  é  tarefa  do  grupo  objetor,  um  grupo  composto  por pessoas do mesmo contexto, que  levantam objeções para a crença,  respeitando os objetivos epistêmicos  prescritos  (geralmente  a  buscar  a  verdade  e  evitar  o  erro).  Os  objetivos epistêmicos  são  comuns  ao  grupo,  e  estão  em  prol  de  descobrir  se  a  crença  proferida  é justificada, trata-se de um conjunto de pessoas qualificadas para formularem objeções acerca da  crença  em  questão.  Para  responder  às  objeções,  bem  como  para  formulá-las  é  preciso considerar situações reais.

Conforme  Annis  (2003)  há  várias  formas  daquele  que  profere  a  crença  reagir  às objeções que podem ser levantadas: mostrando que a objeção não é pertinente, e desta forma, fazendo com que o grupo objetor  rejeite-a; aceitando a objeção, mas demonstrando que ela não afeta de forma definitiva suas razões para crer, e assim, não basta para fazê-lo abandonar sua crença. A pessoa que profere a crença pode também argumentar que a objeção não é fruto de  uma  dúvida  real,  e  por  isso  não  precisa  ser  respondida  e  pode  ainda  questionar  o  grupo objetor  acerca  de  suas  razões  para  levantar  a  objeção,  e  desta  forma mostrar-lhes  que  não estão em posição de conhecer, ou que sua objeção é falsa.

Um contextualismo de padrões é uma abordagem na qual os padrões para justificação variam  conforme o contexto, assim, para determinar os padrões contextuais  há o que Annis (2003)  denomina  contexto  inquisitivo.  “O  contexto  inquisitivo  é  que  questão  específica envolvendo h está sendo  levantada, ele determina o grau de compreensão e de conhecimento que S deve exibir, e determina o grupo objetor apropriado” (ANNIS, 2003, p. 250). O grupo objetor deve ser composto de pessoas mais ou menos especializadas no assunto de que trata a proposição, isto sendo definido a partir do nível de exigência do contexto inquisitivo. 

Podemos  notar  que  a  concepção  contextualista  de  Annis  mantém  um  dever  em epistemologia, o contexto inquisitivo prescreve como uma crença deve ser para ser justificada naquele contexto, certamente, não há normas que possam ser universalizadas, visto que elas são relativas ao contexto, mas ainda há uma normatividade. Annis (2003) chega a mencionar termos  como  valor  e  utilidade,  termos  estes  comprometidos  com  concepções  morais, concepções  outras  que  as  adotadas  pelo  internalismo  epistemológico,  mas  ainda  uma epistemologia  que  leva  em  conta  conceitos  éticos. Há  um  valor  (ou  utilidade)  no  contexto inquisitivo  que  varia  conforme  aceitamos  as  crenças  quando  estas  são  falsas  e  negamo-las quando são verdadeiras.

Considerando  o  contexto  inquisitivo,  o  grupo  objetor  deve  avaliar  a  exigência necessária para considerar a crença  justificada, dependendo do contexto-inquisitivo se exige pouco ou nada para dar à crença este status, já em outros contextos-inquisitivos uma série de objeções muito fortes são levantadas. O grupo objetor deve considerar as consequências que a aceitação da crença trará. Se aceitar como verdadeira uma crença falsa trouxer consequências graves, então é preciso levantar todas as objeções pertinentes possíveis com relação à crença, mas, se ao contrário,  tomar por verdadeira uma crença  falsa não  trouxer grandes problemas, não é necessário exigir tanto para aceitá-la como justificada.

Pensemos  em  um  exemplo:  No  filme  “Na  natureza  selvagem”,  Chris  McCandless assume  que  a  batata  selvagem  (Hedysarum  alpinum)  é  comestível.  Enquanto  Chris McCandless é estudante e  realiza, por curiosidade,  leituras acerca de alimentos encontrados na  natureza  selvagem, esta é uma crença  falsa que  tem pouco valor  (importância), e que de fato,  não  interfere  em  sua  vida,  porém  quando  ele  resolve  morar  no  Parque  Florestal,  no Alasca, e precisa buscar plantas comestíveis para sobreviver, o fato de que a batata selvagem (Hedysarum alpinum) é na  realidade uma planta venenosa,  teve  tanto valor quanto sua vida. Tomar essa crença falsa por uma crença verdadeira acarretou em sua morte. Em casos como este, em que Chris  teve  realmente de comer a batata, deveria ser  requerido muito mais dele para ser considerado  justificado em sua crença,  já no caso em que ele apenas  lia, por hobby, livros acerca de alimentação natural, era preciso bem menos para dar a sua crença o status de justificada. É desta  forma que para Annis  (2003, p. 250) que os padrões para  justificação se elevam e diminuem conforme o contexto inquisitivo em questão:

