Archive for the ‘Gettier’ Category

O PROBLEMA DE GETTIER

fevereiro 4, 2011

Por

John L. Pollock


[Tradução e adaptação de Vítor João Oliveira.Excerto de “The Gettier Problem” (1986), retirado de Epistemology: Selected Texts With Interactive Commentary, org. por Sven Bernecker (Oxford: Blackwell, 2006, pp. 8-10)]

É raro em filosofia chegar a consenso acerca de qualquer questão substantiva, mas durante algum tempo existiu um consenso quase completo sobre o que se designa “análise tradicional do conhecimento como crença verdadeira justificada”. De acordo com essa análise:

S sabe que p se e só se:

1) p é verdadeira,
2) S acredita que p; e
3) S está justificado em acreditar que p.

No período imediato que antecedeu a publicação do famoso artigo de Gettier (1963) “É o Conhecimento Crença Verdadeira Justificada?”, esta análise era defendida por virtualmente todos os epistemológos. Mas Gettier publicou o seu artigo e alterou, praticamente sozinho, o curso da epistemologia. Conseguiu isso apresentando dois contra-exemplos claros e inegáveis à análise da crença verdadeira justificada. Resumindo o exemplo do Capítulo 1, considere-se Smith que acredita falsamente mas com boas razões que Jones tem um Ford. Smith não faz ideia do paradeiro de Brown, mas escolhe arbitrariamente Barcelona e, do facto putativo de que Jones tem um Ford, infere que Jones tem um Ford ou Brown está em Barcelona. Acontece que por acaso Brown está em Barcelona, pelo que esta disjunção é verdadeira. Além do mais, tal como Smith tem boas razões para acreditar que Jones é dono de um Ford, está justificado em acreditar nesta disjunção. Mas já que os dados de que dispõe não pertencem à proposição verdadeira da disjunção, não podemos dizer que Smith sabe que Jones é dono de um Ford ou Brown está em Barcelona.

Ao ensaio de Gettier seguiu-se uma avalanche de artigos que procuravam responder aos contra-exemplos adicionando uma quarta condição à análise tradicional do conhecimento. A primeira tentativa para resolver o problema de Gettier virou-se para a consideração de que, nos exemplos de Gettier, o agente epistémico alcança uma crença verdadeira justificada raciocinando a partir de uma crença falsa. Isso sugeriu a adição de uma quarta condição parecida com o seguinte:

As razões para S acreditar p não podem incluir qualquer crença falsa.

Contudo, rapidamente se percebeu que se podia construir outros contra-exemplos em que não havia conhecimento apesar de o agente epistémico não o inferir de crenças falsas. Alvin Goldman (1976) construiu o seguinte exemplo: suponha que está a viajar pelo campo e que vê o que pensa ser um estábulo; vê isso de forma clara a curta distância, e tem o aspecto que deve ter um estábulo, e assim sucessivamente; além disso, é um estábulo. Tem então a crença verdadeira justificada de que é um estábulo. Mas as pessoas desse local, para parecerem mais ricas do que realmente são, construíram fachadas de estábulos bem realistas que não se podem distinguir facilmente do que realmente são quando vistas da auto-estrada. Há mais fachadas de estábulos do que estábulos reais. Nestas circunstâncias, não é possível concordar que, apesar de ter uma crença verdadeira justificada, sabe que o que está a ver é um estábulo. Além disso, a crença de que está a ver um estábulo não foi, de forma alguma, inferida da crença na ausência de fachadas de estábulos. Provavelmente, a possibilidade de existirem fachadas de estábulos é algo que nunca lhe ocorreu, e muito menos algo que desempenhou qualquer papel no seu raciocínio.

Podemos construir um exemplo perceptivo ainda mais simples. Suponha que S vê uma bola que lhe parece encarnada, com base no facto de ajuizar correctamente que é encarnada. Mas sem o conhecimento de S, a bola está iluminada por luzes encarnadas e pareceria encarnada mesmo que o não fosse. Então S não sabe que a bola é encarnada, apesar de ter uma crença verdadeira justificada para esse efeito. Além disso, a sua razão para acreditar que a bola é encarnada não envolve a sua crença de que a bola não está a ser iluminada por luzes encarnadas. A iluminação por luzes encarnadas está relacionada com o seu raciocínio apenas porque o derrota, e não porque é um passo do raciocínio. Estes exemplos, e outros relacionados, indicam que a crença verdadeira justificada falha como conhecimento por causa do valor de verdade das proposições não desempenhar um papel directo no raciocínio que subjaz a essa crença. Esta observação conduziu a um número de análises “anulabilistas” do conhecimento. A mais simples consistirá em adicionar uma quarta condição requerida desde que não surjam verdadeiras condições de anulabilidade. Pode ser alcançada da forma seguinte:

Não há uma proposição verdadeira Q tal que se Q fosse adicionada às crenças de S, este não estaria justificado em acreditar p.