O  homem  é  um  animal  social  e,  ainda  assim,  quando  se  chega  à  justificação  de crenças,  os  filósofos  tendem  a  ignorar  esse  fato.  Entretanto,  esse  é  um  parâmetro contextual  que  nenhuma  teoria  da  justificação  adequada  pode  ignorar. De  acordo com o modelo  contextualista de  justificação acima esboçado, quando perguntamos sobre  se  alguma  pessoa S  está  justificada  em  crer h, nós  devemos  considerar  isso relativamente a algum contexto-inquisitivo  específico, o qual determina o nível de compreensão  e  de  conhecimento  requerido.  Isto,  por  sua  vez,  determina  o  grupo objetor apropriado. Para S estar  justificado em crer h  relativamente a um contexto inquisitivo, S deve estar apto a enfrentar  todas as objeções correntes que caiam em (A)  e  (B) que  expressem  uma  dúvida  real  do  grupo  objetor  qualificado,  onde  os objetores  são  investigadores  críticos  da  verdade. Assim,  a  informação  social  –  as crenças,  informações  e  teorias  de  outros  –  toma  uma  parte  importante  na justificação, pois ela, em parte, determina que objeções serão levantadas, como uma pessoa responderá a elas, e que respostas os objetores aceitarão. 

O  contextualismo  defende  a  existência  de  crenças  que  são  aceitas  naturalmente  por qualquer membro do contexto em questão, estas crenças variam em decorrência dos contextos em  que  são  enunciadas.  O  contexto  pode  ser  espaço-temporal,  neste  sentido  ele  varia  de acordo com o  tempo e o grupo social em que estamos  inseridos, mas mais ainda o contexto difere  dentro  de  um mesmo  grupo  social,  uma  comunidade  científica,  por  exemplo,  possui muitos  contextos  diferentes:  a  comunidade  de  físicos,  a  comunidade  de  matemáticos,  a comunidade de psicólogos, de biólogos, entre outras, cada uma possui suas próprias crenças que são aceitas sem que para isso seja necessário solicitar justificação.

O contextualismo exige uma série de mudanças de concepção  frente à epistemologia tradicional, pois  se admitirmos o contextualismo  como  teoria epistêmica devemos  levar  em conta que a ele  não  se aplicam concepções  tão corriqueiras em epistemologia, como as que trabalham com a noção de universalidade. Há de se considerar que as pessoas estão situadas no  tempo  e  no  espaço,  pois  é  nestes  que  se  constituem  os  contextos,  assim,  ninguém  é obrigado a responder questionamentos que estejam além de seu contexto.

Se  analisarmos  um  contexto  científico,  por  exemplo,  o  que  hoje  é  comprovado cientificamente,  com  o  passar  dos  anos  pode mostrar-se  errôneo. Mas  quem  seria  capaz de afirmar  que  a  ciência  não  produz  conhecimento? Tendo  em  vista  as  teorias  tradicionais  de justificação  essa  concepção  pode  parecer  estranha,  visto  que  o  fundacionalismo  sempre buscou uma  justificação que  fosse universalmente válida. Annis  (2003, p. 250) salienta esta questão quando afirma:

Talvez  os  componentes  mais  negligenciados  na  teoria  da  justificação  sejam  as práticas  sociais  e  as  normas  de  justificação  efetivas  de  uma  cultura  ou  de  uma comunidade  de  pessoas.  Os  filósofos  têm  olhado  para  princípios  universais  e  a prioris  de  justificação.  Entretanto,  considere  isso  no  contexto  da  investigação científica.

Um bom exemplo são crenças que foram tomadas como  justificadas na antiguidade, e hoje  já  não  são  aceitas  por  nós.  Segundo  o  contextualismo  isso  não  significa  que  nunca estiveram  justificadas,  pois  temos  que  analisar  os  dados  disponíveis  para  a  pessoa  em  seu contexto. Antes  de  Copérnico,  por  exemplo,  ninguém  ousaria  dizer  que  a  Terra  não  era  o centro estático do universo, hoje sabemos que não é, mas naquela época era muito aceitável dizer  “Eu  sei  que  a Terra  é  o  centro  estático  do  universo”,  e  havia  razões  suficientes  para justificar esta crença.

Para ampliar o exemplo, podemos considerar a suposição que Annis (2003) apresenta: se ao mesmo  tempo em que um cientista terráqueo  tem  todas as evidências disponíveis para crer em uma teoria, e ela está confirmada através das melhores técnicas científicas que temos em  nosso  planeta,  contudo  um  cientista  mais  evoluído,  na  Terra  Gêmea,  rejeita  a  mesma teoria. O  terráqueo continua  justificado em crer, visto que na Terra ainda  não  temos  razões suficientes  para  rejeitá-la,  neste  caso,  trata-se  de  uma mudança  de  contexto  espacial,  e  não temporal, como a acima citada.

Uma mesma  situação  real pode  ter dois ou mais  contextos diferentes, este contexto possui regras que o constituem, e é a partir da variação destas que a mesma situação real pode representar contextos diferentes. O exemplo de Annis (2003, p. 253) ajuda a esclarecer estas regras de mudança de contextos: 

[…]  suponha que  Jones está em uma  festa e pergunta  se  seu amigo Smith está ali. Nada de muita importância depende de sua presença; ele simplesmente pergunta se ele está ali. Talvez ele quisesse conversar com Smith. Ele olha em torno e pergunta a alguns convidados. Eles não o viram por ali. Em tal situação, Jones está justificado em  acreditar  que  Smith  não  está  ali.  Imagine,  agora,  que  Jones  é  um  oficial  de polícia procurando por Smith, um assassino suspeito, na  festa. Meramente olhar de forma casual e perguntar a alguns convidados não é, certamente, adequado. 

Jones  está  no  mesmo  tempo,  no  mesmo  espaço  e  no  mesmo  grupo  social,  mas  o contexto não é o mesmo em ambos os casos. Se Jones é um policial em busca de um assassino as  normas  de  conhecimento  se  elevam,  e  é  exigido mais  de  Jones  para  considerar  que  sua crença é conhecimento do que se ele apenas está à procura de um amigo, em decorrência disto há uma mudança de contexto.

A estrutura proposta por Annis (2003) funciona da seguinte forma: para considerar que uma  pessoa  está  de  posse  de  uma  crença  justificada  é  preciso  considerar  os  padrões  de justificação  da  comunidade  a  que  esta  pessoa  pertence.  É  preciso  especificar  o  contexto inquisitivo em que a crença foi proferida, e definir o grupo objetor apropriado, para que este possa  avaliar  quais  as  objeções  pertinentes  frente  aos  padrões  epistêmicos  em  voga  neste contexto.  O  grupo  objetor  é  oriundo  do  contexto  em  questão,  e  determina  o  nível  de compreensão que é esperado da pessoa que proferiu a crença. Para ser considerada justificada a  pessoa  deve  ser  capaz  de  responder  às  objeções  que  surjam  neste  contexto  inquisitivo, oriundas de situações e dúvidas reais, suas respostas às objeções devem satisfazer as práticas e normas sociais vigentes na comunidade.

Para  Annis  (2003)  as  práticas  e  normas  sociais  de  cada  comunidade  não  podem continuar  a  ser  desconsideradas  pelas  Teorias  da  Justificação,  isso  significa  abandonar  a concepção positivista de neutralidade na ciência, pois se trata de considerar a ciência partindo de como e onde ela é desenvolvida. Annis (2003, p. 251) deixa claro que:

A ciência enquanto praticada produz crenças  justificadas sobre o mundo. Assim, o estudo das práticas efetivas, as quais têm mudado através do tempo, não podem ser negligenciadas. A  tendência atual em  filosofia da ciência vai, assim, em direção a um realismo metodológico e histórico.