Mas Keith Lehrer e Thomas Paxson (1969) apresentaram o seguinte contra-exemplo a esta proposta simples:

Suponha que vejo um homem numa biblioteca a roubar um livro e a escondê-lo debaixo do casaco. Uma vez que tenho a certeza de que esse homem é Tom Grabit, pois vi-o muitas vezes quando assistia às minhas aulas, afirmo que foi Tom Grabit que roubou o livro. Contudo, suponha também que a Sra. Grabit, mãe de Tom, afirmou que, no dia em questão, Tom não estava na biblioteca, que estava mesmo a centenas de milhar de quilómetros de distância, e que quem estava na biblioteca era John Grabit, o irmão gémeo de Tom. Além disso, imagine que desconheço em absoluto o que disse a Sra. Grabit e que, considerando a presente definição de anulabilidade, o conteúdo da sua declaração anula qualquer justificação que eu possa ter para acreditar que Tom Grabit roubou o livro […]

O que se disse antes pode ser aceite até acabarmos a história e ficarmos a saber que a Sra. Grabit é uma mentirosa compulsiva e patológica, que Tom Grabit é uma ficção da sua mente doente, e que, tal como eu acreditava, Tom Grabit roubou o livro. Quando se acrescenta isto, deve ser óbvio que eu sabia que Tom Grabit roubou o livro. (p. 228)

Uma proposta natural para lidar com o exemplo de Grabit é que, além de haver uma verdadeira condição de anulabilidade, há um anulador da condição de anulabilidade, o que restaura o conhecimento. Por exemplo, no exemplo de Grabit é verdade que a Sra. Grabit declarou não ser o Tom que estava na livraria, mas o seu irmão gémeo John (uma condição de anulabilidade), mas também é verdade que a Sra. Grabit é uma mentirosa compulsiva e patológica e que John Grabit é uma ficção da sua mente demente (um anulador da condição de anulabilidade). Contudo, é difícil construir um princípio preciso para lidar correctamente com estes exemplos apelando a verdadeiras condições de anulabilidade e verdadeiros anuladores da condição de anulabilidade. Corrigir a proposta anterior da seguinte maneira não funciona:

Se há uma proposição verdadeira Q tal que se Q fosse adicionada às crenças de S, este já não estaria justificado em acreditar p, então também há uma proposição verdadeira R tal que se Q e R fossem ambas adicionadas às crenças de S, este estaria justificado em acreditar p.

As dificuldades mais simples apresentadas a esta proposta é que ao adicionar R podemos acrescentar novas razões para acreditar p em vez de restaurar as razões antigas. Não é trivial ver como formular uma quarta condição que incorpore anuladores de condições de anulabilidade. Penso que essa quarta condição fornecerá, em última análise, a solução para o problema de Gettier, mas nenhum tipo de solução deste tipo foi ainda explorado considerado na bibliografia.

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LA NATURALEZA DE LOS EJEMPLOS TIPO GETTIER

janeiro 15, 2011

Por

Carlos Emilio García

em

GARCIA, Carlos Emilio. Casos Gettier y razonadores normales. Ideas y Valores,  Bogotá,  v. 56,  n. 135, Dec.  2007

Aun si mi análisis de los ejemplos de Gettier fuera patentemente erróneo, es preciso aceptar que dichos ejemplos funcionan sólo si concedemos que un agente puede engañar voluntariamente al sujeto (primer caso) o que el sujeto actúa con descuido en el proceso de sopesar la evidencia (segundo caso), y me pregunto si bajo estas condiciones todavía podemos hablar de CVJ. En mi opinión, las condiciones que acabo de mencionar son suficientes para destruir cualquier apelación a la justificación. Uno no tiene justificación para creer información proposicional cuando es víctima del engaño. Uno no tiene justificación para creer que una proposición es verdadera, si no ha hecho todo el esfuerzo razonable para eliminar la falsedad. De hecho, si hay espacio para la duda (razonable), entonces no resulta apropiado hacer planteamientos de conocimiento. No deseo defender una epistemología dogmática. No obstante, una caracterización del conocimiento en términos de CVJ no parece ser vulnerable a los contraejemplos tipo Gettier, si se excluye el engaño y se asegura que el adjetivo “justificado” se atribuye de manera apropiada a la evidencia y a las proposiciones que hay en el trasfondo, de tal modo que lo que se considere como justificado sea, o bien incorregible, o verdadero desde el punto de vista fáctico. El buen sentido y una teoría del error adecuada proporcionan una salida del reto de Gettier al defensor de la CVJ.