Tradicionalmente,  o  pensamento  filosófico  foi  fundado  na  razão,  e  a  razão  foi considerada  universal  e  objetiva.  O  sujeito  sempre  foi  pensado  como  um  sujeito universalizado,  fora  do  tempo  e  do  espaço,  sem  historicidade  e  sem  posição  social,  nestas concepções  o  contexto,  bem  como  as  práticas  e  normas  sociais,  foram  considerados irrelevantes do ponto de vista epistemológico, visto que o conhecimento era pensado como a priori e universal. O contextualismo propõe que passemos a pensar o sujeito do conhecimento como  situado  no  tempo  e  no  espaço  e  influenciado  por  práticas  sociais  vigentes  nas comunidades em que está inserido.
Grimshaw e Fricker (2002, p. 597) afirmam que:
 
Mais do que todas as outras disciplinas, talvez a filosofia seja a que historicamente mais apreciou pensar em si mesma como  fundada na razão; mas uma razão que se supôs universal e objetiva. Supôs-se o sujeito  filosófico como capaz de uma “visão do  olho  de Deus”,  uma  “visão  de  lugar  nenhum”;  uma  “mente  racional”  que  não possui  classe,  sexo,  raça,  localização  histórica  e  social,  nem  mesmo,  talvez,  em algumas  teorias  filosóficas, corpo. A discussão da posição  social dos que praticam filosofia foi vista em termos contemporâneos (de modo bastante desdenhoso) como uma  forma  de  sociologia  do  conhecimento  sem  relevância  alguma  para  questões sobre a verdade ou adequação das próprias teorias filosóficas.  
 

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CONHECIMENTO, CONTEXTO E O PONTO DE VISTA DO AGENTE

janeiro 15, 2011

Traduzido por Bernardo Alonso

[Estes são os três primeiros parágrafos do artigo de Timothy Williamson ‘Knowledge, Context and Agent’s Point of View’, de 2005, que estava traduzindo até surgir uma outra tradução que será publicada este ano. O artigo está no livro Contextualism In Philosophy: Knowledge, Meaning, and Truth, Oxford University Press.]

Contextualismo é relativismo domesticado. Relativismo sobre a verdade geralmente é motivado pela idéia da discordância sem culpa. Imagine dois indivíduos: um (ela) diz ‘P’; o outro (ele) diz ‘Não P’ (1). Aparentemente se P, então ‘P’ é verdadeiro e ‘Não P’ falso, portanto ela está certa e ele errado; se não P, então ‘P’ é falso e ‘Não P’ verdadeiro, portanto ele está certo e ela está errada. Em ambos os casos há uma assimetria entre as partes. Uma vez que P ou Não P (pela lei do terceiro excluído), há de fato uma assimetria entre eles, de um modo ou do outro. Ainda assim as duas partes podem ser consideradas por um observador neutro como um par igualmente inteligente, informado, perceptivo e alerta. Relativistas em relação à verdade empenham-se em dissolver a incômoda assimetria: ‘ “P” é verdadeiro para ela, “Não P” é verdadeiro para ele’. O problema começa quando perguntamos o que os relativistas querem dizer por ‘para’ na construção ‘verdadeiro para X’. Se dizer que algo é verdadeiro ‘para’ X é apenas dizer que X acredita que seja verdadeiro, então a tentativa de dissolução equivale a isto: ‘Ela acredita que “P” é verdadeiro; ele acredita que “Não P” é verdadeiro’. Porém, isso não acrescenta nada além de que ambas as partes acreditam que estão certas; não faz nada para minar o argumento da assimetria entre eles. Relativistas teriam que significar outra coisa para ‘verdadeiro para X’. Quando convidados a explicar o que mais eles pretendem significar, relativistas ferozes vociferam incoerentemente.

Contextualistas, em contraste, possuem uma resposta clara. Uma sentença é verdadeira para X se e somente se é verdadeira quando proferida por X, verdadeira relativa a um contexto no qual X é o falante. Tal relativismo é domesticado porque a relatividade no contexto do valor de verdade de uma sentença permite a incondicionalidade do valor de verdade do que a sentença é usada para dizer em um dado contexto. Quando ela diz ‘P’, ela diz verdadeiramente: não apenas verdadeiramente para ela, mas absolutamente verdadeiro. Quando ele diz ‘Não P’, ele também diz verdadeiramente: não apenas verdadeiramente para ele, mas absolutamente verdadeiro. O argumento a favor da assimetria assume que, quando ela diz ‘P’, ela fala verdadeiramente se e somente se P, e quando ele diz ‘Não P’, ele fala verdadeiramente se e somente se não P. No entanto, essa suposição é apenas tão boa quanto a suposição de que, quando ela diz ‘P’, ela diz que P, e quando ele diz ‘Não P’, ele diz que não P. O contextualismo nega tal suposição nos casos em questão. Se eu relato um falante que profere a sentença ‘P’ como tendo dito que P, na realidade assumo, contrário ao contextualismo, que ela disse em seu contexto o que eu teria dito em meu contexto ao proferir as mesmas palavras.