Creo que Gettier ha puesto demasiada energía para hacer un planteamiento que no es muy controversial, a saber, que cualquier pieza de conocimiento se puede desafiar mediante la objeción adecuada. Como lo probó Descartes, siempre es posible arrojar duda sobre creencias que parecen estar justificadas, pero todos tenemos que aprender a lidiar con estos casos apelando a diferentes estrategias epistémicas. Si uno de los objetivos de Gettier es impedir que los golpes de suerte o las puras coincidencias se consideren como conocimiento, entonces estoy completamente de acuerdo con él. Por otra parte, si él considera que sus ejemplos amenazan seriamente la caracterización de conocimiento en términos de CVJ, me temo que se confía demasiado al momento de evaluar su fuerza.

Pero todavía queda una queja por presentar. Encuentro la mayoría de los ejemplos en la literatura sobre CVJ tan artificiales, que me recuerdan a los libretistas de telenovelas. Ellos bosquejan situaciones posibles, en el sentido de que no son ni físicamente imposibles, ni contradictorias, pero parecen tan traídas de los cabellos que a duras penas se asemejan al curso de los eventos ordinarios. Ya que defiendo el sentido común y creo que nuestro conocimiento del mundo exterior se puede ajustar de manera progresiva, opino que la manera en la que filósofos como Gettier construyen sus ejemplos no ayuda a clarificar nuestras intuiciones sobre la materia en discusión. Semejante grado de artificialidad, por ejemplo, puede impedir que capturemos la esencia misma de lo que está involucrado en el proceso de articular y poner a prueba una caracterización del conocimiento. Los razonadores normales (y creo que esto se puede generalizar al caso de los sujetos cognoscentes humanos normales) no obtienen, usan o evalúan el conocimiento proposicional de la forma en que lo sugiere Gettier. Ellos tratan de asegurarse de que los planteamientos de justificación se sostengan, y emplean estrategias apropiadas para aceptar, modificar y rechazar creencias. Además, hay ciertas creencias ordinarias que se pueden considerar tan firmemente establecidas como algunas verdades formales, y no veo que los ejemplos de Gettier pongan en peligro esta actitud razonable.

Permítanme finalizar este ensayo con una anotación breve sobre un ancestro ilustre de la CVJ. Cuando Teeteto, en el bien conocido diálogo de Platón, sugiere esta caracterización de conocimiento, hay sólo un aspecto que molesta a Sócrates, y le impide aceptar la definición tripartita de conocimiento como adecuada. Y este aspecto es el significado que se le puede atribuir al término “justificación” en la fórmula. Sócrates examina tres posibles significados de “justificación” y los encuentra a todos insatisfactorios. Pero en el Menón, está dispuesto a aceptar que la creencia se torna en conocimiento cuando ha sido apoyada y refinada mediante el logos, ya que desde el punto de vista de Platón el conocimiento se puede traducir como “la aprehensión infalible del ser”. Tal vez la clave para defender de manera exitosa la CVJ contra los casos Gettier pase por una muy cuidadosa definición del término “justificado”.

NOTAS SOBRE CETICISMO E PROBLEMA DE GETTIER

julho 19, 2010

Assistam a palestra do professor Emerson Carlos Valcarenghi, acessando o link abaixo

http://www.ustream.tv/recorded/7374523

 

A RESPOSTA DE NOZICK AO PROBLEMA DE GETTIER

dezembro 10, 2009

Nozick aponta que nos casos de tipo Gettier, a crença verdadeira justificada não é conhecimento, porque se a proposição crida pelo sujeito fosse falsa, mesmo assim, este continuaria crendo nela.

Partindo disso, para ele, o sujeito terá conhecimento,quando S crer que p,e se p fosse falsa, S não continuaria a crer que p.A proposta parece ser bastante atrativa. Veja como ela se adéqua, analisando o seguinte exemplo:

Eu dentro do meu quarto formo a crença que há gatos na minha sala, a partir do dado que ouço miados, vindo da direção da sala. Acontece que, de fato, há gatos em minha sala, porém eles estão em silêncio. Sendo que,os miados que eu ouvi, foram reproduzidos por um celular que tocava na minha sala, no momento.