Uma grande força do contextualismo é que é indiscutivelmente correto com respeito a alguns casos. Se ela diz ‘Eu sou uma mulher’ ao passo que ele diz ‘Eu não sou uma mulher’, normalmente não nos ocorreria, nem por um momento, pensar que eles estão em desacordo, à despeito de que, verbalmente, a sentença dele seja a negação da sentença dela. Nós automaticamente aplicamos a regra que ‘Eu’ quando usado em um dado contexto refere-se ao falante daquele contexto: quando ela usa ‘Eu’, este se refere à ela; quando ele usa ‘Eu’, este se refere a ele. A cláusula descitacional de que eu sou o referente de ‘Eu’ quando usado por ele ou ela não tem força. Assim, quando ela diz ‘Eu sou uma mulher’, ela diz que ela é uma mulher; conseqüentemente, ela fala verdadeiramente se e somente se ela é uma mulher; ela não diz (falsamente) que eu sou uma mulher. Quando ele diz ‘Eu não sou uma mulher’, ele diz que ele não é uma mulher; conseqüentemente, ele fala verdadeiramente se e somente se ele não é uma mulher; ele não diz que eu não sou uma mulher. Ao relatarmos o discurso deles corretamente nós tornamos manifesta a possibilidade de que ambas as partes falam verdadeiramente. Esta deve ser manifesta também para as partes.

CONTEXTUALISMO

outubro 31, 2009

Contextualismo é uma teoria epistemológica que goza de razoável aceitação entre os teóricos da filosofia do conhecimento contemporânea, tem como tese principal a afirmação que conhecimento depende do contexto. Logo, os critérios para conhecimento e justificação são contextuais e irão variar em força. De maneira que o contexto irá determinar qual padrão para conhecimento está correto. O conhecimento nesta perspectiva depende do atribuidor. Assim, nos deparamos com dois tipos de contextos: o contexto do sujeito e do atribuidor.

Esta posição apresenta-se como uma saída contra os argumentos céticos, já que o sujeito terá conhecimento de acordo com as exigências do contexto. Deste modo, em um contexto popular conhecimento é plenamente certo e já em um contexto cético os critérios para justificação e conhecimento são demasiado elevados, impossibilitando o sujeito saber que p.

Ainda que esta proposta seja uma resposta às hipóteses céticas, cremos que há teses nos argumentos céticos que tanto precisam como são dignas de refutação e não é isso que o contextualismo tem em mente com sua resposta ao ceticismo. Parece que as premissas do argumento cético não são dignas de observação.

Outra crítica que tem sido sustentada contra a visão contextualista é que ela mascara um relativismo. Além de que, a epistemologia, conforme Klein possui um caráter normativo para a análise do conceito de conhecimento, enquanto a teoria contextualista aparece como um modo de ver a análise de conhecimento de uma forma essencialmente descritiva.

Esta teoria tem sido discutida amplamente e cada um de seus teóricos tem seu modo peculiar de apresentar-la. Objetivou-se aqui, propor uma visão geral da teoria para a partir daí incentivar o interesse pela mesma, seja para afirmar ou negar a mesma.

Referências

COHEN, S. Contextualism, Skepticism and Structure of Reasons. In: TOMBERLAIN, James e. Philosophical Perspestives 13, Epistemology. Cambridge: Blackwell Publishers, 1999.

DRETSKE, F. Epistemic Operators. The Journal of Philosophy, Vol. 76, 1970, 1007-10023.

KLEIN, P. Concept of Knowledge. In: CRAIG, Edward (Ed.). Routledge Encyclopedia of Philosophy.London/New York: Routledge, 1998. p. 266-276. V.5.