Neste caso, o sujeito não tem conhecimento, e a resposta de Nozick é que, se não existissem gatos na sala, eu, ouviria o som de miados e continuaria tendo a crença de que havia gatos em minha sala.

Mas, digamos que em circunstâncias distintas, p fosse verdadeira, então Nozick acrescenta mais uma exigência, que é a de, o sujeito deve continuar a crer que p. Portanto, no caso apresentado acima, mesmo eu não ouvindo miados, para ter conhecimento, teria que crer que há gatos em minha sala.

A proposta de Nozick caracteriza-se pela rastreabilidade da verdade da crença. De forma que, p sendo falsa, o meu método não me levaria a crer que p, e p sendo verdadeira o mesmo método me levaria a continuar a crer que p. Assim, o meu método deve me levar a crer que p, apenas quando p for verdadeira.

ANULABILISMO: UMA RESPOSTA AOS CONTRA-EXEMPLOS DE GETTIER?

outubro 4, 2009

Gettier através de dois contra-exemplos, mostrados em um artigo de três páginas, colocou em dúvida a suficiência da definição tripartite de conhecimento, que afirma que para o sujeito saber que p, este tem que ter crença verdadeira justificada. Logo abaixo será mostrado um caso de tipo Gettier:

Caso da maternidade. Uma enfermeira encontra-se no berçário da maternidade e tem diante de si dois bebês recém-nascidos, sendo que ela esteve presente em ambos os partos e os bebês são bastante parecidos. Ela olha para o bebê à sua esquerda e crer que está olhando para o filho de Marta, e de fato aquele é o filho de Marta e não de Maria, mas o que ela não sabe é que ocorreu um erro ao colocar os nomes das mães nas pulseiras que os bebês estavam usando e na verdade o filho de Marta está como se fosse de Maria e vice-versa.

Neste caso temos um exemplo de um sujeito que tem crença verdadeira justificada, mas a acidentalidade não deixou de fazer parte de sua crença, portanto o sujeito não tem conhecimento. Para resolver este problema surgiram várias teorias e dentre elas o anulabilismo que propõe uma quarta condição relacionada a justificação para o sujeito saber que p.
A teoria anulabilista apregoa que o sujeito não tem conhecimento nos casos de Gettier, porque existe uma proposição verdadeira que se passasse a fazer parte do seu conjunto de crenças, esta destruiria sua justificação. Sendo assim, o sujeito tem conhecimento quando sua justificação não for anulável. Em outras palavras, quando não exista uma verdade que ao ser crida não leve a justificação por água abaixo.
Esta é uma proposta muito forte, pois reputa casos de conhecimento como se fossem de ignorância. Veja os casos abaixo:

Caso dos irmãos Grabit. Digamos que eu tenha um amigo chamado Tom Grabit e vejo alguém que parece ser Tom roubando um livro da livraria: eu até chego a acreditar que Tom roubou um livro daquele estabelecimento. Tom de fato roubou o livro. Porém, eu não sei que Tom tem um irmão gêmeo idêntico, John, que é um ladrão e estava na livraria no dia em questão e roubou uma cópia do mesmo livro, só que este estava no banheiro enquanto eu via Tom roubando o livro.

Caso da louca senhora Grabit. Suponha que o caso acima de fato ocorreu com a exceção que Tom não tem um irmão gêmeo, mas que a mãe de Tom, que tem alucinações, admitiu as alegações acerca de John.

O anulabilismo parece resolver satisfatoriamente o primeiro caso, pois se eu passasse a acreditar na proposição que Tom tinha um irmão gêmeo minha justificação seria anulada. No entanto, no segundo caso ao acreditar na proposição que a mãe de Tom ter dito que ele tinha um irmão gêmeo idêntico, John; eu perderia justificação, mas se a mãe de Tom fosse tida como louca e nunca tivesse havido um gêmeo, parece que eu teria sabido o tempo todo que Tom havia roubado o livro.

Referências
DANCY, J. Introducción a la Epistemología Contemporánea. Ed. Tecnos, 1993.
GETTIER, Edmund. Is Justified True Belief Knowledge? Analysis 23, n. 6, 1963, pp 121-123. Reimpresso em MOSER, Paul. Empirical Knowledge – Readings in Contemporary Epistemology. Lanhan: Rowman & Littlefield. 2. ed., 1996.
KLEIN, P. D. Concept of Knowledge. In: Routledge Encyclopedia of Philosophy.London; New York: Routledge, 1998. CD-ROM, version 1.0.